AOS QUATRO VENTOS

Orelhas do livro:
        Depois de Alice e Ulisses, Tropical sol da liberdade e Canteiros
de Saturno, Ana Maria Machado nos brinda com o seu quarto  romance,  Aos
quatro ventos, onde, como  j uma marca  registrada  da  escritora,  os
temas mais atuais e mais  presentes  em  nosso  pensamento  e  em  nosso
cotidiano se desdobram atravs da gil imaginao da autora, numa  prosa
fluente que arrasta imperceptivelmente o leitor do comeo da trama at a
sua concluso.
        Partindo  de  uma  lenda  medieval,  um  anel  mgico  de  forma
transformvel que viria dos tempos de Carlos Magno, o  romance  comenta,
atravs da vivncia de seus protagonistas, temas to variados  e  atuais
como a ecologia, as ligas de  memria,  a  informtica,  a  cultura,  os
livros e sobretudo a vocao do  escritor,  o  anseio  incoercvel  pela
expresso  dos  prprios  sentimentos,  tudo  se   insinuando    e    se
desenvolvendo  naturalmente  atravs  das  vidas  e  das  relaes   dos
personagens.
        Formada em Lnguas Romnicas,  com  doutorado  em  Paris  sob  a
orientao  de  Roland  Barthes,  Ana  Maria  Machado    uma  das  mais
consagradas autoras brasileiras de literatura infantil, paralelamente  
AOS QUATRO VENTOS  sua  obra  adulta.  Traduzida  em  diversas  lnguas,
recebeu,  entre  outros  importantes  prmios,  o  Jabuti,  o   Fernando
Chinaglia e o Casa de las Amricas, de Cuba, alm  de  ter  sido  eleita
membro do jri do Prmio Hans Christian Andersen.
        Com Aos quatro ventos, encontramo-nos novamente com  a  verstil
fabulao e o texto inconfundvel desta admirada e querida ficcionista.



Capa:        Victor Burton



AOS QUATRO VENTOS

Ana Maria Machado

(c) 1993 by Ana Maria Machado

Direitos de edio da obra em lngua portuguesa
adquiridos por
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Bambina, 25 - Botafogo - CEP 22251-050
Rio de Janeiro, RJ
Tel.: 286-7822 - Fax: 286-6755
Endereo telegrfico: NEOFRONT
Telex: 34695 ENFS BR








Reviso de originais
Sonia Regina Pereira Cardoso



Reviso tipogrfica
Maria Jos Arajo
Tereza da Rocha









CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Machado, Ana Maria
M129a Aos quatro ventos / Ana Maria Machado.
 - Rio de Janeiro : Nova Fronteira,
 1993.

ISBN 85-209-0468-8

1.        Romance brasileiro. 1. Ttulo.


CDD - 869.93

93 -0747        CDU - 869.0(81)-3



"Esta lenda, 'tirada de um livro de magia',  foi  retomada,  de  maneira
ainda mais concisa do que consegui relat-la,  pelo  escritor  romntico
francs Barbey d'Aurevilly, num caderno de anotaes indito.  Pode  ser
lida nas notas da edio de La Pliade das obras de  Barbey  d'Aurevilly
(1, p. 1.315). Desde o momento em que  a  li,  ela  passou  a  voltar-me
seguidamente ao esprito, como se o sortilgio (...) continuasse a  agir
atravs                       do                                relato."
 talo Calvino


E tambm ao meu.

A.M.M.


CAPTULO 1




Hoje de manh, quando abri os olhos, os peixes estavam levantando vo.
        Dezenas, centenas de peixes, no dava nem para contar.  Cardumes
inteiros. Bandos em revoada.
        De incio pesades, batiam com dificuldade as  nadadeiras  quase
transparentes, em longos saltos por cima da gua. O esforo gotejava  um
rastro de crculos concntricos na superfcie do mar. Sistemas de  anis
que se sobrepunham e recobriam uns aos outros, pela  decolagem  contnua
de novos animais, aflorando sem parar. Cada vez em  maior  nmero,  mais
concentrados. Depois, aos poucos, alavam o corpo com certa graa  e  se
dispersavam no cu. Asas abertas. Plumas ao vento.  Ganhavam  o  espao.
Bem  espalhados,  planavam  em  correntes  ascendentes.  J  rarefeitos,
miravam l do alto seus alvos mveis. E de repente, mergulhavam em busca
do mundo martimo outra vez.  procura de alimento, na  certa.  Mas  no
saam da gua l adiante, com a comida no bico,  como  qualquer  gaivota
comum. Em vez disso, ficavam. Para nadar l no fundo. Soltar  bolhas  em
vez de gritos pelos ares. Penas convertidas em barbatanas. Vo  lquido,
fluidez aerodinmica. Em busca da superfcie e de novo vo no cu.  Para
recomear logo depois. Ciclo sem incio nem fim. Anel perfeito.  Girando
sem parar.

1

        Fechei os olhos de novo.
        Voltando  escurido, por detrs das plpebras, continuei  ainda
algum tempo vendo as imagens. Ou  a  lembrana  delas,  recortadas  numa
espcie de vermelho opaco, projetado sobre o negrume interior. Movimento
incessante. O peixe, o esforo, a decolagem, o vo, o ar, o  pssaro,  o
descanso, a tenso, o mergulho, o mar, o peixe...
        Aos poucos a viso foi se atenuando.  A  lembrana  foi  ficando
mais ntida. No sobre  a  tela  das  plpebras,  mera  evocao  visual
recente, o negativo do que eu tinha acabado de ver. Mas a memria  real,
l longe, nos meus sete ou oito  anos.  Com  sons  e  calor.  Gritos  de
gaivotas, sol na pele. O barco cortando veloz  a  gua,  vento  a  favor
enfunando as velas, gosto de sal nos lbios. O velho Carlo apontando de
repente:
        - Carlos Augusto, olha ali! Rpido!
        Era sempre assim. Ele mostrava. Eu tinha que ver depressa, antes
que sumisse. Podia ser uma jamanta voadora. Um cardume de tainha pulando
para escapar de algum cao. Sardinha manchando o mar de cor  diferente.
Quase sempre era boto, rodando
        Mas dessa vez no era. Quase no cheguei a ver,  de  to  menor,
to depressa. E inesperado. Nunca tinha visto  antes,  no  podia  mesmo
reconhecer. S vislumbrei num relance o salto ligeiro  e  compridssimo,
esticado, at l longe,  tocando  a  gua  nuns  trs  pontos  antes  de
mergulhar e sumir. Rpido e devagar, ao mesmo tempo. Esquisito.
        - Que peixe era, v?
        - Peixe-voador, claro. No conheceu?
        - Puxa! De verdade? Eu nunca tinha visto... Pensei que ele voava
pra valer, batia asa...

2

        Fiquei meio desapontado. Imaginava que peixe-voador subia  mesmo
no cu, boiava l em cima, no azul, igual a mergulho,  atob,  gaivota,
qualquer uma daquelas aves que comem peixe. Talvez at de vez em  quando
levantasse vo de repente, para comer um passarinho ligeiro e  mergulhar
de novo. Quem  sabe,  at  fosse  capaz  de  cantar.  Era  uma  decepo
descobrir que na realidade no era nada daquilo.
        Mas no tive muito tempo  para  desapontamento.  Meu  av  achou
graa, comeou a rir, ao  mesmo  tempo  que  ficava,  de  repente,  numa
animao de criana, mostrando os peixes-voadores. E havia  uma  poro,
pra todo lado. Ele ria, falava, andava de um lado para outro no  convs,
apontava, tudo ao mesmo tempo. Uma festa.
        Meu av Carlo podia ser uma festa ou um terror. Quando ria, era
um festival completo. Quando zangava, era ameaa de fim do  mundo.  Tudo
nele era grande, imenso. Mais de  um  metro  e  noventa,  num  corpanzil
enorme. De msculo puro, que  a  vida  ativa  da  fazenda  nunca  deixou
assentar gordura naquela carne rija. De  costas,  era  uma  muralha.  Os
ombros eram quase da largura do porta-vestidos de vov Constncia. E  eu
tinha a impresso de que ela deixava sempre abertas, de par em  par,  as
duas folhas de todas as portas do casaro, especialmente  para  que  ele
pudesse passar como um vendaval a qualquer momento, sem  esbarrar.  Vov
pisava firme, ps um pouco voltados  para  fora,  calcanhar  batendo  no
cho, deixando marca  funda  na  terra.  Dentro  de  casa,  seus  passos
exagerados faziam vibrar os tabues de peroba do piso da sala, s  vezes
os clices de licor tilintavam dentro da cristaleira, brindando entre si
 sade do senhor de todos. Andava

3

com o peito bem estufado, costas eretas, balanando os braos,  as  mos
espalmadas, dedos abertos.  Ocupava  todo  o  espao  disponvel.  Usava
chapu de aba larga, panam legtimo, claro, de fita  escura.  Os  olhos
viviam quase sempre apertados, de  tanta  luz  que  entrava  neles,  mas
dentro do casaro ou  sombra  da  mata,  no  meio  dos  cacaueiros,  se
soltavam em todo o seu esplendor dourado e mostravam  as  linhas  fundas
cavadas em volta deles na pele bronzeada. Depois do almoo e do  jantar,
acendia um charuto descomunal  que  lembrava  uma  tora  de  jacarand,
daquelas que os caminhes comeavam a carregar para o sul pelo  atoleiro
da estrada nova. E quando tinha tempo e  estava  de  bom  humor,  ficava
contando caso e soltando baforadas  para  o  alto,  mamando  um  charuto
preguioso, lambido por uma lngua enorme, guardada numa boca de imensos
dentes muito brancos que  se  escondiam  atrs  de  um  bigode  cheio  e
derramado e s se revelavam quando ele ria ou rosnava. Mas da zanga  no
quero lembrar, nunca, at hoje tenho um certo medo que no me envergonho
de confessar, quarenta anos, pai de  famlia,  alto  executivo  e  tudo.
Prefiro recordar sempre a gargalhada. Aquele ronco prvio que sacudia  o
peito e anunciava a exploso.  E  a  inesquecvel  cachoeira  sonora  em
seguida, prolongada, interminvel, renascente quando parecia sumir, raio
humano respondendo s trovoadas de vero,  uma  orquestra  completa  nos
pulmes buscando o cu, musicando uma coreografia que escancarava a boca
e revelava uma obturao de ouro l no fundo, jogava a cabea para trs,
a barriga pra frente, e batia com a mo aberta na mesa ou nas costas  de
quem estivesse  sua frente, enquanto  todo  o  processo  recomeava  em
novos surtos e

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as lgrimas escorriam do canto dos olhos, obrigando a  que  o  leno  de
cambraia sasse do bolso da cala sempre branca para vir  participar  da
festa.
        Lembro que naquela manh eu no sabia se prestava  mais  ateno
nos peixes ou em meu av rindo, eu no sabia de qu. Desconfiava que era
de mim, menino bobo de cidade que s aparecia nas frias,  enraizado  em
terra firme e que nunca tinha visto peixe-voador. Devia at me  chatear.
S que eu no conseguia ficar zangado com ele. E no era por  medo.  Mas
pura adorau Menino l pode se chatear com risada de super-homem? Eu s
podia era esperar crescer e desejar ser como ele. Ao menos um pouquinho.
Sonhar com o impossvel. Sabendo que era sonho, que nem eu  nem  ningum
ia conseguir ter aquele tamanho e aquela agilidade.
        Ainda mais naquela idade, percebo hoje, na  lembrana  da  forma
fsica surpreendente para seus mais de sessenta anos. Mas quando eu  era
pequeno, vov Carlo era eterno, no tinha idade. Contava histrias  que
o pai dele contava, do tempo dos escravos, nas terras de  Nova  Vencia.
Dizia que nasceu logo depois da Abolio, no primeiro ano da  Repblica.
Mas para mim tudo era um passado s, coisas da Histria  do  Brasil.  Se
ele dissesse que viu as caravelas de Cabral chegarem ali perto, em Porto
Seguro, aonde ele j tinha me levado um dia, eu ia  acreditar  piamente.
Ou se soubesse que ele tinha ajudado escravo fugido a lutar em  Palmares
ou outro dos quilombos, claro que eu ia saber que era verdade. J  tinha
tantas vezes ouvido meu av dizer que todo homem tem que ser seu prprio
dono e segurar firme as rdeas de sua vida... E j tinha visto -  e  at
passado o dedo de leve - nas duas

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cicatrizes de flechadas que  ele  trazia,  uma  nas  costas  outra  meio
embaixo do peito. E ouvido muitas  e  muitas  vezes  a  histria  delas.
Flechadas de verdade. De ndios Aimors. Aqueles mesmos que  no  colgio
eu aprendi que eram canibais - desconfiava at que foram eles e  no  os
Caets que comeram o bispo Sardinha quando ele naufragou ali no  sul  da
Bahia. Mas com o velho Carlo eles no puderam. Quer  dizer,  flecharam,
prenderam, deixaram um tempo no meio deles, dormindo em  rede,  comendo
peixe moqueado, tomando banho no rio. Mas da a  algum  tempo,  meu  av
estava ajudando no trabalho. E a no tinha jeito. Ele sempre foi assim.
Trabalhava com tanto gosto que a gente tinha  vontade  de  bater  palmas
para a fora que ele fazia, para a maneira organizada de  arrumar  tudo,
para o resultado bem feito daquele esforo. Isso ele no contava, mas  a
gente sabia. E entendia por que, depois de trabalharem juntos, ele e  os
ndios ficaram amigos. Vai ver, j eram amigos antes e  nem  sabiam.  De
qualquer modo, soltaram vov Carlo. E ele desistiu de abrir  a  estrada
pela terra dos Aimors, deu uma  volta  enorme,  encompridou  tudo,  mas
passou por outro lado que no atrapalhava mais ningum.
        - Acorda, Guto. Est na hora...
        A voz de Vanda  cortou  minhas  lembranas.  Mas  eu  j  estava
acordado, s que de olhos fechados. Tornei a abrir  as  plpebras  e  l
estavam eles outra vez. Os peixes levantando vo e virando pssaros  que
mergulhavam e viravam peixes de novo. Coloridos, desenhados ntidos,  no
papel de um embrulho enorme. Uns se transformando nos outros, graas  ao
jogo de negativo-positivo do artista. Reconheci o  desenho.  Um  artista
holands, se no me engano,

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 um sujeito chamado Escher. J tinha  visto  um  livro  dele,  cheio  de
iluses de tica. S no sabia o que aquilo estava fazendo ali, na minha
mesa de cabeceira, ocupando toda a minha viso ao despertar. Num  quarto
estranho.
        Virei um pouco de lado, vi Vanda sorrindo para mim,  sentada  na
beira da cama. Minha cama, meu quarto  no  novo  apartamento,  eu  ainda
estranhava aquele espao, aquela disposio dos mveis.
        - Fiquei com pena de te  acordar,  voc  estava  to  tranqilo,
parecia at meio sorridente.
        - Pode ser. Estava sonhando com meu av. Ou lembrando dele,  nem
sei bem se eu estava dormindo ou acordado.
        - Mas  que est na hora, meu bem. Para voc  poder  tomar  caf
com calma e no ter que sair correndo para o escritrio. Onibus da  Ana
Carolina j passou h uns dez minutos.
        Olhei o relgio. Vi que havia uma certa folga de tempo.
        - A reunio das dez hoje s vai ser s onze. Deita aqui comigo.
        Vanda se chegou, se aconchegou  no  meu  abrao,  acabou  de  me
despertar da melhor maneira que um homem pode acordar. A maior sorte  da
minha vida  ter uma mulher como ela, uma filha como  a  Carol.  Eu  sei
disso a cada minuto. Tem horas que me d um aperto no peito,  s  com  a
idia de que um dia pode acontecer alguma coisa com uma delas.  Mas  pra
que pensar nisso?
        Quando finalmente tive que levantar e  me  virei  para  sair  da
cama, deparei de novo com o tal embrulho  estampado  com  o  desenho  do
Escher.

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        - O que que  isso?
        - Um presente para voce...
        Acabei de acordar.  Lembrei.  Aniversrio  de  casamento...  Dez
anos.
        - Tambm tenho uma coisa para voc. Deixe eu pegar.
        Abri a gaveta. Apanhei um embrulho mido no canto. Dei a  Vanda.
Enquanto ela desmanchava com  cuidado  o  lao  do  barbante  fino,  fui
rasgando os peixes e pssaros. Espalhei em cima  da  cama  um  monte  de
artigos de escritrio.
        - Para inaugurar a escrivaninha nova - explicou ela.
        Fui  olhando.  Tinha  de  tudo,  dessas   coisas    de    design
internacional, linhas puras, bonitas. Um calendrio permanente em que os
dias eram marcados por um m. Suporte para fita adesiva. Uma espcie de
bandeja com divisrias para clipes, elsticos, borracha,  essas  coisas.
Com tudo isso j previsto, cada item embrulhadinho em papel  celofane  e
preso com durex no espao a que  estava  destinado.  Um  jogo  de  cinco
canetas pretas, de diferentes espessuras, num estojo bem  desenhado.  Um
copo  de  guardar  lpis  ou  pincis.  Esptula.  Grampeador.  Tesoura.
Mini-fichrio. Blocos, uma agenda. Uma caixa de papel verg creme.  Meia
dzia de lpis com borracha na ponta, presos num elstico dourado.  Tudo
combinado, numa mesma linha. Coisa fina. Para  a  mesa  que  a  loja  de
mveis mandara entregar na vspera e que pusramos  no  quarto  do  novo
apartamento onde, enfim, eu ia ter um escritrio  s  meu,  separado  da
mesa de trabalho de Vanda, das estantes de livros da famlia  inteira  e
da salinha de televiso.

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        - Ah, Guto!  lindo! E fica timo no meu dedo... Como  que voc
 adivinhou?
        Vanda esticava o brao, inclinava a mo para um lado  e  para  o
outro, contemplava o anel.
        Dei um beijo nela.
        - No tem o que adivinhar, minha querida.  Depois  de  dez  anos
casada com um cara que nunca te deu uma aliana nem um anel,  achei  que
valia a pena marcar a data. J que a tradio   essa,  vamos  seguir  a
tradio...
        Vanda me abraou. Depois tirou o anel do dedo,  revirou  a  jia
para um lado, para o outro, enfiou outra vez no anular da mo  esquerda,
tornou a sorrir:
        - Adorei, Guto. No vou mais tirar do dedo. Vai  ser  meu  nico
anel.
        - Vai dispensar a argolinha da vov Constncia? No acredito...
        Rimos. Uma piada nossa, tecida da nossa histria.
        Minha av Constncia nunca teve aliana  de  verdade,  usava  no
dedo um aro de metal muito velho, uma espcie de anel que meu av Carlo
tinha dado a ela quando a pediu em casamento. Isto  para  substituir  um
outro, daqueles de papel que vm enrolando charuto, e que ele  lhe  dera
muitos anos antes, quando ela era criana e ele j era homem feito. Cada
um dos dois anis  tinha  uma  histria,  daquelas  compridas  que  vov
Constncia adorava contar. Vanda sabia bem, mas eu nem lembrava direito,
s lembro que tinha caso de pescaria no meio.  O  que  no    vantagem,
porque histria em que entrava meu av sempre  tinha  caada,  pescaria,
expedio pela mata, dias de viagem a cavalo, essas coisas. De  qualquer
modo, quando minha av j estava viva e com mais de setenta anos, um

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dia me ligou e pediu para eu passar l  no  apartamento  em  Copacabana,
porque ela estava meio adoentada. Eu estava comeando  a  sair  com  uma
garota nova, tinha hora marcada, no  queria  atrasar.  Mas  sempre  fiz
qualquer coisa que a velha me pedisse, foi ela que me criou quando minha
me morreu. Resultado: passei  l  com  a  garota,  Vanda.  As  duas  se
entenderam muito bem, comearam a se ver e, pouco depois, logo antes  de
minha av morrer, ela  deu  o  tal  anel  velho  e  oxidado  para  minha
namorada. Que, surpreendentemente, levou o caso a srio e passou a  usar
aquele aro pesado no dedo, como se fosse mesmo uma jia, uma aliana  de
verdade.
        - Bom, dispensar, no vou, no. Mas acabei de dar  o  anel  para
voc, no reparou?
        - No... Cad?
        - Est a. No meio do presente. Veja se descobre.
        Olhei bem, com ateno, procurando. Pode parecer fcil, mas  no
. Porque entre  as  vrias  coisas  esquisitas  dessa  argola,  a  mais
estranha  que o metal tem uma certa elasticidade.  Alis,  no  sei  se
elasticidade  bem a palavra. Essa idia que me veio hoje,  de  escrever
um pouco para estrear a nova escrivaninha e o  material  que  ganhei  de
presente, est me mostrando que s vezes  difcil  encontrar  um  termo
para dizer exatamente o que eu estou pensando. Sei que  esse  metal,  ou
essa liga  de  metal,  sei  l,  tem  uma  propriedade  rara.  Chamo  de
elasticidade meio por aproximao. Talvez seja melhor descrever como uma
espcie de maleabilidade a frio. Ou a morno, quando est aquecido com  o
calor do corpo do usurio. Quando Vanda descobriu isso, ficou fascinada.
Parece que foi num dia em que quis prender um leno de  pescoo  ou  uma
echarpe

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 fina sem dar n, resolveu passar por dentro da argola, e  viu  que  ela
mudava de forma. No, no  bem isso. Est mal explicado.  No  muda  de
forma.  sempre um aro, fechado, uma circunferncia metlica. No mximo,
incha num ponto, desenvolve uma superfcie externa achatada, para o lado
de fora da mo, assim como um anel de grau truncado - deve ser efeito de
golpes ou presses da outra palma, ou algum obstculo. Sem pedra. Alis,
a sensao  mesmo essa, a de uma  jia  rstica    qual  falta  alguma
coisa. Como se guardasse um lugar para  um  dia  se  encaixar  uma  gema
preciosa meio bruta. Mas, embora continuando  rgida,  ela  pode  perder
espessura e ganhar extenso. Ficar uma argola mais fina e maior. Como se
tivesse elasticidade. Depois dessa descoberta, Vanda ficou eltrica. Ela
 professora de cincias e no podia resistir. Saiu fazendo  experincia
e pesquisando. Passou a usar a aliana de minha  av  para  tudo.  Virou
mania. Prendia o cabelo com ela, botava no pulso como se fosse pulseira,
amarrava aqueles grficos em rolo de cartolina que costuma levar para as
aulas. S no descobriu que liga de metal era aquela, nem  porque  tinha
essa propriedade. Isso, no conseguiu saber nunca, at  hoje.  Por  mais
que pergunte, procure em livro, tente raspar para examinar partcula  em
microscpio. Diz que talvez o nico jeito de saber fosse derreter o aro,
tentar analis-lo quimicamente. Mas isso ela no teve coragem de  fazer.
O gosto pela argola  foi  maior  do  que  a  curiosidade  cientfica.  E
acabamos nos acostumando com a esquisitice do objeto e esquecendo  dela,
aceita j como normal.
        De repente, bati com os olhos no anel.
        - Achei!  o elstico em volta dos lpis...

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        Era mesmo. E agora est aqui na minha frente, j  outra  vez  um
anel  perfeito,  grosso,  at  meio  abrutalhado,  cheio  de  marcas   e
arranhes, talvez mesmo o vestgio gasto de onde antigamente se encaixou
alguma pedra, tudo com uma ptina que no deixa de ter  sua  beleza.  Ou
ento sou eu que vejo nele uma certa magia, porque foi de minha  mulher,
e antes dela foi de minha av, e quem deu para ela foi meu  av,  que  o
encontrou dentro da barriga de um peixe que pescou num lago na Sua, na
vspera de voltar para o Brasil depois  de  ficar  anos  estudando  pela
Europa.
        Agora  meu. Fao com ele o que quiser. Botei em cima das folhas
de papel que fui enchendo de palavras,  escritas  com  os  lpis  novos.
Assim a brisa que entra pela janela aberta no espalha tudo.
        Meu anel faz peso, assenta o que escrevi e deixa tudo em ordem.
        Posso dormir sossegado.





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CAPTULO II





Vanda fechou o jornal, foi at a porta  do  escritrio  e  perguntou  ao
marido:
        - Guto, no tem nada que valha a pena na televiso. Vamos jantar
cedo para pegar um cineminha depois?
        Ele mal levantou os olhos do que fazia:
        - Hoje no vai dar. Quero adiantar isto aqui. Vamos deixar  para
amanh...
        Fez uma pausa, olhou para ela, e acrescentou:
        - Alis, tive uma idia tima. Este negcio de  escrever  a  mo
est ficando muito demorado. Acho que vou trazer  uma  das  mquinas  do
escritrio. Tem umas novas, eletrnicas, bem  leveS.  Vou  experimentar.
Deve render muito mais.
        Vanda olhou bem para ele, entrou  no  escritrio,  sentou-se  na
poltrona. Preparou-se para continuar a conversa, pensou em  sugerir  que
ele  ditasse  num  gravador  para  uma  das  secretrias   da    empresa
datilografar depois, mas  imediatamente  percebeu  que  ele  j  voltara
inteiro para as folhas de papel, nem reparava  que  ela  estava  ali  ao
lado.
        Sorriu para si mesma. Tinha conscincia de que talvez a  maioria
das mulheres se preocupasse com uma reao  dessas,  interpretvel  como
sintoma de negligncia. Ela, no. J vinha notando a mudana  h  alguns
dias, com absoluta incredulidade. Resolveu testar:

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        - Ento acho que vou convidar a Llia para ir comigo.
        Silncio. Chamou o marido pelo nome para despertar sua ateno e
repetiu a frase. Ouviu de volta:
        - Para ir onde?
        - Ao cinema, acabei de te dizer...
        - Ah, desculpe... Me distra.
        E mudando de tom:
        - Boa idia, vai sim... E se sua irm no puder ir, por que voc
no vai sozinha?  capaz de dar para pegar uma sesso mais cedo, a gente
deixa para jantar quando voc voltar...
        Vanda teve a sensao que seus alunos deviam ter quando  faltava
o professor da ltima aula e todo  mundo  podia  sair  cedo.  Ou  de  um
feriado inesperado. Nem telefonou para Llia. Despediu-se do marido  com
um beijo rpido, passou um batom ligeiro, pendurou  a  bolsa  no  ombro,
tomou o elevador at a garagem. No carro,  ligou  o  rdio  e,  enquanto
dirigia, foi cantarolando junto,  uma  dessas  canes  descartveis  de
parada de sucessos, coisa que em geral ela abominava.
        Nem podia acreditar. Pela primeira vez em  dez  anos,  ia  a  um
cinema sem o marido. Um filme escolhido s  por  ela...  at  mudava  os
planos, deixaria para ir com  ele  assistir  ao  outro,  em  que  estava
pensando antes. Agora ia aproveitar para ver aquele  que  h  um  tempo
estava querendo e ele no queria. Se soubesse que Guto ia curtir tanto o
seu escritrio no  novo  apartamento,  teria  levado  menos  tempo  para
arrumar tudo e organizar a mudana, j poderiam estar  l  h  uns  dois
meses. Talvez, em alguns aspectos, um tanto acampados, mas poderiam.

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        At comprou pipoca, como criana em matin.  Assistiu  ao  filme
com prazer, nem sabia direito se pelos prprios mritos do  documentrio
sobre ursos, de que seus alunos tanto falavam, ou se  pela  sensao  de
liberdade.
        Era sempre muito seletiva, se recusava a compactuar com  o  lixo
cultural. Por fora da profisso, tinha necessidade de se manter  sempre
atualizada e bem informada sobre novas descobertas,  teorias,  progresso
tecnolgico em geral. Sobrava-lhe pouco tempo  para  perder  com  o  que
chamava de chiclete mental.  Preferia  aproveitar  seu  lazer  de  outra
maneira, ficar  toa pensando, ouvir boa msica em casa,  mergulhar  num
bom livro, andar num parque, ir  praia, caminhar, conversar com amigos,
em vez de ler bobagem, ouvir rudos travestidos  de  sons  musicais,  ou
assistir a espetculos que no lhe acrescentavam  nada.  Acompanhava  os
lanamentos pela imprensa e era uma rata de livraria - principalmente da
livraria de sua irm, onde tinha uma conta permanente. Sabia  que  fazia
parte de uma espcie em extino, como  a  baleia-azul  ou  o  mico-leo
dourado - a dos espectadores e leitores exigentes. Por tudo isso,  tinha
plena conscincia  de  que  no  havia  motivos  objetivos  para  que  o
filmezinho apenas interessante a  que  acabara  de  assistir  a  tivesse
deixado nesse estado de exaltao.
        Quando pensou nisso, na volta para  casa,  foi  continuando  uma
linha fluente de raciocnio que vinha seguindo  de  vez  em  quando  nos
ltimos dias. Andava sentindo um certo alvio inesperado, como quem tira
um sapato  que  no  sabia  estar  apertando.  Surpreendia-se  com  essa
Constatao. Nunca achou que Guto lhe pesasse em nada. Mas  notava  que,
desde que vieram para o novo aparta-

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mento e ele se empolgara tanto com o fato de  ter  um  quarto  para  seu
escritrio exclusivo, ela tambm se sentia mais  solta,  mais  relaxada.
Sinal de que antes estava meio presa e nem reparava.
        Na  certa,  por  causa  do  temperamento  dele.  Guto  era    um
compulsivo. Quando gostava de uma coisa ou de algum, s pensava  nisso,
o resto do mundo  desaparecia.  Bem  que  a  av  dele  avisou,  naquele
primeiro dia em que se conheceram, na frase com que saudou a chegada  do
neto:
        - Eu sabia que voc vinha, Carlos Augusto. Para voce,  eu  estou
sempre em primeiro lugar.
        E quando Vanda no sabia se achava aquilo ridculo ou se  ficava
com cimes, a velha se virou para ela, fez um sinal para que sentasse  a
seu lado no sof e acrescentou:
        - Quer dizer, isso era antes de voc chegar... Agora vai ser sua
vez, minha filha.  Voc  vai  ver  s...  Ele    um  rapaz  muito  bom,
trabalhador, leal, um homem de  bem...  Incapaz  de  lhe  deixar  faltar
qualquer coisa...
        - Deixe disso, v - interrompeu Guto, constrangido.  -  A  Vanda
assim fica sem graa. E eu tambm...
        - Podem ficar sem graa o quanto quiserem, mas  verdade. Voc 
um homem com quem eu sempre pude contar. Igualzinho a seu av. Pra  ele,
sempre foi Deus no cu e Constancinha na terra. Uma bno  na  vida  de
qualquer mulher ter um homem assim. E eu tive dois... o meu Carlo,  que
sempre cuidou de mim e, depois que ele morreu, este meu neto  aqui,  que
continuou tomando conta da av a vida inteira... Este rapaz vale ouro.
        - Deixe disso, dona Constncia - brincou ele, para disfarar.  -
Fica at parecendo conversa de vende-

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dor quando quer desencalhar estoque... A moa nem me conhece direito e a
senhora fica dizendo essas coisas, ela pode ficar assustada.  Quando  eu
for me candidatar a presidente, vou  lhe  chamar  para  organizar  minha
campanha...
        Mas nos meses que se seguiram, Vanda  constatou  que  a  ligao
entre av e neto era mesmo muito intensa. E que,  por  algum  motivo,  a
velha decidira agora incorporar a moa a esse universo, talvez  sentindo
que ia morrer logo, querendo entregar Guto a quem ela achava que poderia
cuidar dele. Como se ele ainda fosse um menino e precisasse de  cuidados
especiais. Tomou-se de amores por  Vanda  e  passou  a  cham-  la  para
conversar de vez em quando. Coisa que nao pesava para ela. No s porque
estava se envolvendo cada vez mais com o rapaz, fechando  as  cicatrizes
de uma separao um tanto recente, mas tambm porque dona Constncia era
interessantssima,  lcida,  afetiva,  engraada.  Tinha  um  repertrio
inesgotvel  de  casos,  lembranas  de  menina  no  comeo  do  sculo,
histrias da fazenda, das plantaes  de  cacau,  dos  carregamentos  de
madeira.  E  conhecia  uma  poro  de  ervas  medicinais,  receitas  de
emplastros e chs, coisas que na  poca  estavam  interessando  muito  
jovem, recm-formada, vagamente pensando em  fazer  um  estudo  sobre  a
flora medicinal brasileira, talvez um trabalho de ps-graduao.
        Ouvinte atenta e boa observadora, Vanda  aprendeu  muita  coisa,
durante esse tempo.  De  um  lado,  no  plano  objetivo,  fez  um  curso
intensivo de histria familiar e arqueologia do cl dos  Bittencourt  da
Cunha. Mas teve tambm um lado mais interno, feito  de  coisas  que  foi
reparando sozinha. Principalmente sobre Guto, claro.

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        Em primeiro lugar, ficou comovida ao perceber a dedicao dele a
dona Constncia, a pacincia que tinha com a av, o  carinho  genuno  e
sem condescendncia que mostrava por ela. Isso a atraiu muito,  revelava
um universo afetivo raro, que a fascinou. Um homem que era capaz de amar
daquela maneira uma av velha, decididamente, a  interessava.  Ao  mesmo
tempo, foi distinguindo nele outro trao que passou a admirar. Uma certa
tenacidade organizada que o levava a trabalhar muito, e com  entusiasmo,
e ainda assim encontrar tempo para adivinhar  e  satisfazer  os  menores
desejos de dona Constncia, mesmo no formulados. Uma  clareza  absoluta
em relao a suas prioridades. E naquele momento,  compreendendo  que  a
vida da av estava se apagando, era ela que se sobrepunha a tudo.  E,  o
mais incrvel, fazia isso de maneira natural, sem  deixar  que  a  velha
percebesse qualquer esforo em  seu  comportamento.  -  Ele  sempre  foi
assim... - dizia ela.
        Vanda fingia acreditar. Se  dona  Constncia  ficava  feliz  por
achar que durante toda a vida  tinha  sido  o  objeto  de  um  amor  to
obsessivo, que achasse. De dois amores, alis. Porque quando ela  falava
do marido, parecia que tinha sido assim sempre, com ele tambm.
        Hoje em dia, quando se lembrava disso,  Vanda  j  no  duvidava
mais. Nesses dez anos com Guto, tinha constatado que podia ser  verdade.
No conhecia outro caso,  nunca  tinha  ouvido  falar  de  obsesso  to
intensa e to duradoura por algum, que pudesse  se  comparar    que  o
marido tinha por ela. E sabia como isso podia  incomodar.  Nesse  tempo,
sua reao passou da incredulidade ao  deslumbramento,  e  deste  a  uma
certa irritao ocasional. Agora, aos

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poucos se dava conta de que j tinha evoludo para algo mais pesado, uma
sensao de sufoco, areia movedia, algo que  a  prendia  tanto  que  s
vezes comeava a ter vontade de se soltar e  jogar  tudo  longe,  fugir,
ficar livre.
        Provavelmente era por isso que ir ao cinema sem ele  virava  uma
festa.
        De volta em casa, enquanto jantavam, falou com animao no filme
a que tinha assistido. Guto concordou:
        -    impressionante  como  os    animais    podem    ser    to
interessantes... Eu sei que muitas  vezes  no  compreendia  bem  o  seu
entusiasmo quando voc falava  neles.  Mas  agora  entendo.  Lembro  que
quando voc estava lendo aquele  livro  do  Lorenz  sobre  comportamento
animal e falava nisso toda hora, eu achava que a sua vibrao era s uma
espcie de deformao profissional.
        - Mas voc at leu o livro e gostou.
        - Li para ficar mais perto de voc, entender os  seus  assuntos,
sei l... Era uma forma de participar da sua vida, um jeito de  te  amar
como outro qualquer. S que, de verdade, eu no estava  me  interessando
pelos bichos, mas por voc.
        Riu e acrescentou:
        - Quer dizer, eu lia sobre os gansos selvagens e as gralhas  mas
meu entusiasmo mesmo era pela Vanda... Minha florzinha,  minha  orqudea
selvagem...
        - E agora? - perguntou ela, realmente curiosa. - Por que    que
est achando os animais mais interessantes? - Nem sei direito, mas  acho
que  porque estou chegando mais perto deles com esse projeto, tendo que
ler mais, saber mais coisas, ordenar as idias para escrever a proposta.
Estou comeando a achar fascinante esse mun

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do dos beija-flores, cada hora descubro uma coisa nova,  inacreditvel.
No pensei que eu ia ficar assim, desse jeito. Quando comeou, para  mim
era um projeto corriqueiro, como os que fazemos  todos  os  anos.  Agora
estou gostando, de verdade.
        - Mas em que ele  diferente de tantos Outros  projetos  em  que
voc j se envolveu antes?
        - Ah, Vanda, no sei. Acho que nem . Vai ver, sou eu que  estou
diferente agora, nem sei por qu.  mais um  livro  bonito  numa  edio
especial, de brinde de fim de ano. Como tantos outros  que  a  gente  j
fez... Todo ano a empresa promove uma poro de  coisas  nessa  rea  de
marketing, patrocnio, voc sabe. Isso para  mim    secundrio,  sempre
foi,   s  uma  questo  de  imagem  pblica,  iseno  fiscal,  enfim,
perfumaria. O  que  me  interessa  mesmo  so  os  negcios  em  si,  as
exportaes, o mercado internacional, acompanhar tudo, decidir, estar em
contato dirio com o mundo todo, viver atento s novas tecnologias, tudo
isso. No preciso explicar, voc acompanha tudo  h  tanto  tempo...  Se
duvidar, conhece melhor do que eu.
        - Por isso mesmo  que estou perguntando. Por que desta vez est
 diferente? No consigo entender...
        - Talvez porque desta vez  eu  quis  apresentar  a  proposta  do
projeto pessoalmente.  Eu  mesmo  escolhi  o  assunto,  eu  mesmo  estou
redigindo... Vai ver,  por isso. Estou com uma ligao mais pessoal com
o projeto desse livro e isso est me envolvendo mais  diretamente.  Como
se fosse um hobby, uma  atividade  de  lazer.  De  verdade,  nem  parece
trabalho, estou curtindo tanto...
        Vanda insistiu, atenta:

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        - Mas a minha pergunta continua de p. Por que  desta  vez  est
sendo assim? Por que voc agora resolveu escolher um assunto e  redigir,
em vez de deixar isso com os profissionais da rea?
        - No, so eles que vo desenvolver, eu no  estou  entrando  na
seara  de  ningum.  Estou  dando  s  as  linhasmestras  do    projeto,
apresentando uma justificativa para defender a publicao  do  livro  na
reunio da diretoria.
        -  Guto,  no  desconversa...   Voc    est    me    entendendo
perfeitamente. H anos vocs fazem essas coisas, e  so  outras  pessoas
que se ocupam disso. Por que foi que desta vez  voc  resolveu  pegar  o
pio na unha e voc mesmo fazer? Isso no   da  sua  rea,    trabalho
extra no remunerado, que voc traz de noite para casa. Por qu?
        - Voc tem alguma coisa contra? Se tiver,  s falar...
        Antes que ele dissesse alguma coisa como "eu desisto, voc  sabe
que eu fao tudo o que voc quiser", Vanda deu um  suspiro  e  voltou  
carga:
        - Deixe de bobagem, no tenho nada contra. S  queria  saber  de
onde veio de repente todo esse entusiasmo por beija-flor.
        Ele pensou um pouco antes de responder:
        - Confesso que, de verdade, no sei. Primeiro, acho que  comeou
por sua causa. Mas a foi mudando. Eu queria lhe fazer uma surpresa, mas
fui sendo levado para outro lado.
        Ela ficou quieta, s ouvindo. Sabia que  ele  ia  desenrolar  os
pensamentos para dividir com ela. - Bom,  a  empresa  continua  querendo
marcar uma imagem de atuao na rea ecolgica, dando seguimento ao  que
estamos fazendo nos ltimos anos, mostrar ao p

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blico o trabalho de reflorestamento e preservao ambiental que  estamos
desenvolvendo,  todas  essas  coisas.  Dentro  de  um  plano  global  de
marketing que inclui a promoo de vrios eventos diferentes, tem tambm
sempre um tema para o brinde de fim de ano, com uma edio  especial  de
um livro, calendrios reproduzindo fotos desse livro, agendas,  cartazes
promocionais essas coisas. Nos ltimos anos, os  assuntos  foram  sempre
meio amplos: a nossa reserva biolgica, a  recuperao  do  man  guezal,
essas  coisas.  Mas  este  ano  achamos  que  poderamos  ter  um   tema
monogrfico, pegar uma espcie local que estamos protegendo e aprofundar
um pouco.
        At a, nenhuma novidade. Ela conhecia o  processo  e  sabia  de
tudo. Mas esperou com calma que ele continuasse:
        eu quis te fazer uma surpresa. Pensei em fazer  um  livro  lindo
com teu nome, um jeito secreto de gripara o mundo todo que eu te amo  e,
ao mesmo tempo, saber que s voc vai entender, s voc pode ouvir.
        - Com meu nome? - repetiu ela, reconhecendo na confisso o  Guto
de sempre, amoroso e obsessivo.
        - Pois ... A sua irm no diz sempre  que  Llia  e  Vanda  so
nomes de orqudeas? Pensei que a gente podia patrocinar um  livro  lindo
sobre a Vanda.
        - Voc no tem jeito mesmo. Quando cisma  com  uma  coisa,  fica
irracional. Um livro sobre a Llia, tudo bem,  brasileira,  a  mata  da
reserva deve estar cheia de Laelias... Mas a Vanda  no    uma  espcie
nativa nossa,  da sia. - Pois , meu amor. Ainda bem que eu descobri a
tempo, antes de propor esse tema para o livro. Mas en

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quanto procurava informaes sobre as orqudeas,  descobri  que  algumas
delas so polinizadas apenas por beijaflores. Isso foi logo que a  gente
se mudou para c e eu queria trabalhar um pouco em  casa,  me  acostumar
com o espao novo do meu escritrio aqui. Tinha trazido uns livros  para
casa e comecei a usar aqueles papis e lpis que voc me deu e a  copiar
anotaes sobre beija-flores, s para poder argumentar alguma coisa  com
o pessoal de marketing e a turma que vai cuidar da edio.  Mas  fui  me
empolgando e ficou assim...
        - Quer dizer que vai virar mania? - brincou ela.
        Mas o tom da resposta dele parecia mais srio:
        - Digamos que est virando paixo...

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CAPTULO III




Habitantes exclusivos do hemisfrio ocidental, os beija-flores podem ser
encontrados por todo o territrio das Amricas -  do  Sul,  do  Norte  e
Central - e  nas  ilhas  do  Caribe.  Distribuindo-se  pelas  diferentes
latitudes do continente (embora haja maior concentrao de  especies  na
faixa delimitada pelos paralelos dos cinco graus, ao norte e ao  sul  da
linha do Equador), tambm so capazes de viver em diferentes altitudes e
climas.

        Puxa,  horrvel ter  que  redigir  assim,  nessa  linguagem  de
tratado cientfico ou livro escolar.  Vai  ver,  a  apresentao  de  um
projeto pode ser escrita com mais  jogo  de  cintura  -  como  se  fosse
prxima  linguagem publicitria, por exemplo. Assumindo que  sou  leigo
mesmo. Pelo menos, pode ser  uma  boa  desculpa.  Nesse  caso,  facilita
muito.  s dizer, por exemplo:

Deus fez o mundo em seis dias de trabalho. Depois, festejou. E  criou  o
beija- flor. A Santana se orgulha de apresentar Beija-flor - O porre  do
Senhor.

        No, fica ruim. Vo achar de mau gosto, falta  de  respeito,  a
mesmo  que a  idia  no  emplaca.  Melhor  voltar  a  uma  coisa  mais
comportada, quase no tom de antes.

        Os beija-flores se distribuem por toda a Amrica, de
        Norte a Sul, da plancie ao alto das montanhas. E s. O resto do
mundo no imagina o que est perdendo.

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        Impossvel no interferir no dado objetivo e fazer o  comentrio
pessoal. Quer dizer, possvel , lgico. Eu   que  no  agento.  Ainda
mais assim, com essa liberdade que o computador  d,    s  escrever  e
apagar, brincar, experimentar o quanto quiser. Descubro que sou capaz de
passar horas me distraindo com isso.  Ensaiar  variaes,  supor  outras
formas de comear o texto, outros tons.

Entre as inmeras espcies protegidas graas    poltica  ambiental  da
empresa (e ao inestimvel trabalho do Professor, evidentemente, nunca  
demais recordar, e sua memria merece todas as  homenagens)  na  Reserva
Biolgica de Santana, h dezenas de beija-flores diferentes.

        Essa ficou especialmente  horrvel.  Parnteses  demais,  coisas
suprfluas intercaladas, talvez  at  fora  do  lugar.  E  linguagem  de
chavo. Pronto,  s apagar.
        Sumiu. Sem deixar rastros.
        Maravilha esta maquininha, este Mac, este  mximo.  Escrever  em
computador tem essas vantagens.  extremamente higinico, no se  guarda
sujeira. Pode ser a escrita da dieta - corta gordura. Ou  a  escrita  do
acmulo, evidente, se o fregus preferir  ir  acrescentando  sem  parar.
Depende de quem usa.
        Ser que algum j estudou os efeitos do processador  de  textos
na literatura contempornea? Estudar mesmo, para  valer.  Se    que  j
existe uma certa distncia para isso, talvez ainda seja prematuro.
        Mas    bvio  que  existe  uma  relao    ntima    entre    o
desenvolvimento tecnolgico e a evoluo da linguagem artstica. No caso
da literatura, no tenho a menor idia de como isso se  processa,  nunca
tinha pensado nisso antes,

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nunca fui muito chegado nesse negcio de escrever. S agora,  por  causa
dos beija-flores,  que  estou  experimentando.  Mas  provavelmente  no
ocorreu nada to significativo no campo da escrita desde a  disseminao
do papel. A prpria inveno da imprensa no  deve  ter  infludo  quase
nada no ato de fazer, apenas na possibilidade de multiplicao do que j
estava feito. Quer dizer, dava a certeza de um aumento  de  mercado  que
deve ter alterado o prprio processo de produo, isso eu admito. Mas  o
ato da escrita em si no mudou, continuava a ser a mo, molhando a  pena
no tinteiro, rabiscando, borrando, passando a limpo. Talvez a mquina de
escrever possa ser considerada um  grande  passo,  isso  sim.  Deu  para
diminuir a distncia entre as diferentes velocidades: a de pensar e a de
botar no papel. Mas ainda ficou um abismo. Nesse sentido, o  processador
de textos  uma revoluo, ainda que a rapidez do  pensamento  nunca  v
mesmo ser aproximada por coisa alguma. Mas ter um  meio  como  este  nas
mos, deve mudar bastante a escrita. No pra mim, amador (e bota  amador
nisso...), s me divertindo com um brinquedo novo. Mas para um  escritor
de verdade, a possibilidade de experimentao, velocidade e substituio
deve ter efeitos inesperados. Algo como introduzir uma varivel temporal
no ato de escrever. Aproxim-lo da msica, talvez.
        No caso da msica, alis, nem precisa chamar a  ateno  para  a
influncia da tecnologia na linguagem. Como  uma arte  que  s  sai  da
abstrao  atravs  de  instrumentos,  passa  logo  por  uma    mediao
tecnolgica evidente. Qualquer leigo percebe. Nem  necessrio fazer uma
retrospectiva na histria dos metais ou no desenvolvimento da

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acstica para enxergar essa evidncia. Cada um de ns lembra como era  a
msica antes dos sintetizadores, por exemplo, e como  agora.
        Tambm  muito interessante pensar o que aconteceu  na  pintura.
Antes da revoluo industrial, quando as caldeiras a vapor no  existiam
e a metalurgia ainda no se sofisticara, cada pintor fazia  as  prprias
tintas no ateli, misturando pigmentos  em  potes  e  cadinhos.  Depois,
foram sendo descobertas ligas  metlicas  novas,  mais  maleveis,  mais
dceis. Foi  possvel  fabricar  tubo  de  tinta  para  guardar  os  ps
coloridos, j misturados em leo. A as cores ficaram portteis - era s
guardar numa maleta e sair  pintando  ao  ar  livre,  procurando  a  luz
melhor. Pronto, podia nascer  o  impressionismo.  E  como  esses  mesmos
metais novos podiam agora ser enrolados no encontro entre  os  plos  do
pincel e o cabo, achatando-se essa juno, ficava  possvel  inventar  a
trincha para se somar ao pincel redondo tradicional. Em outras palavras,
facilitava a pincelada chata e vibrante a que os  impressionistas  tanto
iriam recorrer...
        Em suma, pode ser que  agora,  depois  da  mquina  de  escrever
(ainda mais da mquina  eletrnica,  aquela  que  eu  andei  usando  nas
ltimas semanas  fantstica) e da copiadora, mas, principalmente,  aps
a chegada do processador  de  textos,  as  coisas  mudem  na  literatura
tambm. Pode ser que passe a haver mais romances, por exemplo. Justo  na
hora em que o livro tem concorrentes visuais cada  vez  mais  poderosos.
Quer dizer, mais gente escrevendo e menos gente lendo,  at  engraado.
De qualquer  jeito,  a  poesia  j  est  achando  outros  caminhos,  se
misturando muito com msica, virando letra. E outras formas, como

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roteiro de cinema, por  exemplo  (ao  que  dizem,  sempre  escrito  numa
corrida  contra  o  tempo),  passam  a  ficar  mais  fceis.  Novela  de
televiso, ento, nem se fala. Impensvel pelos meios  tradicionais.  Se
no fosse assim, no dava para acontecer na escala em  que    feita  no
Brasil, captulos inteiros criados diariamente ao sabor das respostas do
pblico, das pesquisas de opinio e da  mudana  das  circunstncias  do
pas. E talvez at mesmo venha a aumentar, por exemplo, a quantidade  de
romancistas, j que diminui uma parte do trabalho  braal  de  escrever,
reescrever, corrigir e passar a limpo um romance em suas vrias versoes.
Deve ficar mais atraente, ainda mais para quem  no  tem  secretria  ou
mulher para datilografar o texto que o marido acabou de escrever.  Se  
exato o que a Llia outro dia  estava  dizendo,  que  muitos  de  nossos
escritores fazem assim. Mas a Llia  tem  uns  exageros,  gosta  de  uns
discursos feministas, pode no ser bem isso. De qualquer modo,  agora  a
mulher do romancista pode de repente descobrir que tambm escreve,  quem
sabe?
        O fato  que, de verdade, a partir do momento em que  comecei  a
brincar de escrever, fui descobrindo um outro universo.  Parecia  at  a
primeira vez que mergulhei, h tantos anos, l na Ilha Grande. Criado em
praias de mar batido e gua algo turva, no meio de atracao  de  navios
no cais e barcos de pescadores, ou descendo em ondas na  costa  carioca,
eu sabia que a gua  salgada    minha  outra  casa,  mas  s  vivia  na
superfcie dela. No podia imaginar  que  logo  ali  embaixo,  a  poucos
metros, s vezes menos de trs, tudo j era to diferente. O silncio, a
gravidade menor, a fluidez, as  sbitas  velocidades.  A  prpria  viso
deformada, tudo outro. E eu de estranho. Visitante estran-

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geiro que precisava aprender os cdigos, estar sempre atento,  vigiar  o
oxignio, ter cuidado com a presso. Mas no conseguia  mais  ficar  sem
mergulhar. Mudou minha vida, passei a entender tudo  de  outra  maneira.
Hoje eu sei que os homens so s uma  poeira  nesta  casca  do  planeta,
cisco que vai de um lado para o outro e mal arranha a superfcie. O  que
conta est no fundo do mar.  E  eu  precisava  ser  muito  escritor,  de
verdade, supertarimbado, pra conseguir botar em palavras tudo  o  que  o
mar tem me ensinado pela vida afora,  nem  me  meto  a  tentar.  Conheo
minhas limitaes. Antes de mergulhar, no. Eu me achava o maior.  Agora
sei. Pude me recolher a minha insignificncia, como diria minha av.  Ou
melhor,  insignificancia de todos os homens. E o que  me  ensinou  isso
foi o mergulho. O mundo da gua.
        Escrever est sendo assim. Nunca pensei que, de repente,  eu  ia
gostar tanto desta brincadeira. Verdade que   muito  difcil.  A  gente
querer explicar uma coisa que est na cabea, precisar  dividir  com  os
outros, e no conseguir encontrar as palavras que  vo  ajudar  a  fazer
isso, porra!, d um desespero, vontade de jogar tudo longe  e  desistir.
Ir para a praia, ou tomar chope com os amigos. Mas  vou  sacando  tambm
que essa dificuldade   uma  cachaa.  Ou  melhor,  quando  se  consegue
venc-la,  um vinho de safra rara,  a  ser  saboreado  devagar,  olhado
contra a  luz,  aspirado  com  prazer.  Pode  mesmo  ser  uma  atividade
fascinante. Um vicio.
        Agora ento, com este Mac  em  casa,    difcil  resistir.  Nos
primeiros dias, ainda me atrapalhei  um  pouco  com  a  nova  liberdade,
estava mais acostumado com os programas  usados  na  empresa,  dirigidos
para outro tipo de

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objetivo. Mesmo o espao fsico daquela parafernlia na mesa  me  deixou
pouco    vontade,  de  incio.  Era  drive,  teclado,  mouse,  monitor,
impressora, um monte de fio  saindo  por  todo  lado.  Agora  acostumei.
Tambm, dominei o programa, no fico mais consultando o  manual  a  toda
hora. E no vejo mais fio se multiplicando na minha frente. Prendi  tudo
l para trs, com a argola  da  minha  av  Constncia,  de  mil  e  uma
utilidades.
        Agora posso me concentrar, s ficar aqui assim, s voltas com  o
projeto dos beija-flores. Para falar a verdade, a  esta  altura  isto  
pretexto. Sei perfeitamente que a idia est  aprovada  e  o  tema  est
decidido, embora a deciso no esteja ainda oficializada numa reunio de
diretoria. Eu  que mando, eu sou o responsvel  pela  rea,  o  que  eu
resolver est bom. Por outro lado, o assunto tem tudo a ver  com  o  que
estamos fazendo. Nosso trabalho de preservao ambiental  real,  no  
conversa fiada para ingls ver. Como se no bastasse,  a  nossa  reserva
biolgica foi criada pelo Professor, um cientista reconhecido  no  mundo
inteiro, o maior especialista internacional em  beija-flor,  o  primeiro
sujeito na histria a conseguir estudar essa ave  para  valer.  Alm  do
mais, ecologia est mais na moda do que nunca, o material fotogrfico j
est a nossa disposio, a questo dos direitos  de  reproduo  j  foi
acertada. Enfim, no tem nenhum problema. Eu podia estar fazendo  outras
coisas e ter entregue isso a qualquer  daqueles  meninos  que  ficam  l
estagiando. No tenho realmente que fazer  nenhuma  defesa  do  projeto,
vender a idia a ningum. Basta uma apresentao pro forma.
        S que eu mesmo  quis  fazer.  Quero,  fao  questo.  No  est
atrapalhando nada do trabalho. Ainda hoje fe-

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chei um contrato de exportao importantssimo com os alemes, o  Dieter
ficou satisfeito, ns tambm, um negcio  bom quando  feito assim,  as
duas partes ficam contentes. Os beija-flores  no  interferem  em  coisa
nenhuma. S cuido deles de noite, quando chego em casa e sento na frente
do Mac. Talvez eu estivesse h muito tempo  trabalhando  demais  e  isso
esteja  sendo  uma  espcie  de  descanso  para  mim,  eu  devia   estar
precisando. Higiene mental. Como se fosse uma  terapia.  Ou  uma  festa.
Frias. Como as que eu tinha quando era criana e ia passar  trs  meses
seguidos na fazenda com meus avos.
        Engraado eu escrever isso agora. Pensando bem, acho que   isso
mesmo.  um jeito de passar uma temporada com eles. No s porque  tinha
um monto de beija-flor l na mata e no terreiro em  volta  do  casaro.
Mas porque foi meu av Carlo que me levou pela primeira vez na casa  do
Professor. Eu e minha prima Maria da Glria. Lembro como se fosse hoje.
        Em geral, quando a gente ia para a fazenda logo  no  comeo  das
frias, no saa mais de l, at a hora de voltar  para  as  aulas.  Era
Natal, Ano Bom, festa de Reis, So Sebastio,  Carnaval,  tudo  por  l,
entre o mato, a vila, a praia e o cais. Mas teve um ano em que  apareceu
por aquelas bandas um tal de Hans,  alemo,  fotgrafo,  carregando  uma
parafernlia de mquinas, lentes e trips, e uma carta  de  apresentao
para meu av. Ficou mais de uma semana por ali. Fotografou as flores  de
cacau no tronco,  bem  de  pertinho.  Fotografou  os  navios  carregados
sumindo no mar, l longe. Era dique pra todo lado, a toda hora.  E  mais
peixada, doce feito pela minha av na sobremesa, rede na varanda  depois
do almoo. Quem sabe uma boa

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mestia traada s escondidas pelas areias ao  luar  ou  na  modorra  da
sesta nas esteiras? O prprio paraso tropical... Mas  tinha  que  fazer
sala pra  pagar.  E  no  escapava,  depois  do  jantar,  das  conversas
interminveis com o velho Carlo, entre uma baforada  no  charuto  e  um
gole de licor de cacau  nos  clices  de  opalina  vermelha,  sados  da
cristaleira especialmente porque tinha visita.
        Foi numa dessas conversas que surgiu o assunto  de  orqudeas  e
meu av falou no  Professor  -  que  ele  chamava  de"aquele  menino  do
beija-flor". Deve tersido a primeira vez que eu  ouvi  falar  nele,  mas
lembro muito bem. O gerador devia estar desligado nessa  noite,  ou  foi
num tempo em que ele ainda nem fora instalado, porque recordo a cara  do
alemo se recortando de  um  fundo  escuro,  os  culos  de  aro  grosso
iluminados pelo lampio Aladim no meio da mesa.  De  vez  em  quando  um
besouro era atrado pela luz, zumbia em volta, a gente  fazia  um  gesto
com  o  brao  para  espantar.  Minha  av  recolhia  numa  bandeja   as
cancquinhas de caf vazias, em torno do  bule  esmaltado.  Depois,  como
sempre, iria para a varanda conosco, onde gostava de contar histrias de
Joo Bobo, Pedro Malasartes ou dos Doze Pares de Frana - as que meu av
preferia. Mas em  dias  assim,  com  visita,  ela  s  vezes  ficava  s
cantarolando, pelo meio das pausas para ouvir a conversa l de dentro. E
o velho Carlo falava, inclinado para trs na cadeira, com seu  vozeiro
entrecortado pelo pigarro.
        - O  senhor  devia  ir  l  conhecer,  seu  Hans.  No  vai  nem
acreditar... No tem nada igual na Alemanha... Nem em  lugar  nenhum  do
mundo, alis...
        -  J  ouvi  falarrr...  Uma  coleon  de  orrrrqudeas    muito
interrrressante, dizem...

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        Eu ouvia fascinado, aquela fala to cheia de erres que vinham l
do fundo da garganta, arranhando.
        - Pois . Mas o mais interessante no so as orqudeas.
        O caso  que ele comeou a estudar  as  flores,  e  foi  achando
outras coisas.
        Lembro que a conversa ficou cheia de palavras  difceis  que  eu
no entendi. Hoje acho que se falou em  hibridao,  agente  polinizador
natural, reproduo em  cativeiro,  coisas  assim.  Mas  sei  disso  por
deduo, no de memria. A memria  s visual, sonora,  olfativa.  Toda
de sentidos. Feita do cheiro do charuto, do crculo de luz na sala visto
pela porta escancarada, do rangido da rede de minha av na varanda, onde
minha prima e eu fomos nos sentar tambm, cada  um  de  um  lado,  quase
cochilando no calor e  cheiro  bom  do  corpo  da  av.  No  dava  para
acompanhar tudo o que diziam l dentro, mas deu para entender que  havia
um sujeito com mania de colecionar orqudeas. O  tal  sujeito  descobriu
que elas precisavam de beija-flor e ento comeou a  se  interessar  por
eles. De repente, percebi que  meu  av  estava  fazendo  uma  proposta,
surpreendente para um homem que nunca se dispunha a perder um nico  dia
de trabalho por motivo algum:
        - Se quiser, eu levo o senhor l  amanh.  Mas  temos  que  sair
cedo, porque  longe.
        E antes que minha av terminasse de se levantar com  dificuldade
da rede que imediatamente comeara a abandonar, ele j falava com ela:
        - Constancinha, voc quer fazer um passeio comigo amanh?  Vamos
l visitar aquele menino dos  beija-flores.  Voc  no  disse,  ainda  a
semana passada, que estava que-

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rendo conhecer a casa dele? Pois ento... Eu prometi que  levava,  estou
pagando a promessa...
        Entendi tudo. O passeio era um  presente  para  ela.  Ele  nunca
passeava. E ela quase nunca pedia nada. Mas quando deixava  escapar  que
queria alguma coisa, o velho Carlo no sossegava enquanto no  atendia.
A nica coisa na vida dele que ficava na frente do trabalho,  na  frente
de tudo, era minha av Constncia.
        - E as crianas? - ela ainda perguntou, surpresa.
        - Leva tudo. Seu Hans est de automvel, tem lugar.
        E foi assim que no dia seguinte minha prima Maria da Glria e eu
nos vimos, um em cada janela, do lado de minha av, instalados no  banco
de trs de um Studbaker Champion cinzento, forrado de plstico vermelho.
A  poeirada  da  estrada  cheia  de  buracos  era  cortada  pela  frente
aerodinmica do automvel, avanando com suas trs pontas  em  forma  de
nariz de avio, duas laterais para os faris, uma  central  para  tentar
levantar vo no ronco do motor.  E  l  fomos  ns,  atravessando  mata,
engolindo milharal, subindo morro acima  que  no  acabava  mais,  nariz
grudado na paisagem, passa boi, passa boiada, calor, poeira, cochilo.
        Acordei numa cidade pequena, algum falando  com  meu  av  pela
janela da frente do carro, dando instrues de como chegar  na  casa  do
Professor. E num instante estvamos l, deixamos o carro do lado de fora
e subimos a p pelo  jardim,  to  cheio  de  plantas  que  parecia  uma
floresta. Apesar da temperatura amena, da sombra fresca, uma  poro  de
insetos enormes, besouros e abelhas zumbiam pelo meio dos  galhos  e  em
volta da gente. Pelo meio das rvores,   esquerda,  dava  pra  ver  uma
construo com

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dois imensos beija-flores em mosaico de pedra transparente, um  verde  e
outro roxo, incrustrados na parede alta, branca, lisa. Meu av apontou e
explicou, lacnico:
        - Turmalina bruta.
        Seu Hans fotografava, de boca aberta. Eu esfregava os olhos.  S
acreditava porque quem dizia era meu av. Cada um daqueles  beija-flores
na parede era maior  do  que  eu.  E  cada  caquinho  daqueles  era  uma
turmalina? Mas turmalina era pedra preciosa,  isso  eu  sabia...  Aquilo
devia valer mais que qualquer  tesouro  de  piratas  escondido  em  ilha
deserta. Que lugar era aquele aonde vov Carlo nos levava?
        Como se tivesse  ouvido  minha  pergunta,  Maria  da  Glria  de
repente murmurou no meu ouvido:
        - Acho que estamos numa floresta encantada, Guto...
        Olhei para minha prima, intrigado. Ela  era  menor  que  eu,  os
olhos brilhavam, esbugalhados. E mostrava:
        - Est cheia  de  fadinhas,  olhe  so...  Segui  para  onde  ela
apontava com o dedo. No acreditei no que estava vendo. O que zumbia  em
volta da gente e de flor em flor  no  eram  besouros  nem  abelhas  nem
insetos imensos. No admira que Maria da Glria tivesse achado que  eram
fadas, elfos alados, qualquer coisa do gnero.  Criaturas  mgicas.  Mas
eram beija-flores, uma quantidade enorme. Nunca imaginei que  existissem
tantos no mundo. Ainda mais assim, mansinhos, sem medo, se metendo  pelo
meio do nosso grupo, quase se embara ando nos cabelos de minha av, que
sorria e caminhava leve como se fosse danar. To ligeiros que  as  asas
ficavam transparentes. Brilhando quando passavam por al

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gum raio de sol que furasse a folhagem. Subiam, desciam, davam marcha  a
r. E a toda hora paravam, suspensos no ar, junto das flores. Ou  bebiam
gua por uns furinhos feitos numas garrafinhas pequenas de coca-cola que
estavam penduradas por toda parte, nos galhos das rvores, numa rede  de
fios de arame que atravessava o quintal, na varanda cheia de plantas, de
onde descia um homem descabelado e simptico, com os  braos  estendidos
para cumprimentar o velho Carlo, beijar a mo de  minha  av  j  quase
bailarina, fazer um afago em nossas cabeas.  Coisa  que  geralmente  eu
odiava,  mas  nem  liguei.  S  queria  ficar  olhando  aquelas   flores
brilhantes, estrelas zumbidoras, jias leves.

        Puta que pariu, quando eu lembro disso queria mesmo ser escritor
para conseguir as palavras. Sacanagem recordar to bem e  no  conseguir
dizer. A rapidez. O brilho. A leveza. O  furtacor.  A  magia.  O  sbito
sussurro das asas. Comeo a entender esses caras que ficam dias,  meses,
procurando um termo exato, a msica de uma  frase,  uma  estrutura  para
contar direito, revelar o impacto da upresa, a delicadeza do  movimento,
a energia sem fim. Tem vezes que a gente precisa  achar,  no  interessa
mais nada.
        Acho que beija-flor est me  deixando  assim.  Merece  um  trato
especial e eu fico pensando em como  que algum vai conseguir  mostrar.
Ainda bem que o livro  de fotos, e cheio de ilustraes a bico de  pena
e aquarela, d para o sujeito ter uma idia quando olha. Porque  s  com
palavra no ia dar. Precisava ser muito talentoso. Pra conseguir dividir
com os outros em linguagem de artista essa brincadeira de Deus.

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        Bom, isso tambm   exagero,  modo  de  falar.  O  fregus  pode
perfeitamente no acreditar em Deus e achar beija-flor um  desbunde.  Um
poema da  natureza.  Ou  nem  isso.  Uma  criatura  vivente  como  outra
qualquer, s que de cores mais escandalosas. Pode nem mesmo ser o animal
mais bonito do universo. Tem pavo, sara, cisne, tantas outras aves.  E
peixe tropical, concorrente srio. Pra no falar de cavalo, algum  quer
coisa mais bonita que um puro-sangue correndo? Ou tigre...  Se  a  Carol
estivesse aqui, ia falar em esquilo, coelho, carneirinho e  filhotes  em
geral. No precisa nada disso, pra que misturar os canais? Melhor deixar
a beleza de lado. Concentrar no  lado  objetivo,  cientfico.  No  papel
ecolgico dos beijaflores na  polinizao  natural  de  vrias  espcies
tropicais, principalmente algumas orqudeas de labelo to  profundo  que
requerem um bico comprido e fino para se  reproduzirem.  No  fundo,  uma
questo sexual. Freud deve explicar essa atrao humana  por  eles.  Uma
modalidade de inveja do grande pnis. De  uma  espcie  para  outra,  no
caso.
        Quer dizer, a cincia explica.  isso. O tom do  livro  tem  que
ser cientfico. E eu tenho que parar de divagar, aqui, tocando a  msica
inaudvel deste  teclado.  Por  mais  que  esteja  me  distraindo,  para
escrever mesmo alguma coisa que se aproveite, tenho que segurar.  O  tom
de apresentaao do projeto tem que ser sbrio, moderado.
        S que tambm no  preciso sair logo falando  em  iridescncia,
rmiges,  essas  coisas  complicadas.  Isso  fica  para  o  texto    dos
especialistas, no  comigo. Eu vou me limitar a vender  meu  peixe.  Ou
meu pssaro. Mas enquanto treino para isso, posso me desviar  um  pouco,
sem sair do

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assunto, e ficar aqui  me  exercitando  a  usar  a  linguagem  de  outra
maneira. Que nem um cara que faz ginstica todo dia e no domingo  capaz
de jogar futebol melhor com os amigos porque est mais em forma.
        Sei l, acho que meu treino  mais de memria.  Escrever  o  que
lembro e precisei esquecer  para  agora  encontrar  de  novo.  Descobrir
algumas coisas que estavam perdidas em minha vida e nem eu mesmo  sabia.
Alis, vai ver que  s por isso mesmo que as pessoas  saem  escrevendo.
No estou falando de comunicao. Mas de expresso mesmo. Do cara que se
espreme todo para tirar uma quantidade mnima de sumo e ficar um bagao,
tentando atingir a essncia. Da ex-presso. Uma coisa l dentro  fazendo
fora para sair - se no sair, estoura. Panela de expresso.  Uma  bomba
iminente.
        Melhor voltar   lembrana  da  primeira  visita  ao  Professor.
Recordao  ntida  e  forte.  Clara,  bem  delineada,  mas  sem   muito
encadeamento lgico nos seus antes e depois. No lembro a ordem  em  que
fizemos  nada,  mas  acho  que  tudo  daquele  dia  me  vem     cabea.
Caleidoscpio voador, dentro e fora. A mulher do professor  serviu  suco
de maracuj bem amarelo e doce  para  as  visitas.  Os  adultos  ficaram
conversando. Ns fomos brincar l fora, no meio das flores  e  pssaros.
Ajudamos a trocar a gua  das  garrafinhas,  era  gua  aucarada,  para
fingir de nctar. E para alimentar os  animais.  A  os  adultos  vinham
chegando e o Professor explicou que  os  beija-flores  precisavam  comer
muito.
        -   um  dispndio  de  energia  extraordinrio.  Necessitam  de
cinqenta a sessenta refeies por dia, para se abastecerem  diariamente
de metade de seu peso em a

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car... Mas se houver flores por perto, eles esto  muito  bem  equipados
para isso.
        Riscou uns desenhos na areia, depois at mostrou  l  dentro  do
museu. Contou que a lngua deles  muito comprida, uma espcie  de  tubo
fino, que funciona como uma  bomba,  sugando  o  lquido  do  fundo  das
flores:
        - Como um canudinho desses com que vocs bebem refrigerante.
        Depois  falou  na  idia  que  tivera,  de   criar    bebedouros
artificiais para os bichos. E como, graas a isso, sua casa era o  ponto
de  atrao  de  todos  aqueles  beija-flores,  cada  um  precisando  se
alimentar a cada dez ou quinze minutos.
        Maria da Glria falou nas cores:
        - Parecem pedaos de arco-ris.
        Ele gostou e chamou:
        - Vocs ainda no viram nada. Venham c...
        Fomos todos. As crianas que ele convidou, meus avs, o  alemo,
o Professor e a mulher. Paramos onde ele mandou, mais adiante, num ponto
do jardim onde a luz do sol vinha diretamente das nossas costas. Ficamos
esperando alguns minutos. De  repente,  um  colibri  verde-azulado  veio
voando em nossa direo, bem de frente para a luz. A foi  uma  exploso
colorida, o beija-flor faiscava, mudava de cor, brilhava diferente. Todo
mundo fez:
        -Oh!
        Ao mesmo tempo. At os adultos. Igual a festa que tem  fogos  de
artifcio.
        O professor disse ento uma palavra que durante muito  tempo  eu
achei que era quase um palavro cientfico, como se fosse uma indecncia
algum ter um arco-ris no corpo:

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        - Irisdescncia...
        Olhei para meu av. Mesmo no  meio  daquela  maravilha,  ele  s
olhava para minha av. Ela sorria. Nunca vou esquecer.
        Acho que foi por isso que eu cismei de fazer esse  livro  agora.
Do mesmo jeito que h alguns anos atrs, quando a  empresa  decidiu  ter
uma poltica ambiental conseqente, eu fui procurar o Professor para ele
nos orientar em tudo. Incorporamos a reserva que ele mesmo tinha criado.
E at o fim da vida, ele supervisionou nossas atividades de  preservao
ecolgica. O livro-brinde este ano vai ser  uma  homenagem  a  ele.  Mas
dentro de mim,  tambm a lembrana  do  olhar  do  velho  Carlo  e  do
sorriso de vov Constancinha. E do comentrio dele nesse dia:
        - Nenhum imperador teve um tesouro  desses,  nunca.  Nem  o  rei
Artur, nem Carlos Magno, nem Napoleo.
        Tnhamos acabado de visitar o museu do Professor e estvamos  de
novo no meio das plantas. Tnhamos visto animais  empalhados,  desenhos,
esqueletos. Depois, no laboratrio, tinha mais uma poro de coisas  que
no entendi direito. E vimos  como  ele  preparava  um  carregamento  de
beija-flores que iam viajar de avio para o Rio de Janeiro, encomendados
pelo dono de uns jornais que ia soltar os bichos numa  praa.  Eles  iam
dormindo, numa caixa, metidos nuns  saquinhos  de  pano  branco,  porque
quando eles dormem, no escuro,  como se hibernassem, ou  estivessem  em
estado  de  coma.  Ficam  entorpecidos,  a  temperatura  cai,  todo    o
metabolismo se modifica. Aprendemos uma poro  de  coisas  sobre  esses
pssaros nesse dia e nos deslumbramos com  a  beleza  deles.  Por  isso,
quando meu av falou sobre o tesouro do Imperador, to-

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dos achamos que ele se referia aos  beija-flores  soltos  esvoaando  no
jardim.
        Mas cada vez que me lembrei disso, mais tarde, fiquei na dvida.
Porque ele falou olhando fixo para  minha  av,  de  um  jeito  que  nao
enxergava mais nada no mundo.
        E at hoje, quando recordo, sou capaz de jurar que, para o velho
Carlo, o tesouro impossvel de qualquer Imperador era ela.

        Impossvel?  Inatingvel?  Inalcanvel?  Mais  uma  vez    fico
indeciso entre as palavras. Em princpio, podia ser qualquer uma dessas,
tm um nmero bom de slabas, isso d um  ritmo  interessante    frase,
como se encompridasse a distncia para o tesouro.  Mas  na  realidade  o
sentido delas no  bem o que estou buscando,  s parecido.  Habitam  o
mesmo pas da minha idia, mas no so o indivduo unico que  eu  quero.
Preciso de um termo que signifique"que faltava  a",  mas  que  seja  uma
palavra s e no seja erudita nem pernstica. De jeito que"Para o  velho
Carlo, o tesouro que faltava a qualquer Imperador era  ela"  no  fique
uma frase  assim  to  coloquial,  mas  tambm  no  precise  usar  trs
palavras, embora tenham o mesmo nmero de slabas do  adjetivo  que  no
encontro. Nem vire uma coisa livresca, distante do dia-a-dia da vida  de
gente como meus avos.
        Muito complicado esse negcio de escrever.

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CAPTULO IV





Alexandre deu uma ltima conferida em tudo.  Verificou  as  fivelas,  as
correias, testou a firmeza de cada componente da armao. Parou no ponto
de partida, levantou os braos, deu uma ligeira sacudidela na  estrutura
toda, levou as mos  cabea e  confirmou  que  o  capacete  estava  bem
preso.  Mentalmente  deu  um  OK  a  cada  etapa.  Concentrou-se  alguns
segundos, de olhos fechados, respirando fundo.  Depois,  abriu-se  todo.
Para a vista, para o ar, para o espao. Uma corrida curta pela rampa,  o
som dos passos ressoando nas  tbuas  da  plataforma  suspensa  sobre  o
abismo,  e  pronto!  Saltou  no  vazio.  A  sbita  sensao  de   queda
imediatamente se amorteceu com a resistncia do ar nas asas de nilon. O
frio na barriga virou exaltao.
        Rapidamente a encosta ficava para trs, a terra firme era  coisa
do passado. L embaixo, o veludo da copa das rvores  na  mata  oferecia
sua maciez traioeira em milhares  de  tons  de  verde  farfalhante.  No
espao, era o silncio, s quebrado por ocasionais suspiros e gemidos da
asa respirando e  pela  ressonncia  longnqua  do  barulho  dos  carros
passando na estrada.  Pegou  uma  ascendente  e  se  deixou  levar  pela
correnteza. Subindo em crculos amplos, seus olhos bebiam  uma  paisagem
cada vez maior. Feito urubu.

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        Quantas vezes tinha ficado deitado no  cho,  de  papo  pro  ar,
observando urubu no cu... Mestres de vo para os humanos, que s  podem
mesmo planar, sem as possibilidades infinitas que o bater de  asas  pode
abrir.
        Com eles,  Alexandre  observara  os  desenhos  da  flutuao  em
crculos nas correntes trmicas ascendentes, a imobilidade  perfeita  ao
sabor do vento, os eventuais toques  de  correo.  Mas  s  na  prtica
compreendera a ameaa real. A tentao da entrega total.  A  vontade  de
fechar os olhos e se deixar carregar, mesmo com o risco de ir  cada  vez
mais alto, mais alto, e chegar a um ponto sem volta possvel.  De  certo
modo, o velho perigo de  caro,  a  compulso  do  voo,  a  obsesso  de
explorar um mundo novo, a atrao por transgredir os limites.
        O pessoal do mergulho fala nisso tambm. Na euforia que pode dar
de repente, o cara se empolga todo, s quer ir adiante,  cada  vez  mais
fundo, esquece todas as regras de segurana e pode se dar muito  mal.  O
tempo e o espao ficam diferentes,  como se a pessoa estivesse  no  mar
s h alguns segundos, no tivesse ido longe, e ainda  tivesse  oxignio
para muito tempo. Mas  puro engano. Muito mergulhador s descobriu isso
quando no tinha mais jeito. Essas histrias que a gente s vezes l nos
jornais,  de  acidente  fatal  com  algum  supercampeo   ou    veterano
experimentado. Quem  nunca  voou  ou  mergulhou  no  consegue  imaginar
direito essa ameaa, porque acha tudo perigoso, fica com medo  da  queda
ou dos peixes - conforme o caso - e nem imagina  que  o  risco  maior  
outro. Tem que ter medo  de si  mesmo.  Do  excesso  de  confiana.  Do
delrio de poder. Da obsesso. Alexandre tinha o maior cuidado com  essa
sensao.

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Procurava no se desligar por completo durante o vo, por  mais  difcil
que s vezes isso pudesse ser. Porque a verdade  que  s  voando  tinha
essa impresso de plenitude absoluta. De liberdade aos quatro ventos.  E
de segurana, por mais que isso parea esquisito para quem no  tira  os
ps da terra. L em cima no h perigo de assalto, de atropelamento,  de
sacanagem, de nenhum encontro humano. Eliminado o contato direto  com  o
semelhante, a vida  bem menos perigosa para os homens; filosofava  ele.
Filosofia barata, de quem est com o pensamento tlanando  toa.
        Gostava de soltar as idias sem rdea enquanto sentia o vento  e
a imensido. s vezes aproveitava para  pensar  na  vida.  Um  ou  outro
problema com a namorada, alguma situaao  a  resolver  na  faculdade.  O
curso era meio chato,  superburocrtico,  pouco  criativo.  Mas  algumas
cadeiras valiam. E j que tinha mesmo que estudar e se formar em  alguma
coisa, Desenho Industrial era mesmo a melhor opo. Antes pensava  muito
em se especializar em computao grfica, agora j no tinha mais  tanta
certeza. Na hora de definir isso, ia ter que levar  em  conta  tambm  a
questo do mercado de trabalho. E as oportunidades pesSoais de colocao
que essa escolha podia abrir. Claro, tinha sempre a construtora do  pai,
e se preferisse esse caminho ia ser a felicidade geral da  famlia,  por
mais que dissesse que ele podia fazer o que bem entendesse - e sabia que
podia mesmo. S que tinha certeza de que o queria mesmo era que  ele  se
formasse em Engenharia e ficasse trabalhando com ele. Mas  podia  tambm
transar uma Coisa qualquer com  o  tio  Guto  l  na  empresa  dele.  De
qualquer modo, tinha tempo. 45

        Agora   que  no  tinha  muito.  Precisava  prestar  ateno  
descida. Depois de  sair  da  ascendente,  viera  baixando  aos  poucos,
devagar, em crculos amplos, ora sobre o mar, ora sobrevoando a mata, os
prdios, o gramado do campo de golfe  l  embaixo,  a  praia,  tudo  to
espaoso, to opulento, to em contraste com o apinhado das  construes
de alvenaria que se encarapitavam pelo morro mais adiante na ex- favela.
Hora de cair na real. Literalmente. Deu uma ltima volta,  procurando  o
melhor ngulo para pousar na areia, no  alvo  determinado,  mais  perto,
mais baixo, chegando.
        Ps no cho, voltou a se sentir pesado,  carregando  nas  costas
uns tubos metlicos e umas asas  de  nilon  que  deixavam  de  ser  uma
extenso do corpo e voltavam a  ser  apenas  um  equipamento,  artifcio
puro. Enquanto se desembaraava, entre os banhistas que  se  aproximavam
meio de longe, percebeu a me.
        Tinha at esquecido que ela tinha combinado  subir  com  ele  de
carro at a rampa depois do primeiro vo. Em geral ele e  os  amigos  se
revezavam, cada vez um deles ou uma das garotas esperava  os  outros  na
praia para irem de novo at o alto da Pedra, saltar outra vez. Mas nesse
dia Llia tinha se oferecido, queria tomar sol, ia mesmo  praia,  podia
ir ali, no custava nada. E agora l estava ela, acenando de longe.
        Respondeu com um gesto e na mesma hora viu que  ela  no  estava
sozinha, mas com uma amiga. Com a irm, alis, distinguiu  melhor.  E  a
figurinha que se destacava do grupo correndo em direo a ele, aos pulos
pela  areia,  era  Carol.  l  chegava,  os  olhos  brilhando,  ar    de
incredulidade:

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        - Alex, voc sabe voar mesmo?
        - Voc no viu?
        - Igual a gaivota?
        - No, bem diferente. Gaivota desliza no cu batendo asa, eu no
bato. E no mergulho atrs de peixe que nem ela, assim, o...
        Pegou a prima no colo, deitada nos antebraos, fingiu que  fazia
a menina voar e baixar rapidamente sobre a areia.
        - Ai, no, me larga!
        Pousou Carol no cho, beijou a me e  a  tia,  trocou  com  elas
algumas frases de saudao  enquanto  comeava  a  desarmar  a  asa,  se
preparava para enrol- la com cuidado, orientava a  eventual  ajuda  das
trs.
        - Calma, Ana Carolina, deixa seu primo em paz!
        Vanda tentava segurar a excitao da filha, que saltitava de  um
lado para outro, salpicava tudo de areia, falava sem parar.
        - Tudo bem, tia, no faz mal. Eu estou  acostumado.  A  garotada
sempre fica nesse ourio quando a gente chega. Imagine uma prima...
        - Se no  igual a gaivota,  igual a qu? - insistia ela.  -  
igual a urubu. Alexandre abria os braos mostrando:
        -   um  vo  assim,  Carol,  bem  parado,  asa  aberta,  quase
cochilando no ar. Voc no viu?
        A menina protestou:
        -  mentira...
        - Mentira por qu? Voc no me viu l em cima? No me viu descer
ainda agorinha?

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        - Vi sim. Mas  mentira  que    igual  a  urubu.  Voc    todo
colorido.
        Acharam graa, ele saiu mostrando  a  ela  os  detalhes  da  asa
vermelha e amarela, em tons vibrantes, luminosos. Ela prosseguia:
        - Mas no    igual  aos  beija-flores  l  de  casa.  Eles  so
coloridos, mas no  sempre igual. s vezes eles mudam de cor.
        O rapaz fingiu espanto:
        - E voc agora tem beija-flor em casa, Carol? Eu no sabia dessa
 novidade. Como  que  voc  consegue?  Eles  no  ficam  o  tempo  todo
pensando que VOC  uma flor e querendo  te  beijar?  No  te  beliscam?
Assim?
        Esticou o brao, fez ccegas no pescoo da menina. Ela riu:
        - No  dentro de casa, seu bobo.  pelo lado de fora, na janela
 e na varanda. Eles vm beijar umas flores de mentira, numas garrafinhas
que a minha me botou l.
        Vanda explicava:
        - E... o Guto est trabalhando no  projetO  de  um  livro  sobre
beija-floreS e eu pensei que podia botar as garrafas cheias de gua  com
acar para atrair os bichinhOS e ele observar melhor. Nunca pensei  que
aparecesse tanto passarinho. Beija-flor mesmo e mais um monte de outros,
eu nem sei o nome.
        - Tio Guto deve ter gostado - comentou Alexandre.
        - Quem gostou foi Ana Carolina. Ele nem reparou. Agora s repara
 naquele computador l dele... No quer saber de mais nada. A casa  pode
cair que ele nem liga. Parece at que no existe mais nada no mundo.
        Llia olhou para a irm com um ar meio de zombaria:

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- Est com cime, Vanda? Essa  nova...
        Mas Vanda nem respondeu. Estava correndo para segurar  a  filha,
depois de um grito de Alex:
        - Cuidado, Carol! Esse tubo pode bater na sua cabea...
        Bem a tempo. Crianas...
        - Puxa, minha filha, voc me deu um  susto!  Pare  de  mexer  em
tudo, seno voc acaba se machucando. E  melhor  sair  daqui  um  pouco.
Venha comigo. Vamos cair ngua um instante enquanto seu primo acaba  com
isso.
        E l se foram de mos dadas.
        Llia olhou as  duas  se  afastando.  Decididamente,  as  coisas
estavam mudando na vida da irm. Aquele marido possessivo, que  h  anos
tomava conta da vida dela toda, no deixava nunca que ela  fizesse  nada
sozinha, de repente sugerindo que ela fosse  praia sem ele... Novidade.
E Vanda com cime do computador... Alguma coisa estava acontecendo.
        Depois que a asa-delta foi enrolada e amarrada no rack do carro,
Alexandre encontrou uns amigos e ficou conversando  um  pouco.  Resolveu
dar um mergulho nas ondas, comer um sanduche, acabou demorando. As duas
mes ficaram sentadas na toalha estendida na areia,  enquanto  a  menina
brincava ali perto.
        - Benditos professores - comentou Llia. -  Se  no  fosse  essa
greve, voc no teria vindo  praia no meio da semana para trazer Carol,
eu no teria desculpa para dar a mim mesma e matar o trabalho, e a gente
no estaria diante deste Atlntico monumental, curtindo um sol vibrante.
 outra coisa! Aos sbados e domingos eu venho mais,  fica  insuportvel
de tanta gente. A gente

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senta aqui na areia e nao consegue nem ver o mar, tamanha a multido.
        - Pior ainda. No d nem para ouvir o mar, com  a  barulhada  de
conversa, vendedor ambulante, rdio Ligado.
        Vanda fez uma pausa e acrescentou:
        - Mas eu no consigo deixar de me sentir um pouco culpada.  Quer
dizer, eu votei contra a greve. Acho que o movimento tem toda  razo,  a
gente est ganhando uma misria e tem mais  que  protestar  mesmo.  Mas
acho que greve no  a melhor forma de luta neste  momento,  est  muito
desgastada, acaba queimando toda a categoria. Alm do  mais,  greve  tem
que ser para prejudicar o patro e no as crianas. Assim, a gente acaba
perdendo o apoio da populao, que deveria ser a forma de  presso  mais
eficiente. Acho que era melhor ir dar aula e todo dia reservar um  tempo
para discutir com os alunos a questo da Educao no  Brasil,  despertar
uma conscincia  crtica  neles,  alguma  coisa  assim.  Botar  os  pais
escrevendo pra jornal, para o Congresso, sei l...
        - Mas graas  greve estamos neste praio.
        - E  isso mesmo que me deixa meio culpada. Fico achando que, j
que saiu a greve, eu devia pelo menos estar  mobilizada  fazendo  alguma
coisa. Mesmo sendo voto vencido.
        - Fazendo o qu? Piquete?
        - Eu, hein? Acho piquete uma coisa  fascista.  Quem  quer  fazer
greve, que faa. Quem quer ir trabalhar, tem todo o direito. Enfrentando
a sano dos colegas, claro, mas no tem que ser impedido.
        - Deixe a culpa pra l, Vanda. Feche os olhos,  sinta  este  sol
maravilhoso, talvez a nica coisa boa em que este

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pas  insupervel, agora que a massificaao  nao  deixa  maiS  a  gente
ouvir msica mesmo. S sobra a natureza, o paraso tropical  alucinante.
O velho Bilac tinha raZao.
        Llia fez um ar de recitativo escolar  e  declamou,  com  geStos
esparramadOs de gozao:
        - Olha que cu, que mar, que rios, que floresta! A natwreza aqui
 perpetuamente em festa.  um seio de me a transbordar carinho...
        Vanda riu e comentou:
        - Ando impressionada  com os seios das filhas. E as bundas,  as
pernas, tudo durinho. Essa moada hoje em dia  est  vendendo  sade,  
impressionante. Eu me cuido, acho que ainda  estou  bem  inteirona  para
minha idade, mas uma praia destas  humilhante.
        - Muita malhao, minha filha. Horas de academia durante anos  a
fio, na maior seriedade. No  pra qualquer uma.
        - No  s isso, no, Llia.    muita  juventude,  tambm.  Ter
vinte anos.
        - Se eu no tivesse acabado  de  citar  um  poeta  daqueles  das
antologias da escola, desencavava outro e falava az aurora da minha vida
que os anos no trazem mais.
        - Mas  mesmo por a... Juventude. E  mais  vida  ao  ar  livre,
prancha, onda, boa alimentao, muito namoro, todo o tempo  do  mundo...
Seja l como for, o resultado    uma  beleza.  Fica  um  pessoal  muito
bonito. Impressionante. Moas e rapazes.
        -  mesmo. s vezes fico olhando, fascinada. At os bem garotos,
amigos do Alex. Tem cada um... Fala-se muito na mulher carioca,  cantada
em prosa e verso, msi-

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ca do Tom e poema do Vincius, cartaz turstico e clipe de tev.  Mas  o
homem carioca tambm merecia uma celebraozinha. Se a gente  fizesse  a
propaganda que os italianos fazem,  isso  aqui  ia  encher  de  alem  e
sueca...
        - Principalmente os mais moos.
        - Igualzinho a mulher, Vanda. Principalmente as mais moas.
        - E tem uma sensualidade no ar, que    muito  contagiante.  Uma
maneira de falar envolvente, calorosa, cheia de charme, com  diminutivos
e expresses engraadas, colorindo a linguagem. E  mais  esse  pega-pega
desenfreado, quer dizer, a facilidade do toque, sempre algum  segurando
num brao, encostando num ombro, cumprimentando com beijos. Sem esquecer
o jeito solto de andar, meio felino, bem relax, gingado.
        - Fora o que voc est esquecendo,  mas  compe  tudo  isso.  As
coxas slidas bem plantadas, os ombros largos, esses msculos  do  brao
bem desenhados, a bunda empinada  segurando  esses  bermudes  largos  e
coloridos. No  nosso  tempo,  os  caras  jogavam  futebol,  quando  eram
esportivos tinham pernas arqueadas.  Agora    surfe,  desenvolve  trax
tambm. Coisa sria, mana. S resta mesmo imaginar a pele macia e  morna
debaixo dessa penugem dourada que cobre o bronzeado.
        Vanda no respondeu, mas suspirou. Llia deu  uma  gargalhada  e
zombou:
        - Eta, suspiro! Ento era por isso  que  o  mando  te  segurava
firme esse tempo todo... E agora, o que  foi  que  aconteceu?  Acabou  o
monoplio?
        - Como assim? Que monoplio? No sei do que vOc  est  falando,
no aconteceu nada.

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        - Tudo bem, no quer falar, no fala. Eu respeito teu  silncio.
Mas que alguma coisa mudou, no d para negar.
        Vanda olhou para o cho, alisou bem a areia com a palma da  mo,
bateu firme, ficou rabiscando suas iniciais com o dedo, meio  distrada,
enquanto respondia:
        - No, voc tem razo, no nego. Alguma coisa est mudando,  mas
eu no sei bem o que .
        - Mudando como? H quanto tempo?
        - Comecei a notar logo que a gente se mudou para  o  apartamento
novo. Antes, eu tenho certeza de que no havia nada.
        Llia  fez  uma  pausa  mnima,  como  se  hesitasse,  antes  de
perguntar:
        - Alguma vizinha?
        - No, nada disso.
        A segurana da resposta era definitiva. Evidentemente, Vanda no
tinha nenhuma dvida a respeito. Mas continuou, um pouco vaga:
        - No sei o que , mas acho que no   outra  mulher.  Na  minha
opinio,  uma coisa  comigo.  No  pintou  ningum,  mas  o  Guto  est
comeando a se cansar de mim.
        - Voc me desculpe, mas eu no  acredito.  Nunca  vi,  na  minha
vida, um caso de fissura to grande de um homem por uma mulher como a do
Guto por voc. Mesmo no dia da mudana,  quando  fui  ajudar  vocs,  eu
estava reparando nisso. Ele s queria saber a sua  opinio,  olhar  para
voc, te fazer um agrado. Ficava at  chato,  uma  coisa  meio  doentia,
obsessiva. Paixo pode ser uma coisa sbita. Mas cansao no  d  assim,
de uma hora para outra. As pessoas vo se cansando aos poucos.

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        - Pois , mas a  fissura  acabou  de  repente.  Foi  s  ter  um
escritrio com escrivaninha, todo equipado, decorado  legal,  e  pronto.
Esqueceu que eu existo - queixou-se Vanda, com uma ponta de tristeza  na
voz.
        - Voc est exagerando. Estava era mal acostumada, por isso fica
 reclamando de barriga cheia.
        - Pode ser, mas mudou. Voc mesma notou. s vezes eu acho que se
 eu for viajar de repente, eles no vo nem reparar que eu no estou.
        - Eles? Eles quem? - estranhou Llia.
        - E... Ana Carolina e Guto. S querem saber  do  tal  computador
que ele  trouxe  para  casa.  Ela  chega  do  colgio  e  corre  para  o
escritrio,  um custo conseguir que ao menos tome banho e mude a roupa.
Depois, quando o pai chega, os dois ficam l juntos, ele  ensinando  uma
poro de coisas a ela, programas novos, desenhos, sei l. Ela mostra  a
ele o que fez, os dois conversam. Depois, ela vai jantar e  a vez dele.
Fica at tarde batucando naquele teclado.
        - Bom, mas se ele est com a Carol, e dentro de casa,  voc  no
precisa se preocupar.
        Vanda respondeu com uma certa impacincia.
        - Mas no estou preocupada, voc  que est me botando grilo  na
cabea, Llia, se metendo, fazendo pergunta... Acaba me fazendo falar de
coisas que nem eu mesma estava me dando conta com tanta clareza.
        - Desculpe, eu no quis interferir. E voc tem razo, o melhor 
 no ligar.
        - E, mas agora que eu liguei no d para desligar  de  uma  hora
para outra, voc vai ter que me ouvir um bocadinho.

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- Claro, fique  vontade...
        - Vou ficar. Desculpe eu ter respondido daquele jeito. Mas  acho
que preciso mesmo falar. No comeo, quando surgiu essa mudana,  at  me
deu um certo alvio, sabe?
        - E era para ficar aliviada mesmo. Eu nunca falei  nada,  porque
no tinha nada a ver com isso, no tinha que me meter. Mas no sei  como
 que voc agentava  aquele  homem  o  tempo  todo  centrado  em  voc,
siderado, zumbindo em volta...
        - No, no era assim, voc no sabe. Sempre foi uma coisa  muito
doce, carinhosa. Mas  claro que estava me  pesando  um  pouco,  nem  eu
mesma reparava. A, quando mudou, eu fiquei mais leve,  maravilhada  com
um espao novo, mais tempo, achando timo, com vontade de sair  danando
pela rua, que nem filme musical. E foi  muito  bom  para  ns  dois,  eu
recuperei uma coisa que tinha perdido, a vontade de  me  aproximar  dele
por mim mesma, sentar perto, ficar  olhando  com  ternura  enquanto  ele
trabalhava, fazendo um balano de tudo o que construmos  juntos  nestes
dez anos... Uma sensao muito boa, muito carinhosa, de reencontro com o
melhor que ns temos.
        - Mas ento, para que se preocupar?
        - No me preocupo comigo, me preocupo com ele. voc no  conhece
bem o Guto. No sabe como ele  compuhlsivo. Sempre foi assim. Acho  que
 um trao de famlia. Pelo que a  av  dele  contava,  ele  foi  sempre
assim, desde criana. E o av, ao que parece, era igual. Alis, a
        Ana Carolina tem muito disso. Quando se  fixa  numa  Coisa,  no
pensa em mais nada. Tem uma capacidade  de  concentrao  impressionante
para uma criana na idade dela.

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        - Desculpe, mas no acho tanto assim,  no.  Ela  passa  de  uma
brincadeira para outra,  dispersiva como qualquer outra  menina.  S  
fixada em voce...
        Deu uma risada e acrescentou:
        - E isso Freud no explica... Ainda se fosse no pai...
        Vanda sorriu e continuou:
        - Mas agora est completamente tomada pelo computador.
        - Brinquedo novo. Depois cansa.
        - Pode ser... De qualquer jeito, no  com ela que me  preocupo,
 com Guto. Ele  agora  s  quer  saber  do  tal  projeto  do  livro  do
beija-flor.  Se  jogou  inteiro  nisso.  Esqueceu   at    que,    muito
provavelmente no vai haver livro nenhum.
        - Como assim? Como  que voc sabe disso?
        - Ele mesmo me disse h algum tempo. Falou que os  tempos  esto
bicudos,  preciso fazer conteno de despesas, e  que  este  ano,  pela
primeira vez, eles no iam fazer o tradicional livro em edio  especial
para brinde de fim de ano. Foi at por isso que ele pegou  o  projeto  e
trouxe para casa, no comeo. Para dar uma olhada e justificar o  parecer
dele na reunio que ia haver, provando na ponta do lpis que  devia  ser
tudo adiado para o ano que vem.  Os  clculos  at  j  estavam  prontos
dentro de uma pasta, no dia da mudana. Foi  a  primeira  coisa  que  eu
botei em cima da mesa no escritrio dele, na vspera  dele  ganhar  tudo
novinho para a escrivaninha nova.
        - Ser que a situao no mudou?
        Vanda respondeu com outra pergunta:
        - E voc acha que alguma coisa mudou  para  melhor  na  economia
deste pas nos ltimos dois meses?

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        - ... sou obrigada a concordar que  no.  O  que    uma  pena,
porque depois do sacrifcio todo  que  a  gente  vem  fazendo,  o  maior
arrocho da histria, bloqueio de  todo  o  dinheiro  aplicado,  o  maior
sufoco, bem que a gente merecia que esse  tranco  tivesse  servido  para
alguma coisa. De que  adianta  ter  uma  puta  recesso  se  a  inflao
continua na mesma? E no vai acabar, porque  ningum  quer,  todo  mundo
quer tirar sua falsa casquinha na ciranda financeira.  Ento  o  governo
faz trapalhada, o judiciario faz trapalhada, o Congresso bate o  recorde
em matria de trapalhada e cada poderoso trata de detender o seu...
        Vanda tentou interromper o discurso, mas  no  conseguiu.  Llia
quando se inflamava no parava mais. Falou ainda algum  tempo,  enquanto
ela aos Poucos ia se desligando e pensando no que dissera  irm. O  que
iria acontecer com  o  entusiasmo  febril  e  repentino  de  Guto  pelos
beija-flores quando ele tivesse que cair na real e suspender o  projeto?
E, mais srio ainda, o que o teria levado a  esse  sbito  envolvimento?
Ser que andava farto do trabalho quotidiano e aproveitou a chance de se
jogar em outra coisa? Ser que estava com excesso de trabalho, ameaa de
estafa, qualquer coisa assim, e estava perdendo o controle sobre  o  que
fazia? Vanda dissera a Llia que ele era obsessivo, e isso era  verdade.
Mas era a primeira vez, em todo o tempo em que estavam juntos, que  essa
obsesso tinha como alvo uma atividade e no uma  pessoa.  Alguma  coisa
estava mudando muito mesmo, e ela queria conver sar mais com Llia  para
tentar entender.
        Acabou conseguindo voltar ao assunto e formular  algumas  dessas
perguntas assim que a irm respirou fundo

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com uma pausa que podia encerrar o que vinha esbravejando:
        - ... e a questo  que niSsO, pelo menos, a ministra tinha toda
razo. Bem que ela disse, quando saiu, que o problema  que povo no tem
lbi.
        Mas no tiveram oportunidade para tentar achar qualquer resposta
nesse dia. Alexandre j vinha chegando de volta, pronto  para  subir  de
novo. E, de qualquer modo, Ana Carolina j tinha apanhado sol  demais  e
precisava ir para casa.

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CAPTULO V





s vezes eu at me espanto em pensar como vivi  tantos  anos  sem  nunca
reparar nesta hora.  muito  especial.  Ainda    de  noite,  tudo  est
sossegado, as luzes das ruas acesas, as janelas dos prdios apagadas. S
um veculo ocasional corta o silncio. Um retardatrio voltando  de  uma
noitada ou de um planto. O caminho de entrega dos jornais. Um viajante
a caminho do aeroporto. Um vizinho que pega cedo num trabalho  distante.
Poucos passos ecoam na calada, tambm. Em geral, de  trabalhadores  que
ainda vo enfrentar muitas horas de conduo at comearem  oficialmente
seu dia mal-remunerado.
        De repente um passarinho comea a cantar,  outro  responde.  Num
instante,  uma sinfonia.  s olhar na direo do leste e a cor do  cu
est comeando a mudar. Daqui a pouco vai ser dia.
        Acho que o que tem me acordado cedo ultimamente   o  canto  dos
pssaros. Me levanto, e da janela vejo a bainha da noite se  arroxeando.
"A barra do dia evm, o galo  cocorocou",  anunciavam  na  fazenda,  nos
raros dias em que me despertavam no horrio natural de meus  avos.  Aqui
na cidade nem tem mais galo pra cocorocar, mas a barra do  dia  continua
"evindo" imutvel. Fao um caf, troco a gua das garrafinhas dos beija-
flores e num instante j estou aqui diante do Mac. Engra-

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ado, antes eu no ligava. Afinal, sempre o dia comeou
                com os pardais cantando nas rvores da rua e eu nunca
                acordei, nem reparava. Mas ultimamente mudou. Na certa 
porque ando interessado em pssaros, devo estar prestando ateno  neles
at no inconsciente. Ento fico aqui,  sentado,  batendo  os  dedos  nas
teclas, e de vez em quando olho para a  varanda,  vejo  os  beija-flores
chegando. Toda a variedade deles.
        Lanando o olhar mais longe, acompanho tambm  toda  a  gama  de
cores se sucedendo no horizonte, nos rosas, laranjas e azuis do dia  que
nasce. Lembro do Professor explicando que cor de pena  de  beija-flor  
como cor do cu, do arco-ris, da bolha de sabo,  do  diamante.  No  
constante como a cor das folhas, das flores, das  peles  e  dos  objetos
humanos que nos cercam. No  uma cor pigmentria,  uma cor estrutural,
que muda sempre. Depende  da  maneira  como  se  arrumam  em  diferentes
ngulos cambiantes as partes que compem as  penas.  Alm  disso,  varia
tambm de acordo com uma espcie de sistema orbital, exterior  ave  num
conjunto de posies definidas, onde se colocam o pssaro,  o  sol  e  o
observador. Um complexo exerccio de  geometria  tridimensional.  A  tal
iridescencia.
        Por  isso    que  naquela  longnqua  visita,  o  brilho  deles
deslumbrou minha av daquela maneira.
        Agora, me ensinam o que talvez seja a lio mais preciosa  desta
nova atividade. Exatamente isso - o colorido mais surpreendente  e  mais
rico no  permanente e intrnseco, mas mutvel e estrutural.   captado
num relance e vislumbrado apenas pelo observador ideal. Mas essa  beleza
s  possvel porque j estava latente na estrutura. Ao

60

adquirir movimento e se expor  luz, apenas  revela  o  que  j  existia
desde o momento da criao.
        E  hora de confessar: eu quero conseguir isso quando escrevo.
        A esta altura, posso estar dando aos outros a impresso  de  que
ando fascinado por beija-flores ou profundamente envolvido  num  projeto
de marketing da empresa. Mas no posso mentir para mim mesmo  e  no  me
engano mais.
        Beija-flor  s pretexto. Posso  deixar  o  assunto  de  lado  e
passar a escrever sobre qualquer outra coisa.
        Morcegos, por exemplo. Esses mesmos morcegos que  vm  de  noite
sugar as garrafinhas se esquecemos de recolh-las. Os que se empanturram
de frutas na escurido e passam a  noite  cagando  semente  e  plantando
floresta em vastas extenses de terra. Ou os morcegos hematfagos que  o
Professor passou a estudar em seguida aos beija- flores,  para  deter  a
transmisso de raiva bovina nos rebanhos da regio. Posso passar  com  a
maior tranqilidade da celebrao do sentido de orientao do beija-flor
(maior at que o do pombo-correio, e com a vantagem de oferecer um  alvo
muito menor e mais rpido) para a descrio do sistema de radar e  sonar
dos  morcegos.  E  hoje  eu  tenho  conscincia  de  que  seria   capaz,
igualmente, de varar noites ou - cada vez mais -  acordar  de  madrugada
para encher pginas e mais pginas escrevendo sobre  eles.  Morcegos  em
vez de beija-flores.
        Ou tambm posso escrever mais sobre minhas memrias infantis  na
fazenda do velho Carlo e de sua inseparvel Constancinha. Posso  evocar
a lembrana dele, j quase com setenta anos, antes que ficasse pronto (e
depois

61

        proibido, como clandestino)  o  porto  particular  par  grandes
cargueiros, feito por ele mesmo para escoar para o exterior sua produo
de cacau. Tem um dia que eu no esqueo. S ns dois. Ele ia sentado  no
banco do meio do bote, remando em direo ao navio parado ao  largo,  os
olhos apertados debaixo da aba do chapu, a camisa branca  aberta  quase
at a cintura. Quando chegamos l perto, me deu uma ordem inesperada:
        - Toma conta do bote, menino. Eu j volto.
        Levei um susto. Onde  que  meu  av  podia  ir  assim,  to  de
repente? Ser que ia tomar banho de mar? E como  que  eu  ia  controlar
aquele barquinho solto na gua? Podia  jogar  a  poita,  com  uma  pedra
grande amarrada na ponta de uma corda. Mas ser que ela chegava ao fundo
e prendia a embarcao? Se no, eu ia precisar fazer como j tinha visto
muitas vezes os Outros, OS grandes, fazendo. Ficar com os dois remos  na
gua, dando uns golpes contra a correnteza, de vez em quando,  para  no
sair do lugar. Torcendo para o velho voltar logo. Mas onde  que ele ia?
        Nem tive tempo para especular muito. Ele j tinha gritado alguma
coisa L para dentro do navio e j tinham jogado  uma  corda  dentro  do
bote. Quer dizer, jogaram a ponta da corda, porque a  outra  extremidade
estava presa l em cima daquele casco descomunal. Pois o velho Carlo se
segurou firme, testou a  resistncia  do  cabo  e  comeou  a  erguer  o
corpanzil, subindo pelo costado metlico com a ajuda  das  pernas  e  um
lpido movimento alternado de cada  brao,  ritmadamente,  de  cada  vez
empunhando um pedao de  corda  uns  quarenta  centmetros  mais  acima,
direito, esquerdo, em direo  amurada. Como se

62

fosse eu, subindo na goiabeira. Ou uma formiga parede  acima.  Passeando
na vertical.
        Qualquer lembrana do meu av Carlo me deixa meio incrdulo com
os olhos de hoje. Eu vi, sei que foi assim, lembro bem.  Mas  se  contar
parece exagero. Ou seja, um excelente desafio para quem  quer  escrever.
Por isso s vezes acho que vou me concentrar e escrever muito sobre ele.
        Mas sei que a questo no  essa.
        O assunto no importa.
        Essencial  escrever. Verbo intransitivo.
         esta a mudana que estou  tendo  que  encarar  dentro  de  mim
mesmo. Porque eu estou  vivendo  uma  mentira.  No  sou  um  empresrio
fingindo que vai fazer uma edio especial de um livro de  fim  de  ano,
desses que as pessoas exibem na mesinha de centro em frente ao sof.
        Quando comecei, at achei que era. Brinquei  de  ser.  Acreditei
nisso. Fingi tanto, que at pensei que era verdade.
        Mas hoje eu sei que no sou esse sujeito. Talvez at tenha sido,
mas descobri outras coisas em mim. Insuspeitadas.
        Quem me v de fora, pode at me ver  assim.  Estou  mantendo  as
aparncias, para minha mulher, minha filha,  meus  amigos.  Quer  dizer,
Carol sabe que eu estou me divertindo com esse negcio de  escrever.  Do
mesmo jeito que ela. Ontem at  fizemos  juntos  o  poeminha,  como  era
mesmo? Guardamos na memria do Mac,  s buscar.

No brejo brejeiro / beija-flor brinca  ligeiro  /  na  brisa  corante  /
colibri brinca brilhante / pisca um brilho  /  pinga  a  flor  /  de  um
vidrilho / furta a cor / beija breve / brinca  e  brilha  /  azul  verde
maravilha / voa revoa / e tudo abenoa / paira e pra e pronto!, dispara
/ - feito buscap / l se vai de re.

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Poemeto em parceria, de Carlos Augusto e  Ana  Carolina  Bittencourt  da
Cunha. Meus segredos com o Mac. Com direito a  ilustrao  da  Carol  no
computador. Nada mais justo, j que o poema mesmo  quase todo meu.  Mas
disso ningum desconfia, ia ser um vexame, a  esta  altura  da  vida  eu
escrevendo poesia pra passarinho. No d p. Tenho que manter a  imagem.
A fachada exterior do cara srio, superdedicado ao trabalho. Interessado
em ecologia, na imagem da empresa, no cacete a quatro. No mximo, a esta
altura, desenvolvendo um hobby, virando um naturalista amador. At pouco
tempo atrs, era exatamente a verdade. Eu era assim.
        Posso at ter sido. Mas mudei. No sou mais.
        Sou um doente, um viciado, um maldito.
        No consigo mais passar sem escrever.  Dependo  disso,    minha
droga pessoal, meu delrio. Fico vendo a linguagem o dia todo,  como  se
ela fosse material, aquela coisa de substantivo concreto que se aprendia
no primrio. O que a gente pode ver, ouvir, pegar, morder, cheirar. E eu
posso - o que  um comportamento to desviante que s pode ser  um  caso
patolgico. Vizinho da loucura.
        Em resumo, estou pirado. E curtindo adoidado a pirao.
        Aqui pra  ns,  Mac,  s  entre  ns  dois  -  mais  uma  dessas
confidncias que te fao e no  guardo  na  tua  memria,  somem  quando
desligo o botozinho, tudo se apaga  e  ningum  fica  sabendo.  Eu  sei
perfeitamente que essa porra desse livro no vai sair. E  no  vai  sair
por uma razo muito simples. Quem decide sou  eu,  dirijo  aquela  merda
daquela empresa e ningum vai discutir uma deciso minha  se  no  tiver
uma razo muito boa pra isso. S que no

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existe essa razo boa. Porque essa minha deciso  racional, quem  tomou
foi meu lado razovel e sensato, esse cara do  lado  de  fora  que  todo
mundo v, comparece ao trabalho, senta    mesa,  comanda  funcionrios,
dirige empresa, fecha negcios de milhes  de  dlares,  cumpre  prazos,
controla qualidade,  responsvel, diz coisa com coisa e sabe o que faz.
O empresrio competente, em suma. E ele no   suicida,  no  vai  jogar
dinheiro fora a esta altura do campeonato. O mar no est pra peixe e  a
empresa no pode se permitir  esses  luxos.  Quando  no  der  mais  pra
prorrogar prazo nenhum, vou ter que oficializar uma deciso. Comunicar o
que j sei: que o projeto est suspenso. E ponto final, no se fala mais
nisso. No mximo, quando chegar o ano que vem, desencava-se a idia para
novo estudo. Se for conveniente para os interesses da empresa.
        Mas nesse  dia,  vou  ter  que  encontrar  outro  pretexto  para
continuar me levantando com o sol e ficar escrevendo, sem que as pessoas
descubram que pirei, ando brincando de  fazer  poesia,  escrever  conto.
Porque o meu lado de dentro no vai  conseguir  passar  sem  isso  nunca
mais, agora que eu tomei o gostinho.  Vou  continuar  me  desligando  em
plena reunio sria para anotar uma idia que  me  veio    cabea,  uma
expresso engraada que algum disse, um sbito claro de linguagem. Vou
continuar querendo toda noite reler o que fiz  de  manh,  para  cortar,
substituir, reduzir, exigir mais. Mas,  sobretudo,  vou  continuar  para
sempre observando o mundo com outros olhos, mergulhando na  memria  com
outra ateno. E vou continuar imaginando outras vidas Possveis.
        Virei um delirante animal de ouvido atento, vista aguda  e  faro
fino.

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        Um escritor.
        E este escritor no sabe sobre o que vai escrever.
        Posso escrever sobre mulheres, por exemplo.  No  genericamente,
mas sobre algumas mulheres que marcaram minha vida. Sobre Vanda, e  seus
olhos de mel, talvez eu no consiga.  muito  difcil,  muito  presente.
Mas posso me exercitar um pouco, como um msico tocando escalas.  Tentar
criar um calo prprio, ou formar a embocadura para  o  meu  instrumento,
por exemplo, fazendo uns improvisos, variaes sobre o tema  de  algumas
lembranas femininas.
        Bobagem. Estou  procurando uma justificativa racional para  mim
mesmo. Porque hoje eu quero  escrever sobre uma mulher especfica.
        E mais uma vez, como tantas antes, mulher  Marlia.
         que ontem eu encontrei Marlia na rua, depois de tanto  tempo.
Est linda, grvida, de barrigo empinado como a vela  bojuda  do  barco
que nos levava para a Ilha. O colo arredondado insinuando as ilhotas dos
seios trgidos e firmes, os mesmos ombros largos de nadadora, as  mesmas
pernas esguias num andar firme, agora adernando  de  leve  com  o  peso.
Contou que largou a piscina depois  da  medalha  no  sul-americano,  fez
faculdade, se formou em Biologia Marinha, casou com um colega  de  turma
bem mais moo, e est morando numa praia da Bahia, onde tomam  conta  de
desova de tartaruga. E vai parir na gua. Nem podia ser diferente.  Deve
ter nascido na gua, a vida toda foi assim. Lquida e incerta. Marlia.
        O encontro me fez lembrar forte. A  mulher  mais  importante  da
minha vida at Vanda chegar, minha Vanda

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do corpo ossudo e dos olhos amarelos. No  de admirar que  a  viso  de
Marlia ontem tenha me abalado. A mulher que eu tinha perdido e  achado,
mas acabei largando,  a  mulher  com  quem  eu  ia  casar  quando  Vanda
apareceu. Nunca mais eu a tinha visto. E ontem, de repente, a caminho de
um estacionamento, num encalorado mar de automveis rebrilhando ao  sol,
esbarro nela, quase chegando  Igreja de Santa Luzia. A mesma  igrejinha
que ela um dia me mostrou numa gravura antiga, provando que at o sculo
passado ficava plantada na areia da praia, em frente aos barcos de pesca
que chegavam. No tempo em que no apenas o Rio morava no mar, mas o  mar
morava no Rio. Paramos para conversar, emocionados. Mais que isso - pelo
menos, de minha parte. Com saudade  e  teso.  Fiquei  olhando  o  rosto
inesquecvel, contra o fundo dos azulejos azuis e brancos  de  Portinari
no painel do Palcio da Cultura. Um rosto bronzeado e molhado, sempre  -
agora de suor. As gotculas orvalhando a testa, duplicando as linhas dos
lbios. O sorriso ensolarado. A cara linda e praieira, os olhos  escuros
e brilhantes, os cabelos ainda curtos, emoldurados por cavalos-marinhos,
conchas, algas, estrelas do mar, os desenhos se  repetindo  ao  infinito
nos ladrilhos do mural l atrs, em  ondas  de  branco  e  azul,  cu  e
nuvens, gua e espuma.
        O encontro instalou outro tempo e espao no  centro  da  cidade,
trocou o jardim pela beira-mar, me trans portou  minha adolescncia  no
Arpoador. Frangote, mudando a voz, conquistando minhas primeiras idas  
praia sem meu pai ou minha av, me exibindo para as garotas, mergulhando
do Pontal, inaugurando marolas como se fossem vagalhes, tentando descer
nas ondas entre tombos e cal-

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dos homricoS numa imensa prancha. E foi num desses trambolhes  de  uma
onda que encaixotou, violentamente sacudido num maremoto entre  o  ronco
da gua e a areia revolta, que esbarrei em Marlia pela primeira vez. Ao
nos levantarmos do torvelinho, ainda tontos, o nariz  dela  sangrava  de
uma cabeada minha, preocupado, at esqueci a prancha solta que as ondas
arrastaram at a areia. Fui ajud-la. Depois voltamos  juntos  parte  do
caminho de casa pela Francisco  OtavianO.  Ela  entrava  na  esquina  da
Bulhes de Carvalho, onde morava. Eu seguia at  o  apartamento  de  meu
pai, no Posto  Seis,  praia  mansa  de  menino  pequeno,  em  frente  s
amendoeiras e canoas de arrastes matinais.
        No dia seguinte a encontrei de novo. E  de  novo,  at  ficarmos
velhos amigos. De praia e festas. Amizade de  meses  e  anos,  ns  dois
crescendo juntos. Trocamos discos dos Beatles de  presente  nos  Natais,
sonhamos com a swingiflg Londofl, assistimos pela tev aos festivais  da
Record, namoramos em carnavais na Banda de Ipanema - ainda inocentes,  a
Banda e ns. O tempo deslizava, e nos, firmes. Batamos longos papos  ao
telefone,  amos  a  assemblias  de  secundaristas,  acompanhvamos  as
primeiras passea tas, nos reunamos em casa de uns e outros, a  discutir
poltica e cinema, ouvir discos, conversar,  tocar  violo.  Sem  sentir
como, fui me apaixonando de mansinho.  Cheguei  a  fazer  uma  letra  em
homenagem a ela, para uma cano do Guigui, nem sei se ainda  sou  capaz
de lembrar. S sei que dizia:"Achei Marlia no mar, mas  Marlia    uma
ilha." E rimava com maravilha, evidentemente.
        A julgar pela rima que usei de novo no  poemeto  do  beija-flor,
continuo muito parco em recursos poticos.

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Mas isso  comentrio atual, de quem anda se relendo. Volto  a  Marlia,
pois, ao menos por disciplina. Para  tentar  desenvolver  um  tema,  com
princpio, meio e fim.
        Depois de alguns anos, nossa adolescncia foi ficando para trs.
Marlia se mudou. Foi  tendo  horrios  de  treinamento  cada  vez  mais
apertados no clube. Entrou para a equipe carioca  de  natao,  viajava,
dormia cedo, no bebia, no transava fumo, tinha horrios  incompatveis
com minha boemia. E eu fui descobrindo que havia outras ilhas  no  vasto
oceano carioca. Bem mais abordveis que as areias escaldantes das praias
virgens de Marlia. Depois de algum cinema ou chopinho,  nossos  embates
noturnos no banco de algum automvel eram infrutferos e me desanimaram.
Irredutvel demais, a sereia. Cortamos. Eu queria todas as  mulheres  do
mundo. Se possvel, ao mesmo tempo. Ela se retraiu. Fomos nos  afastando
e eu nem notei. Um dia, devo ter reparado: e Marlia?  mesmo,  que  fim
levou? H quanto tempo no telefono... Mas no fez falta. Me perdi dela.
        S alguns anos depois, fui me perder nela. Por acaso, numa festa
de rveillon, dei com Marlia  toda  de  branco.  Ela,  disponvel.  Eu,
sozinho, que nesse tempo andava saindo com Elsa e  ela  fora  passar  as
festas de fim de ano na Alemanha. Meu espao se oferecia aberto  para  o
desembarque de Marlia, deslumbrante,  no  mais  ilha  inacessvel  mas
veleiro a deslizar. Foi ela quem me tomou, de abordagem. Mas  eu  lancei
pontes  e  nunca  me  arrependi.  Danamos,  bebemos,  fomos  juntos  de
madrugada levar flores para Iemanj. E comeamos o ano em  navegao  na
minha cama, j no meu apartamento de solteiro, em adulta  explorao  de
corpos que tinham tan-

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to a se dizer h tanto  tempo.  Um  tesouro  submerso.  E  como  se  no
bastasse, como em toda histria de tesouro que se  preza,  vinha  com  a
maldio de uma velha lenda- amor de pica: onde bate, fica. Descobri que
eu podia at achar que tinha comido um milho de  mulheres,  mas  era  a
primeira vez que mergulhava numa. Experincia transformadora.
        Fomos nos envolvendo, mais e mais. No  comeo,  meio  temerosos,
como se fssemos companheiros  esporti  vos.  Ainda  mantnhamos  outros
casos, saamos com outras pessoas. Mas todo  fim  de  semana,  amos  de
carro at Itacuru, tomvamos uma traineira de um pescador e amos para
a Ilha mergulhar. De incio, acampvamos. Depois, descobrimos  a  penso
da Janana e nos instalamos. Dois dias de imerso  total.  L  fora,  no
mar. L dentro, um no outro. No dava mais para distinguir.
        Nadamos por profundezas inimaginadas,  desenvolvendo  o  flego,
descontrolando o pulso. Mergulhamos em  grotes  e  locas,  desentocamos
peixes e polvos, ficamos ntimos de  ventosas  e  tentculos,  magos  e
algas. Flutuamos em clidas enseadas, nos debatemos com  a  voragem  das
ondas. Calmaria e torvelinho, mar alta e mar baixa se sucediam  e  ns
com eles. Bichos marinhos a cumprir ciclos. Crescer em  ondas,  estourar
em espuma, espraiar-se, embeber-se na areia. Um  mundo  de  arrepios  na
superfcie e mistrios nas profundezas. Algas ondulantes entre os dedos,
esguias lnguas de enguias, pentelhos de medusa nos artelhos,  brasa  de
gua-viva, nado sbito de peixe, mergulho de cabea,  impulso  cortante,
aconchego de concha, vaga  cano  de  bzios,  embalo  aos  sabores  da
marola, lenis de mar acolhedores como o tero inicial.

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        Nada fazia supor que um dia acabasse.
        E at hoje no sei como acabou. Como foi que eu acabei com tudo.
        Quando penso nisso, s vezes acho que foi  por  causa  da  minha
av. No por culpa dela, coitada. Mas por coincidncia.
        Marlia detestava minha av Constncia. Talvez detestar seja uma
palavra muito forte, mas era quase isso. Morria de cimes da velha.  No
entendia meus sentimentos por ela, zombava, ria  de  mim,  uma  vez  at
chegou a fazer piada numa roda de chope, em frente a meus amigos, fiquei
puto. No adiantava eu explicar que vov Constncia foi quem  me  criou,
que meu av e meu pai tinham morrido e ela s  tinha  a  mim  no  mundo.
Marlia simplesmente no conseguia entender. Um dia eu a levei l,  para
que as duas  se  conhecessem.  Foi  um  desastre.  A  velha  ficou  toda
cerimoniosa,  querendo  agradar  mas  sem  saber    como,    artificial,
representando o tempo todo um papel que no consegui identificar.  Nunca
comentou nada comigo, mas ficou claro que no achava que fosse a  mulher
para mim. Quanto a Marlia, nem tentou. Foi lgida e seca. De uma secura
que eu no conhecia e me deixou cabreiro. Era  uma  pessoa  distinta  da
mulher envolvente que me atraa. Muito estranha.
        Comeamos a discutir de  vez  em  quando  por  causa  disso,  na
ocasio em que minha av adoeceu e passou a me solicitar  mais.  Marlia
implicava, criava caso. s vezes eu levava no bom humor, fiz uma pardia
da tal cano para ela, rimei Marlia" com no  boa filha" e "foge de
famlia". Era atroz mesmo, e ela no  achou  graa  nenhuma.  Mas  amos
levando. De vez em quando, a gente

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quebrava um pau, eu sumia uns dias, saa com outras garotas, tornei a me
encontrar com Elsa, minha alemzinha slida e bem plantada a me  ancorar
em terra firme.
        Mas sempre voltvamos, o que me  puxava  para  Marlia  era  uma
atrao muito forte. Eu tinha resolvido que ia casar com ela, estava  s
esperando a sade de  minha  av  melhorar  um  pouco,  j  examinvamos
possveis datas, ia ser uma cerimnia  discreta,  simples,  s  para  os
amigos mais ntimos.  Nada  de  muito  complicado.  S  oficializar  uma
relao que j era real e razoavelmente estavel.
        Depois de uma dessas brigas, ainda com um tumulto no peito,  fui
sem ela a um jantar em casa de uns conhecidos, onde me sentei em  frente
a Vanda, com seus olhos dourados de abelha zumbidora, seu ar de  gaivota
pairando no alto, sua serena tranqilidade. Conversar com ela me  trouxe
uma sensao de placidez, e hoje acho que provavelmente foi a primeira e
nica vez em minha vida que encontrei algum que  me  fez  pensar  nessa
palavra. Na sada, menti que estava sem carro e pedi carona. Ela  riu  e
disse que reparou em mim quando chegou, e  eu  estava  estacionando.  Me
pegou em plena mentira e fiquei com vergonha. Mas achou graa e me deu o
nmero do telefone.
        Comecei a encontrar com ela de vez em  quando.  Quando  a  barra
ficava pesada com Marlia, Vanda  me  acalmava,  botava  tudo  macio  no
lugar. Na cama e na vida. Guardava uma certa distncia, estava saindo de
um casamento que no deu  certo,  tentava  no  se  envolver,  ficar  na
superfcie. Aquela coisa gostosa de amizade colOrida.  Ao  mesmo  tempo,
sua simples presena insinuava que existiam outros vos,  altitudes  no
exploradas. Espa-

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os maiores, onde girava a rosa dos ventos e o ar  circulava  livre  por
todo o quadrante.
        Um dia, quando eu j estava de sada para  ir  jantar  com  ela,
minha av me chamou pelo telefone para ir at l, porque no  estava  se
sentindo bem. Acabei levando Vanda junto, e elas  se  adoraram,  ficaram
grandes amigas. No vou escrever sobre isso agora, no interessa,  estou
falando  de  Marlia.  Tenho  que  me  concentrar  no  tema,  no  ficar
dispersando toda hora para um lado e para o outro. A no ser que  exista
uma razo para o que aparenta ser um desvio. Vou descobrindo que isso  
uma das coisas mais importantes quando  se  escreve.  Voltar  ao  ponto,
fechar parnteses. Na verdade,  muito mais que isso.  se  orientar  no
labirinto, ter um fio condutor. Noo de como  se  arrumam  os  diversos
elementos de um sistema. Isso mesmo. Um esquema interior, invisvel, mas
ali o tempo todo, subterrneo, latente, prestes a desencadear  todas  as
frases e pginas, a dar um sentido a todas essas palavras  juntas.  Algo
que a gente tem que conseguir descobrir para poder escrever.
        Ao  mesmo  tempo,  sinto  que  no  pode  ser  nada  racional  e
predeterminado.  Qualquer  ordenao  consciente  anterior  ao  ato   de
escrever  mero artifcio, inteiramente postia.  De  um  artificialismo
que ressalta logo, como um sujeito que pinta o bigode ou sai na  rua  de
peruca.
        Nada disso. A gente  tem    que  ir  escrevendo,  improvisando,
revirando idias e palavras em torno de alguns estmulos ou intenes um
tanto vagos, e ir tentando descobrir o que aparece para se deixar levar.
Quer dizer, estar atento, a postos e  bem  treinado.  Mas  no  d  para
resolver antes.  como descer numa onda. No caminho at a praia

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cada um se vira sozinho e inventa como vai aproveitar  o  tubo.  Ou  no
consegue, cai e volta para tentar outra. Tudo depende da habilidade e do
preparo do surfista, mas tambm da onda que se forma. A gente tem   que
saber descobrir o jeito prprio de cada uma. A  estrutura  escondida  de
cada texto. Estrutura natural. O esqueleto que sustenta  e  d  forma  e
funo. O eixo impalpvel em torno do qual se enrola a  concha,  girando
em torno de si mesma em volutas cada vez mais amplas, sem nunca perder a
referncia quela linha virtual e invisvel. Que, afinal de contas,  nem
existe, mas  a nica coisa que faz toda aquela matria virar um  grande
bzio ou um caracol e no um amontoado informe de calcreo.
        Quer dizer, eu posso at  fechar  essa  interrupo,  retomar  o
assunto e voltar a escrever a histria de Marlia. Contar  como  de  uma
hora para outra me  descobri  inteiramente  fixado  em  Vanda,  sem  nem
entender como nem por que, a tal ponto que no me restava nada a no ser
a honestidade total. Papo curto e grosso, tipo:
        - Tenho que te dizer uma coisa e no vou mentir  nem  ficar  com
rodeios. Conheci uma mulher e me apaixonei, Marlia.  Desta  vez    pra
valer. No d mais para a gente continuar.
        Lembro bem da minha frieza no momento e posso contar,  botar  no
papel, a minha  busca  de  eficincia  cirrgica  para  cortar  fundo  e
preciso, com o mnimo de perda de sangue e de tempo.  E  o  meu  espanto
diante da reao dela, muda, se esvaindo num  oceano  de  lgrimas.  No
disse uma palavra e entornou o mar pelos olhos. Tambm no falei nada  e
fiquei esperando uma pausa, um momento para conversar, tentar  amenizar.
Mas depois de uma

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eternidade daquela cena, eu j estava to  irritado  que  no  agentava
mais. Simplesmente sa pela porta afora, deixando a cpia  da  chave  em
cima da mesa. Nem levei nenhuma das minhas coisas que j tinha instalado
no apartamento  dela.  Achei  que  ela  talvez  me  telefonasse  no  dia
seguinte, mais calma, para uma conversa difcil mas necessria.  Engano.
No havia essa necessidade. Nunca mais vi Marlia. At ontem. E  mal  me
lembrei dela esse tempo todo.
        Devo ser um desalmado.
        To sem corao que a esta altura, diante de um encontro desses,
que evidentemente me toca e me perturba (alm de me excitar fisicamente,
confesso), tenho duas reaes que se confundem. E nenhuma depe muito  a
meu favor. A primeira  de alvio, por ver que tudo acabou bem,  Marlia
est feliz, realizada, plena,  encontrou  um  caminho  prprio,  eu  no
preciso me sentir culpado de nada. A segunda  cruel, mas  no  d  para
evitar. Como uma doena. Patologicamente,  depois  que  nos  viramos  as
costas e cada um foi para um lado, eu me surpreendi  exultante  -  tinha
acabado de achar um assunto. No preciso mais ficar fingindo  que  quero
escrever sobre beija-flores. Agora eu tenho  uma  histria  com  comeo,
meio e fim. Posso escrever sobre ela. Fazer um conto.
         s descobrir de que maneira. Que estrutura vou  inventar.  Que
labirinto vou criar.
        E mergulhar nele.





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CAPTULO VI




- Quem quer caf? - perguntou Llia, entrando com a bandeja, enquanto os
outros se levantavam da mesa de jantar, em busca das poltronas macias da
sala ao lado.
        Todo mundo queria. Ela contou.
        - Bem, ento so cinco, comigo. Muito ou pouco acar?
        Vanda escolheu:
        - Guto e eu tomamos com adoante, mas pode deixar que  eu  mesma
sirvo.
        A irm esperou que ela terminasse com o bule,  depois  completou
com a bebida quente o espao que restava numa xcara  pequena,  j  pela
metade de tanto acar, e passou para o marido.
        - Eu tomo puro, sem nada, e o Alexandre tambm. Projeto sade...
Mas o de Moacir  uma garapa.
        Ele riu e comentou:
        - E isso porque no tem rapadura,  que  quando  tem    como  eu
prefiro, nunca perdi esse gosto... Em casa,  claro, na intimidade... Na
rua, eu sei me portar. Mas caf pra mim tem que ser sempre bem doce.  De
amarga, basta a vida...
        Guto reparou mais uma vez que Moacir, por mais tempo de  Rio  de
Janeiro que j tivesse, continuava guardando um colorido  nordestino  no
sotaque, na melodia da

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frase, nas vogais abertas, no -t- e -d- bem recortados e ntidos,  mesmo
antes de -e- e -i-. Moacir dizia"prdi", falava"intimidade"  sem  nenhum
chiado. E se algum quisesse escrever isso, como  que faria? O  sotaque
de um personagem no d para reproduzir  no  papel,  s  se  o  escritor
quiser recorrer  fontica, mas a j cria outro efeito e o texto  perde
a fluncia. O jeito de mostrar uma  linguagem  regional  teria  que  ser
outro. Pela escolha das palavras, por exemplo, usando coisas como"no se
avexe" ou "aperreado"... Mas a ficava falso, no era assim  que  Moacir
falava, Guto tinha reparado bem, durante todo o jantar. As palavras dele
eram as mesmas que os outros usavam, um falar carioca urbano, de  classe
mdia. s vezes, havia alguma diferena na colocao de  algum  pronome,
na omisso de um artigo antes de nome prprio ("bem que eu comentei  com
Llia" e no"com a Llia", como eles diriam), mas  era  pouca  coisa.  A
entonao da frase  que era diferente. E a  pronncia.  O  sotaque  era
mais um problema, para se reproduzir, num texto,  o  modo  de  falar,  o
verdadeiro linguajar de algum. Como  se  j  no  bastassem  as  outras
questes.
        Cada vez  mais,  Guto  tinha  conscincia  das  dificuldades  da
escrita. O tal processo de enxergar a linguagem, como o  havia  chamado.
Se um sujeito quiser escrever bem um texto que seja brasileiro, tem  que
viver numa permanente corda bamba, num equilbrio precrio. De um  lado,
h o registro da linguagem que se ouve e deve ser reproduzida,  na  boca
(e no pensamento) dos personagens,  com  todos  os  erros  da  oralidade
fluente, por fidelidade ao real e at mesmo como homenagem a essa lngua
brasileira que vai sendo coletivamente reinventada no dia-a-dia pela

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fala macia da nossa gente. Por outro lado,    preciso  desenvolver  uma
sensibilidade especial  para  tentar  filtrar  essa  massa  lingstica,
captar  o  que  pode  se  incorporar  como  trao   permanente    nessas
modificaes, o que  tendncia enriquecedora, e rejeitar o que  apenas
modismo passageiro,  empobrecimento  redutor,  imposio  artificial  da
mdia ou pura ignorncia individual do falante,  em  usos  muitas  vezes
inteiramente contra a lgica da lngua.
        Guto podia no saber ainda muito bem o que estava escrevendo  ou
viria a fazer num texto. Alguma narrativa, com  certeza.  Provavelmente,
contos. Sabia, porm, que queria escrever brasileiro.  E  brasileiro  de
hoje. Mas ao mesmo tempo, desejava tambm respeitar e elaborar a  lngua
portuguesa, porque quanto mais se sentia  arrastado  pelo  turbilho  de
escrever, mais vislumbrava as belezas  surpreendentes  do  idioma,  mais
admirava sua lgica profunda, a sabedoria acumulada nessa criao  quase
sempre annima e coletiva pelos sculos afora, lustrada aqui e ali  pelo
talento de algum artista da palavra,  de  nome  conhecido.  Quanto  mais
trabalhava  com  a  lngua,  mais  a  respeitava  por  sua    capacidade
extraordinria de expressar em profundidade toda a ndole cultural de um
povo. No queria se arriscar a cair em  armadilhas  enganosas  e  acabar
traindo toda essa riqueza. Mas tambm queria se expressar de uma maneira
nova, sua, diferente, fiel a seu momento, atenta    saborosa  inventiva
coloquial de sua poca...
        - E voc, Guto? - perguntou Moacir de repente.
        -Hein?
        Teve um sobressalto. Estava inteiramente distrado, se desligara
da conversa, no tinha a menor idia do assunto de que estavam  falando.
Uma indelicadeza com os cunha-

79

dos que o recebiam to bem. Ainda bem que  Vanda  percebeu  e  salvou  a
situao, acendendo uma bia de luz na escurido:
        - Pra todo mundo est a mesma dificuldade, a mesma barra pesada,
em tudo quanto  setor. Mas no sei se d para a gente dizer que a  vida
est amarga por causa disso, no , Guto?
        Ele entrou na conversa, comentou a situao econmica  do  pas,
reclamou da falta de parmetros estveis, tudo mudando toda hora,  assim
ficava muito difcil planejar, investir, tocar as  coisas  para  frente.
Mas tambm se recusava a fazer o  jogo  irresponsvel  dos  que  queriam
outra vez a subida da inflao, as especulaes da ciranda financeira de
volta. Concluiu enftico:
        - Para quem trabalha, nada  to perverso quanto a inflao!
        Moacir contestou com a mesma nfase:
        - Mas no d mais pra ningum agentar essa pasmaceira!  Ningum
faz nada, no acontece nada... Um pas desse tamanho, com  um  potencial
desses... Tem que se desenvolver.
        Num instante estava evocando o tempo do Juscelino, a  construo
de Braslia, a abertura de estradas:
        - Eu tinha uns quinze anos quando inauguraram  Braslia.  Vi  no
cinema. No vou esquecer nunca. Um irmo de meu pai tinha  ido  pra  l,
trabalhar de peo de obra. Candango. Fizeram at esttua pra gente  como
ele. Depois virou mestre-de-obras, foi subindo, se deu bem na vida.  Foi
por causa dele que eu me animei a largar  tudo  e  vir  para  o  Rio  de
Janeiro tambm. Meter a cara no trabalho, dormindo e  comendo  na  obra,
aprendendo muita coi-

80

sa. Tempo bom, cheio  de  construo,  de  oportunidade  para  quem  no
tivesse medo de suar a camisa. Fui logo vendo que eu levava jeito para a
coisa, principalmente a parte de hidrulica, eletricidade... Se meu  tio
deu certo com a firma dele em Braslia, por que  que eu no podia ter a
minha empreiteirazinha tambm? Tempo bom... Dava pro sujeito  trabalhar,
acreditar e ir em frente... Era um prdio atrs do outro, obra  que  no
acabava mais.
        - Lembro bem - sorriu Guto. -  Eu  era  menino,  em  Copacabana,
lembro que no caminho da praia, quando a gente ia para o  Arpoador,  era
um tapume atrs do outro. Cada um escondia l  dentro  um  edifcio  que
estava sendo construdo. Primeiro, os caras derrubavam as casas e faziam
o terreno, como a  gente  dizia.  Depois  vinha  o  resto.  Um  barulho
infernal, minha av ficava enlouquecida. Tinha bate-estaca, que  sacudia
as paredes de todo  mundo.  E  serra  eltrica,  um  guincho  tremido  e
horrvel, fininho, dentro do ouvido da gente.
        - E as bombas de recalque, esqueceu? Puxando gua de debaixo  da
terra, pra poder assentar as fundaes - lembrou Moacir.
        - E mesmo... Tinha esse jorro do cho.  Eu  nem  sabia  que  era
isso, bomba de recalque. Mas no  comeo  de  toda  obra  tinha  um  cano
jogando gua pro lado de fora, junto  calada. A gente voltava da praia
e lavava a areia dos ps  ali.  Ou  quando  vinha  do  colgio,  soltava
barquinho de papel, apostava corrida de folha seca...
        - Quem sabe voc no brincou em frente a  alguma  obra  onde  eu
estava? - riu Moacir. - Comecei por Copacabana mesmo. Quando as casas de
Ipanema foram derrubadas para  fazer  os  edifcios  (isso  j  foi  bem
depois,

81

pelo comeo dos anos 70), eu j estava indo de um lado  para  outro  com
minha pick-up por esse Rio de Janeiro afora, meu depsito junto  de  uma
casinha de alvenaria no subrbio, carregando material de um lado para  o
outro, tocando minhas prprias obras. Mas nesse tempo, de Copacabana,  a
gente pode ter se cruzado, j imaginou? Voc l fora se divertindo e  eu
l dentro trabalhando. Quem diria que eu ainda ia te servir um usque na
minha casa, hein?
        - Excelente,  por  sinal.  Pode  se  orgulhar,  Moacir.  Da  sua
trajetria e da sua qualidade de anfitrio.
        - E do meu filho na faculdade, Guto, o maior  orgulho  da  minha
vida. Meu pai nem sabia ler. Eu quando vim pra c mal  tinha  acabado  o
primrio, fui fazer aquele curso para completar, como era mesmo?
        - Supletivo... - disse Alexandre, sorrindo para o pai.
        - No - corrigiu Llia. - Naquele tempo se chamava artigo 91, se
no me  engano.  Mas  voc  sempre  leu  jornal  e  revista,  sempre  se
interessou por tudo.  um homem que sabe uma poro de coisas.  No  fez
falta nenhuma no ter feito faculdade. E naquele tempo, o vestibular era
muito difcil. Sei l, sessenta candidatos para cada vaga em Medicina ou
Engenharia, coisas assim...
        Alexandre quis fazer um comentrio, pousando a xcara de caf  e
olhando o relgio. Tinha combinado sair  com  uns  amigos  e  j  estava
atrasado. Quase comera antes, porque j previa que,  como  a  me  tinha
convidados para o jantar, ele ia acabar perdendo a hora. Mas gostava dos
tios e no era nenhum sacrifcio ter ficado.  No  podia  era  agora  se
deixar envolver com a conversa. Deu S um palpite.

82        - Engraado vocs falarem desse jeito, como se fosse tudo  muito
antigo. Eu fico achando que o Brasil  um  pas  onde  as  coisas  mudam
muito depressa. Vestibular, por exemplo,  duro mas no   assim.  E  eu
nunca tinha pensa- do que, para fazer Copacabana e Ipanema do jeito  que
so hoje, tenha sido preciso derrubar o que havia antes. Pensava que era
como na Barra, terreno vazio, era s chegar e construir.
        - Nada disso. Foi preciso  arrasar  o  que  existia.  Cada  casa
linda, com quintal, ruas arborizadas... - lembrou Vanda.
        - Assim, tipo manso? - ainda perguntou o rapaz.
        - Uma ou outra talvez fosse, principalmente na beira da lagoa  e
perto da praia. Mas a maioria, eu acho  que  era  de  casas  comuns,  de
famlia, como as que a gente ainda v na Zona  Norte  e  nos  subrbios.
Tinha tambm umas vilazinhas simpticas... Como a da casa  em  que  voc
nasceu, no Lins.
        Antes que a sesso nostalgia  se  prolongasse  e  o  assunto  da
construo civil virasse presso  para  ele  ir  trabalhar  com  o  pai,
Alexandre  tratou  de  explicar  que  tinha  um  compromisso  e   foi-se
despedindo. Mas assim que saiu, Moacir retomou a conversa:
        - Foi uma coisa que me deixou muito espantado com esse povo aqui
do Rio, logo que cheguei. Como  que se  desperdiava  tanta  gua?  Pra
fazer um edifcio tinha que jogar fora  aquela  gua  toda,  fresquinha,
jorrando sem parar. E todo mundo em volta reclamando de falta d'gua.
        - Mas faltava mesmo - confirmou Guto. - Foi antes da adutora  do
Guandu, havia pouca gua para abastecer uma cidade que crescia rpido. A
gente tinha que en-

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cher banheira para guardar gua porque s vezes passavam  dias  sem  que
entrasse uma gota. Vov me mandava pedir para encher balde  e  lata  nas
obras com essa tal gua das bombas. Mas era  salobra,  no  servia  para
cozinhar nem beber. Mesmo para banho, s em ltimo  caso,  o  sabo  nem
fazia espuma. S servia para jogar na privada.
        O papo foi correndo solto, com lembranas variadas.  Moacir  era
muito falante, ia emendando uma coisa na outra. As mulheres iam  fazendo
comentrios. Guto tornou a se distrair, dessa vez pensando  em  Marlia,
por causa das evocaes da infncia e adolescncia em  Copacabana  e  no
Arpoador. Achava  que  ia  mesmo  escrever  sobre  ela.  Mas  tinha  que
descobrir um fio condutor, a tal coisa da estrutura.  Tinha  certeza  de
que era essencial definir isso. Talvez algo  a  ver  com  gua,  Marlia
sempre lhe parecera martima, lquida, molhada...
        Quase sorrindo, de repente  se  deu  conta  da  coincidncia.  A
conversa tinha  girado  por  outros  lados,  agora  estavam  falando  em
telhados, e Moacir novamente falava em gua. Outras guas. Guto  prestou
ateno:
        -  Eu  no  me  conformava.  Sei  que  Llia  tinha  razo,  que
apartamento  muito mais prtico, mais seguro, hoje em dia no  d  mais
para morar em casa. Mas s fiquei feliz mesmo quando deu para mudar  pra
essa cobertura e fazer uma casinha no terrao. Com  telhado  mesmo.  Pra
mim, casa que no tem duas guas no  casa de verdade.
        Vanda estranhou:
        - Duas guas? Como assim?
        Lelia explicou, encostando as pontas dos dedos das duas  mos  e
mantendo as palmas separadas, imitando uma tenda com o gesto:

84

        - Duas vertentes, Vanda, duas bandas de telhado  se  encontrando
l no alto. Igual a casinha de desenho de criana.  isso que chamam  de
duas guas.
        Moacir prosseguia:
        - A casa  dos  meus  pais  era  muito  simples,  uma  construo
modesta, de pau-a-pique, coberta de palha, as janelas eram inteiras, sem
vidraa nem persiana e abriam para dentro. E se  fechavam  com  tramela,
igual s portas... Mas era uma casa bonita, tinha duas guas, cada  lado
do telhado encontrando o  outro  l  em  cima,  na  cumeeira...  S  fui
conhecer casa de uma gua s quando  vim  para  a  cidade,  e  achei  um
horror, com aquele jeito de caixoto torto. Ainda  por  cima,  tive  que
morar em uma assim,  muito  tempo,  dando  graas  a  Deus  por  ser  de
alvenaria. Mas quando vi,  no  gostei.  Depois  ento,  quando  conheci
prdio de apartamento, achei mais feio ainda. Sem telhado,  como    que
pode? S aquela laje em cima, coisa mais feia, vixe! Eu  que no queria
morar num troo daqueles... Depois fui me acostumando, sei que  moderno
e que no precisa mesmo ter telhado. Hoje em dia no  me  incomodo.  Mas
dizer que gosto? No gosto no...
        De repente,  Guto  vislumbrou  na  conversa  um  aspecto  que  o
interessava e perguntou, curioso:
        - Me diga uma coisa, Moacir, para construir uma  casa,  a  gente
tem que fazer primeiro a estrutura? Ou, pelo menos, tem que  saber  como
ela ?
        - Claro, homem. Como  que voc vai botar de p  uma  coisa  que
no sabe como vai ser? Tem que comear pelas fundaes...  E  pra  isso,
tem que saber direitinho o que  que vai ficar em cima delas. O tamanho,
a altura,  tudo calculado.

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        - Mas como  que , exatamente? A estrutura, eu  quero  dizer...
Primeiro a gente faz o esqueleto todo e depois enche os espaos? Ou  vai
fazendo tudo junto?
        Moacir explicou:
        - Ah, Guto, cada obra  diferente. Pra esses edifcios  grandes,
tem que fazer primeiro a sustentao: os pilares, as vigas  de  concreto
com vergalho dentro, essas coisas. Depois   que  a  gente  levanta  as
paredes. Mas tem casa que  feita com tijolo  estrutural,    a  prpria
parede que vai subindo que depois sustenta a armao do telhado.
        - E essas casas simples, do interior, como voc  estava  falando
que era a dos seus pais? Uma casa bem fcil de fazer,  para  quem  nunca
fez nenhuma... Como ?
        - Primeiro a estrutura, depois a casa. A gente faz  primeiro  os
esteios, depois enche as paredes com  os  taipais  tranados,  de  ripas
serradas ou paus  rolios  mesmos,  bem  amarradinhos,  de  imbaba,  ou
qualquer tronco fino. A j pode calar bem  o  recheio,  n?  Pode  at
jogar as mozadas de barro. Era isso que  voc  queria  saber?  Casa  de
taipa, estuque, pau-a-pique? Tem muitos nomes...
        Vanda olhou para o marido meio espantada:
        -  Puxa,  voc  parece  to  interessado...  Est  pensando   em
construir alguma coisa?
        - No. Ando interessado em estruturas em geral. Como  que   na
natureza? As colmias, por exemplo. Voc, que  professora de  cincias,
deve saber...
        Achando graa,  a  mulher  respondeu,  com  pacincia,  como  se
estivesse mesmo dando uma aula:
        - Sei em linhas gerais, no sei qual  o detalhamento  que  voc
quer. Vamos l. A colmia  uma espcie de armazm do nctar e do  plen
que as abelhas recolhem nas

86

flores. Ela  formada pelos favos, que  so  construdos  de  cima  para
baixo, como se fossem  paredes  penduradas  num  teto.  Obedecem  a  uma
estrutura rigorosa. So formados por centenas  de  tubinhos  hexagonais,
feitos de cera, levemente inclinados (para o nctar no  escorrer),  uns
de costas para os outros. A largura deles no  exatamente igual, mas h
tipos diferentes, de acordo com as funes que vo ter:  guardar  plen,
criar larvas de abelha, de zanges, armazenar nctar que vai  virar  mel
(nesse caso tem tampinhas de cera), etc... Que mais voc quer saber?
        O tom de Vanda era sinceramente curioso, de quem se  surpreendeu
com o interesse do marido. Mais surpreendida ainda ficou com um  suspiro
que ele deixou escapar antes de responder:
        - Eu mesmo no sei, essa  que  a verdade.  Mas  tenho  pensado
muito nisso, nessa necessidade de existir  uma  estrutura  antes  de  se
partir para construir realmente alguma coisa. Mesmo que a estrutura  no
aparea depois de pronta.
        - Mas na colmia ela aparece - interrompeu Llia.
        - Pois , mas a natureza est cheia de outras estruturas  que  a
gente no  v.  Eu  pensei  nisso  primeiro  por  causa  das  penas  dos
beija-flores. A fui observando uma poro de outras estruturas naturais
da  maior  exatido  geomtrica,  essa  coisa  a  que  a  Vanda  falou:
rigorosas. Tem os cristais, por exemplo, que se arrumam  geometricamente
em torno de eixos invisveis. Mas no precisa ser mineral. At os  seres
vivos podem seguir essa matemtica rgida.  Esqueleto,  por  exemplo,  
tudo encaixado, como se fosse calculado. E tem coisas  mais  matemticas
ainda. Por  exemplo,  um  dia  destes  na  praia,  a  Carol  trouxe  uma
estrela-do-

87

mar que tinha achado, daquelas redondas, achatadas com o desenho de  uma
roscea no dorso. Depois, ela se partiu  e  ns  vimos  l  dentro  -  o
esqueleto era uma estrela de cinco pontas perfeita. Aposto que podia ser
inscrita num crculo e ia se arrumar em ngulos de 72 graus...
        Llia concordou:
        - Realmente,  uma coisa maravilhosa. A natureza  um  assombro.
Tem conchas que so uma perfeio. Tem uns bzios, por exemplo, com umas
volutas harmoniosas que se desenrolam, se desdobram. E, ainda por  cima,
muitas  vezes  com  desenhos  geomtricos   incrveis    na    carapaa,
ziguezagues, linhas sinuosas, salpicados regulares. Parecem  feitos  com
rgua e compasso.
        Vanda mexeu com a irm:
        - Grande surpresa, hein? No pensei que voc era dada a  prestar
ateno em conchas.
        - E no sou mesmo. Mas me interesso por bzios, como voc sabe.
        - Claro. Bzios, tar, runas, astrologia, 1  Ching,  alquimia  e
outras bruxarias no gnero...
        - No  bruxaria, Vanda. J te disse mil vezes.
        - Est bem. No vamos discutir isso. Desculpe, no quis ofender,
 estava s admirando teus conhecimentos sobre  as  conchas.  Pensei  que
eram de algum livro.
        Llia deu uma risada:
        - Voc me conhece mesmo.  de um livro. Maravilhoso,  importado,
 todo de fotos coloridas sobre as conchas do mundo. Guto, se  voc  anda
interessado niSSO, passa l na livraria que eu te mostro.  fantstico!
        - Esto vendo s? - brincou Moacir. - Minha mulher  uma  grande
vendedora, at nas horas vagas...

88

        - No, no precisa  comprar.  Sente  l  e  fique  folheando,  
vontade.  mesmo uma maravilha. Voc quer estruturas?  Tem  todas...  As
conchas mais variadas. Vieiras, caracis, navalhas, berbiges,  tgulas,
abalones, agulhas. E uma outra que  um  espanto:  um  tal  de  nutilo,
parece que  a casca de fora onde nasce um tipo de polvo, vai  crescendo
e se abrindo em espiral, toda rajada,  zebrada  nas  voltas  de  dentro,
depois vai aos poucos ficando branca, bem alvinha.  um design perfeito.
Limpo. Econmico.
        O tom de Llia era to entusiasmado, que quando  ela  acabou  de
falar, os outros deixaram uma pausa, como de admirao. Mas  foi  curta.
Porque Guto logo voltou  carga.
        - Pois ... Mas como  que comea? Como  que a natureza  arruma
as coisas assim, to estruturadas? Vanda, voc deve saber...
        - No, no sei explicar  como  e  por  que  esses  processos  se
desenvolvem, s sei descrever como acontece. Por exemplo, a simetria, as
asas iguais das borboletas repetindo o mesmo desenho, essas coisas.  Mas
talvez se voc explicasse melhor por que quer saber, eu  pudesse  tentar
me informar, pesquisar...
        Guto no chegou exatamente a responder, foi mais uma continuao
da linha de pensamentos que vinha desenvolvendo:
        - E teia de aranha, como  que ?
        Llia tambm se animou. Foi lembrando de outros exemplos:
        - E folha de samambaia, como    que  fica  to  arrumadinha?  E
recife de coral? E lula, gente... Como  que pode, ter aquela  pena  to
certinha dentro dela?

89

        Moacir se levantou para servir  uma  nova  rodada  de  bebida  e
cortou o entusiasmo quase infantil da mulher:
        -  Vocs  esto  parecendo  programa  de  televiso   educativa.
Francamente,  eu  prefiro  me  preocupar  com  Outros  sistemas,  outras
estruturas. As redes de corrupo por toda  parte,  no  governo  e  fora
dele. A impunidade sistemtica. A quantidade de impostos, essa  recesso
danada... Essas estruturas, sim,  so  perigosas,  podem  acabar  com  a
gente. Mas no constroem nada, s atravancam qualquer progresso...
        Num instante, recomeou a discursar contra a situao poltica e
 econmica. Guto se interessou, sua empresa tambm era afetada por  tudo
aquilo. A conversa dos homens esquentou de novo.
        Llia se levantou para recolher a bandeja  de  caf,  Vanda  foi
ajud-la com a loua.
        - No precisa lavar. Deixe de molho que  amanh  cedo  eu  cuido
disso.
        - Pelo menos deixo tudo empilhado e com detergente.
        No gesto que Vanda fez para arrumar os pires, Llia  reparou  no
dedo da irm.
        - Anel novo? Lindo, deixe eu ver...
        - Foi Guto que deu. Presente pelos dez anos de casamento.
        - J no era sem  tempo.  Hora  de  aposentar  aquela  argolinha
enferrujada que voc usava.
        - Mas eu bem que gostava dela. Tinha histria.
        - Voc sempre disse que um dia me contava. Mas nunca  contou.  
segredo?
        Vanda riu.

90

        - Segredo coisa nenhuma. S que  histria simples, no tem nada
demais.
        - Se  simples, conta.
        - Bom, no sei todos os detalhes, mas a av do  Guto  me  contou
que quando ela era pequena... quer dizer, no sei se voc sabe, mas  ela
e o marido eram primos...
        - O clebre av Carlo?
        - Esse mesmo. Primos em segundo ou terceiro grau, eu  acho,  mas
primos. Ento, se conheciam desde crianas. Ou melhor, ela era  criana,
mas ele j era um rapaz, porque tinha uns quinze anos a mais do que ela.
E costumava brincar com ela, esse tipo de brincadeirinha boba que se faz
com criana, dizendo que ela era noiva dele,  e  quando  ela  crescesse,
eles iam se casar. Um dia ela pediu um anel de noivado, e ele deu um  de
papel, desses que vm enrolando charuto, cheio de enfeites  dourados.  E
ela levou a srio e guardou, toda feliz.
        - Claro, criana leva a srio. Se  Alex  fizer  uma  brincadeira
dessas com Carol, aposto que ela acredita.
        - bvio. Mas ela teve que guardar o tal anel  por  muito  tempo,
porque ele estava indo viajar. Arrumou um  lugar  na  tripulao  de  um
navio grego e saiu pelo mundo afora.  Andou  por  um  monte  de  portos,
depois deu com os costados na Europa e ficou anos, por l,  estudando  e
trabalhando. E como a famlia, no Brasil, tinha fazenda  de  cacau,  ele
acabou se fixando na Sua, para  aprender  tudo  o  que  pudesse  sobre
fabricao de chocolate, comercializao do cacau, sei l mais o qu.
        - Tudo bem. E a argolinha? Onde  que entra nisso?
        - Calma, estou chegando  l.  Dona  Constncia  contou  que,  na
vspera dele sair da Sua e voltar para o Bra-

91

sil, estava com os amigos pescando num lago e pegou um peixe grande, que
foram fazer para o jantar. E dentro da barriga do peixe, ele achou o tal
anel...
        - Como num conto de fadas? No    possvel!  Essas  coisas  no
existem!
        - Pois ... E por causa disso mesmo, os amigos disseram  que  ia
dar sorte, podia ser anel mgico, de  gnio  protetor,  essas  bobagens.
Ento ele botou o anel no bolso do colete e depois guardou numa caixinha
de rap que tinha comprado para dar de presente ao  pai.  E  no  pensou
mais no assunto. Meses mais tarde, depois de  uma  viagem  de  navio  de
volta ao Brasil e outro estiro at  a  fazenda,  finalmente  chegou  em
casa. E encontrou dona Constncia, j adulta e ainda solteira.
        - E se apaixonou por ela, aposto.
        Vanda sorriu.
        - Engraado, mas ela disse que no. Que ele chegou  inteiramente
indiferente, esquecido  das  brincadeiras  de  criana,  todo  distante,
cumprimentando a prima com uma certa cerimnia. Ela achava que ele mal a
reconheceu ou nem lembrava mais dela.
        - Pode ser. O cara ficou  anos  na  Europa,  ela  cresceu...  Ou
ento, vai ver, era timidez - interrompeu Llia. -  Ainda  mais  naquele
tempo. Rapaz no ficava assim conversando  toa com moa.
        - Pois , mas ela era uma ingnua completa, coitadinha... E anos
depois, quando me contou o que  aconteceu,  ainda  ficava  encabulada  e
vermelhinha. Porque ela no tinha esquecido dele e  acreditava  piamente
que eles eram noivos. Por isso, quando ele quis ser gentil  e  perguntou
se a prima tinha casado ou tinha filhos, qualquer coisa no

92

gnero, ela rapidamente esclareceu que no, que eles eram noivos  e  ela
estava aquele tempo todo esperando por ele.
        - Passou por oferecida? Coitada...
        - Mas ele foi um gentleman. Nem piscou. Foi um homem de palavra.
Sacou a caixinha de rap do ba, abriu, tirou o anel, e enfiou  no  dedo
dela. Pronto! Era o anel de noivado, especialmente trazido da Europa.
        - Aquela argola toda oxidada? E ela no estranhou?
        - Sei l... Esses detalhes eu no fiquei sabendo. Mas sempre era
melhor que a aliana anterior, de papel de charuto...
        - E eles acabaram se casando mesmo? Que incrvel! Deve ter  sido
um desastre...
        - Tinha tudo para dar errado. Mas  deu  certo.  Dona  Constncia
disse que tinha certeza de que ele se  esquecera  dela  e  ia  manter  o
compromisso s porque achou que  tinha  dado  a  palavra.  Mesmo  com  a
conversa de que tinha trazido o anel porque era  mgico,  e  tinha  sido
apanhado no lago Constana, que tinha o mesmo nome que  ela  e  coisa  e
tal... Ela mesma se espantava quando contava que, logo em  seguida,  ele
comeou a ser  muito  atencioso  e  terno,  e  acabou  sendo  um  marido
apaixonado.
        Llia  no  conseguiu  evitar  um  comentrio  ctico,  enquanto
apagava a luz da cozinha e as duas se dirigiam de novo para a sala:
        - Ou ento, ela se contentava com pouco...
        - Acho que no. Nunca vi os dois juntos, no cheguei a  conhecer
o velho Carlo, mas no era essa a impresso que ela  me  dava.  E  alm
disso, todo mundo sempre fala neles como um casal amoroso, que  ele  era
completamente apaixonado por ela.

93

        - Meu av Carlo? - interrompeu Guto, pescando a conversa no ar.
- Era absolutamente vidrado em VOV Constancinha, no via nada na vida a
no ser ela. Fissura total, como diramos hoje. Cego para qualquer coisa
que no fosse minha av.  Com  idia  fixa  nela.  Manaco.  Obcecado  e
obsessivo, com c e com s, como  capaz de dizer (ou escrever) esta nossa
lngua maluca.
        - Nunca pensei que voc reparasse nessas coisas - brincou Llia.
- E uma surpresa descobrir que voc se interessa  pelas  palavras  dessa
maneira! Ainda h pouco Vanda  estranhou  eu  saber  tanta  coisa  sobre
conchas, mas voc    que  est  nos  espantando  hoje.  Interessado  em
construo, reparando em palavras... Uma caixinha de surpresas...
        Guto brincou de volta:
        - Ah, minha cunhada, as pessoas so sempre surpreendentes.  Voc
ainda tem muita coisa para descobrir...
        Olhando o relgio, Vanda atalhou:
        -  que ele agora deu para levantar de madrugada  e  ir  para  o
computador, mergulhar l no tal projeto dos beija-flores.
        - Ainda?
        - J prorrogaram o prazo uma poro de  vezes,  mas  agora  deve
estar na reta final, porque ele est trabalhando tanto  que  se  esquece
at de comer, conversar, ver os amigos. Hoje foi  uma  exceo.  E,  por
falar nisso, se no formos embora j, ele  acaba  no  dormindo,  porque
daqui a pouco j  hora de levantar para escrever.  ou no , Guto?
        Ele ficou sem jeito, mas riu. Todos riram e foram se levantando.
Num instante os dois se despediram e saram

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para a noite, l fora. Com gestos solcitos,  ele  abriu  as  portas  do
carro. Mas no conseguiu abrir nenhuma  janela  de  sua  mente,  esboar
fresta alguma que permitisse informar  mulher que "o  tal  projeto  dos
beija-flores", como ela dizia, j estava encerrado  havia  muito  tempo.
Sentia-se um traidor, escondendo isso dela. Mas ainda  no  seria  dessa
vez que ia contar. J era tarde, no eram horas. No estava com a  menor
disposio de se explicar. E guardava para si a realidade que, cada  dia
mais, se convertia em segredo. Como  o  av  Carlo  em  relao    av
Constancinha, tambm ele estava ficando com uma idia fixa.  Obcecado  e
obsessivo. Manaco pelas palavras.  Vidrado  nas  frases.  Fissurado  na
escrita. Apaixonado. Mesmo sem estar diante do  computador,  sua  cabea
estava totalmente tomada por essa paixo. Escrevendo o  tempo  todo.  S
faltava descobrir o qu.





95



CAPTULO VII





Hoje de manh dei uma de paizo e sa com Carol para dar  uma  volta.  O
pretexto foi andar, espairecer, levar uma criana  para  brincar  ao  ar
livre. Mas eu estava precisando pensar, mesmo tendo ficado a noite  toda
com  um  sono  entrecortado,  entre  acordadas  repentinas   e    sonhos
esquisitos. Por causa da carta que eu recebi  ontem,  eu  sei.  Sobre  a
Elsa. Uma mulher to forte, no me conformo.
        Agora, mais do que nunca, tenho que conseguir traar  o  retrato
que ela  merece.  Homenagem.  J  tentei  e  no  consigo.  Mas  preciso
insistir.  o mnimo que posso fazer. E no sei se a dor agora me  ajuda
ou atrapalha nesse esforo.
        Sair com Carol me distraiu.  Ela  fala  sem  parar,  tagarela  e
curiosa, voz alegre e  barulho  constante.  Como  um  bando  de  pardais
cantarolando. s vezes, quase incomoda. Mostra  coisas,  faz  perguntas,
fora respostas. Fomos andando e conversando, rumo ao  Jardim  Botnico,
cada vez mais bonito. Um dos lugares de que  mais  gosto  neste  Rio  de
Janeiro de tantos lugares marcantes.
                  Uma das vantagens de morar no Horto  sair andando, ir
a p por essas ruas ainda cheias de casas e rvores, e  caminhar  at  o
porto lateral do Jardim Botnico. Entrar por ele adentro,  passar  pela
alameda de canelas e,  chegando  ao  bambu-gigante,  junto  ao  jambeiro
branco, escolher ca-

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da dia um trajeto diferente. Me lembro dos passeios na mata com meu av,
ele sempre me mostrando as rvores e os bichos, dizendo o nome  de  cada
um.
        - Gente de cidade  que acha que tudo   p  de  pau.  Mas  Deus
Nosso Senhor fez cada um diferente. A gente tem que conhecer.
        Eu me esforo. Vou prestando ateno.
        Gosto muito de seguir em frente e, l adiante, subir o  morro  e
andar pelo meio da mata, ouvindo os pios de pssaros ou os  guinchos  de
micos no alto das rvores, ao lado do riacho com  seu  barulho  de  gua
correndo - um banho de calma. Ou  virar    direita  nos  dias  frios  e
imergir na estufa de avencas. Mas hoje dobramos  esquerda, porque Carol
queria brincar um pouco no playground. Depois seguimos  mais  adiante  e
acabei me sentando num banco na sombra, enquanto ela tentava  atrair  um
caxinguel, usando de isca uns coquinhos de uma palmeira  de  folhas  em
leque. O velho Carlo que me perdoe, mas o nome  dessa  eu  no  lembro.
Ainda mais hoje. Bem que olhei na tabuleta,  meio  automtico,  mas  no
registrei.
        Carol ficou brincando  e  eu  mergulhei  nos  meus  pensamentos,
tentando pescar e ordenar as lembranas de Elsa.  Quando  dei  por  mim,
estava escrevendo na cabea.  Descubro  que  agora  ando  o  tempo  todo
escrevendo, mesmo quando estou longe de papel ou computador.  Mas  estou
sempre pensando nisso, observando as coisas e as  pessoas  e  imaginando
como eu as botaria em letra de frma. A fico assim. Quem passa deve  me
achar inteiramente ocioso, um sujeito recostado  num  banco  de  jardim,
olhando as rvores,  toa, sem fazer nada. Mas  me  conveno  de  que  a
nica razo que me faz ser capaz de escr-

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ver alguma coisa na hora em que me levanto, de madrugada,    antes  ter
ficado  deste  jeito,  observando  e  pensando,  com  o  esprito  nesta
atividade  incessante,  selecionando  expresses,   fazendo    anotaes
mentais, clareando a maneira  de  arrumar  as  idias.  E  uma  ocupao
fascinante, limpa a cabea de qualquer outra coisa, deve at  fazer  bem
para a sade, evitar estresse, proteger contra  infarte,  essas  coisas.
Sinto que est me ajudando muito a no me envolver  tanto  no  trabalho.
Hoje em dia  no  sou  mais  capaz  de  dar  tanta  importncia  queles
problemas da empresa que me pareciam cruciais e me  tiravam  o  sono  h
alguns meses. E, ao mesmo tempo, essa escrita mental  de  hoje  cedo  me
distraiu um pouco da tristeza em que eu estava.
        Esta  manh,  voltei  a  pensar  na  tal  questo  da  estrutura
necessria para se escrever. Tenho certeza de  que    fundamental.  No
adianta eu querer escrever sobre Marlia, ou fixar minhas lembranas dos
meus avs ou fazer uma  homenagem  ao  Professor.  Podem  at  ser  bons
assuntos, mas um bom tema no garante que o cara escreva bem. Para ficar
mesmo bom,  necessrio um processo anterior. E interior. Quer dizer,  o
negcio  s comigo, dentro de mim, antes de ir para o papel.  Tudo  vai
depender de como  que eu fao isso. Mas hoje compreendi uma  coisa,  l
sentado no meu banco azul entre o verde, olhando uma teia de aranha. No
adianta eu me imobilizar, planejando.  Se  eu  quiser  ficar  totalmente
consciente e dominar o processo com uma afirmao prvia de vontade,  se
eu pretender botar rdea e brido nas palavras, vai sair merda. Escrever
no  um ato de poder. Pode no chegar a ser um ato de humildade, mas  
vizinho dele, na atitude de deixar

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que aflorem e fluam as idias, os encadeamentos lgicos, as sensaes  e
as memrias da realidade. O escritor  s instrumento, ferramenta. E tem
que estar afinado e afiado, corda tensa e lmina cortante. A postos.
        Como a aranha na teia. Pronta para o que der e vier, amparada na
 estrutura rigorosa e exigente que ejaculou devagar, naturalmente e  sem
pensar, de dentro de si, milmetro a milmetro, sustentada  no  elemento
concreto que encontrou mais a jeito no mundo l fora. Fluido viscoso  em
fino fio, que precisa do contato com o ar para  ficar  slido,  forte  e
poder agentar peso - como a Vanda explicou outro dia.
        Alis, ela foi surpreendente. Pensei  que  ia  me  achar  maluco
quando eu contasse que  no  estou  mais  s  voltas  com  o  livro  dos
beija-flores e que s estou escrevendo mesmo por curtio (ainda no  d
para explicar que talvez seja por maldio,  nem  sempre    prazer,  s
vezes pode ser uma  desgraa,  no  consigo  ficar  livre...).  Mas  ela
entendeu bem, nem se espantou, disse que estava mais  preocupada  com  a
decepo que eu teria se estivesse insistindo  num  projeto  que  j  se
sabia sem futuro. Deu at uma certa fora, achou que pode ser  bom  para
mim. Nem fez perguntas demais.
        Eu estava com medo de que ela quisesse saber o que   que  estou
escrevendo.  Eu  no  queria  falar  em  Marlia.  Ia  ter  que    ficar
desconversando, disfarando com histrias dos meus avs, e coisa e  tal.
Mas Vanda foi discretssima, como  sempre.  Contentou-se  em  saber  que
estou tentando trabalhar com fico, escrever contos.
        E no fim das contas, estou at comeando a  achar  que  Marlia,
como assunto, no d mesmo mais do que um

100

conto curto, tipo evocao nostlgica de uma mulher que ficou para trs.
Um torvelinho superado. Um turbilho lquido. Um rio que passou em minha
vida, como diria o samba. E que j se perdeu no mar.
        Mas hoje  de  manh,  depois  da  carta  de  ontem  e  da  noite
mal-dormida, vendo minha filha brincar no Jardim botnico  e  deixar  na
terra molhada de  chuva  os  rastros  -  sola  de  borracha  dos  tnis,
mltiplos ziguezagues carimbados no cho, pegadas impressas em  desenhos
superpostos, trilha no barro, lama marcada, resolvi deixar um  pouco  de
lado o conto sobre Marlia e partir para outro. Tenho que  ir  fundo  em
outra coisa. Resgatar outros vestgios que  acabaram  se  enraizando  em
mim. De outra mulher que marcou minha vida, mulher da terra, que  ao  po
reverteu.
        E sento aqui agora para escrever sobre Elsa. Elsa de quem recebi
um recado inquietante h poucas semanas,  pelo  telefone  internacional,
dizendo que queria muito falar comigo mas no queria que eu ligasse para
a casa dela, preferia que eu esperasse novo chamado. E no  chamou,  no
teve tempo para a despedida, que no houve. Uma carta chegada  ontem  da
Alemanha me conta a perda e me traz  o  luto.  Um  amigo  comum  leu  no
jornal, sabia do nosso antigo caso, mandou avisar. Mas no sabe  de  que
foi, como morreu. E fico querendo, ao mesmo tempo, fazer uma homenagem a
ela e arrumar os sentimentos em relao a essa falta e a  essa  presena
na minha vida. No momento, Elsa ficou mais urgente do que Marlia.
        No foi uma convivncia to longa, nem um sentimento to  forte,
mas foi intenso e verdadeiro,  e  se  transformou  numa  bonita  amizade
intermitente. Uma pessoa

101

que me deu coisas muito positivas e s deixou lembrana boa.  Tenho  que
escrever sobre ela.
        J se passaram algumas semanas desde que eu pus este disquete no
computador e escrevi isso ai. Todo dia me sento aqui, dedilho o teclado,
assisto s linhas se formando na tela e da  a  pouco  apago  tudo,  num
movimento rpido e devorador. No consegui aproveitar uma nica frase. E
houve dias em que nem mesmo consegui formar uma frase sobre ela. Penso o
tempo todo, mas as palavras no se  arrumam,  no  acorrem  ao  chamado.
Foro um pouco, imagino que posso escrever de qualquer jeito, mesmo  que
no saia como eu quero, depois  s esperar uns dias, voltar  ao  texto,
ir substituindo, arrumando, corrigindo. Mas no  adianta.  No  consegui
ter um ponto de partida minimamente satisfatrio. Nada  que  chegue  aos
ps do que eu gostaria. E do que Elsa merecia.  Por  mais  variadas  que
tenham sido as tentativas.
        Comecei quase como uma biografia, cronologicamente,  evocando  a
infncia dela na pequena aldeia entre bosques  e  campos,  como  ela  me
contou. Lebres correndo de um lado para  o  outro  na  primavera,  entre
margaridas ou papoulas. Cervos pastando em clareiras, o lder da  manada
levantando a cabea para olhar a menina sardenta e de dentes  separados,
que passava carregando o boio de leite a caminho de  casa.  Agulhas  de
pinheiro forrando o cho onde no  crescia  mato,  debaixo  de  um  teto
escuro de rvores. As  noites  compridas  do  inverno,  a  me  contando
histrias cheias de  lembranas  dolorosas  da  guerra.  Tudo  como  ela
recordou tantas vezes, repetindo sempre, como se dependesse dela - nica
sobrevivente da famlia e em

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estranha terra tropical - manter acesa a  lamparina  votiva  dos  deuses
lares. Agora que ela se foi, achei que tinha  obrigao  de  no  deixar
essa histria se esvair. Mesmo que ela tenha contado tudo tambm a  mais
algum - ao marido que a trouxe para o Brasil, ao companheiro final  com
quem compartilhou a redescoberta do cho natal. Porm, a mim foi que ela
contou sua trajetria, como histria nica e maravilhosa, em um  cenrio
que eu no  conhecia  e  se  confundia  com  as  ilustraes  de  livros
infantis. E  eu    que  estou  virando  escritor,  mesmo  numa  cultura
marginal, mesmo numa lngua tumular - ainda que falada  por  muito  mais
gente do que a dela.
        S que no adiantou nada eu  me  sentir  imbudo  dessa  misso,
tocado por essa urgncia. No  disso que se  faz  um  texto.  A  melhor
histria no  garantia de que se v escrever direito, vou aprendendo na
sucesso de tentativas. As palavras no vieram como  eu  queria.  Ficava
uma  infncia  aucarada  e  piegas  numa    paisagem    artificial    e
estereotipada. Achei que  faltava  vivncia  minha.  Ou  imaginao  que
suprisse essa falta com intensidade. Desisti.  Abandonei  essa  linha  e
resolvi partir para outra. Limpei o que tinha escrito como eu vi uma vez
o velho Carlo fazer com a mesa de almoo num acesso de fria:  puxou  a
toalha e jogou tudo no cho, pronto! No, nada disso. O gesto do meu av
deixou vestgios, que  a  criadagem  da  fazenda  se  apressou  a  fazer
desaparecer,  limpando  o  cho  e  recolhendo  as  marcas  do  rompante
senhorial do patro.  A  minha  mudana  de  rumo  foi  diferente.  Mais
parecida a outra lembrana, a do dia em que vov Constancinha  descobriu
um erro l no comeo da suter que j estava quase  acabando  de  fazer,
pendurada nas agulhas de tric. E co-

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mo tinha que desmanchar tudo, me deixou puxar o fio.  Foi  uma  sensao
mgica, de poder destruidor: bastava eu puxar a l s um pouquinho,  sem
fazer fora e o agasalho ia sumindo,  encolhendo  rapidamente,  linha  a
linha, pra l e pra c, depressa, voando.  Em  minutos,  o  trabalho  de
meses se acabou. Por obra e graa de um leve movimento de meus dedos.  O
calor futuro deixava de existir. O tecido sumiu. Como meu texto agora no
computador, devorado de trs para adiante, carreira a carreira, ponto  a
ponto. Mas a l que ela  guardou  no  novelo  que  enrolava  ficou  toda
encaracolada, como se o material tivesse memria do  trabalho  feito.  E
agora as expresses que eu usei e desmanchei para falar de  Elsa  tambm
registraram essa marca e teimavam  em  querer  voltar.  Tive  que  lutar
contra os vcios a que elas me  atraram.  Buscar  outro  ngulo,  outro
ponto de partida, outra perspectiva para falar dela.
        Tratei de me afastar da infncia e do meio rural alemo.
        Rodei, rodei a esmo, escrevi e apaguei uma poro de bobagens  e
depois achei que podia fazer alguma coisa com as memrias de  guerra  da
famlia dela e as lembranas da adolescente urbana e  questionadora  nos
anos sessenta, seguindo o  movimento  estudantil  que  tomava  as  ruas.
Tentar captar a encruzilhada que ajudou a cristalizar Elsa do jeito  que
ela ficou, cosmopolita e rebelde, vital e  contempornea.  E,  ao  mesmo
tempo, to doce, to eternamente  menina  intemporal,  meio  brotada  da
terra como um elemento da natureza ou uma lembrana de conto de fadas.
        Peguei o livro dos Contos de Grimm  que  era  seu  tesouro  mais
antigo  e  ela  deixou  comigo,  encadernado,  em  letras  gticas  (uma
maluquice algum imprimir uma obra

104

para crianas nessa tipologia). Folheei com cuidado,  admirei  mais  uma
vez as magnficas gravuras em preto e branco que o ilustravam.  A  tive
um estalo. Era por a  que  ia  comear  o  conto!  A  histria  daquele
exemplar impresso, em minhas mos, era o prprio  smbolo  dos  caminhos
que se entrecruzavam para formar Elsa.
        Reproduzi ento no computador,  com  dilogos  e  descries,  a
histria daquele livro, dado a ela pela av materna, polonesa, que tinha
sido  trazida  pelos  alemes,  durante  a  guerra,  para  um  campo  de
internamento e, quando houve a  liberao  foi  solta  pelos  aliados  e
removida para outra aldeia. Logo nos primeiros dias, tentando sobreviver
como podia numa granja semi-abandonada, a av descobriu certa  madrugada
que havia um soldado alemo desertor, pouco  mais  que  um  adolescente,
escondido no celeiro. Faminto, olhos esbugalhados,  tremendo  de  febre,
agarrado ao que restava de uma mochila esfarrapada. Um menino assustado.
A mulher sabia que sua obrigao era entreg-lo aos aliados. E  lembrava
bem o que as tropas alems haviam  feito  com  ela,  sua  famlia,  seus
amigos, seu pas. Mas no conseguiu ver o rapaz como um inimigo,  apenas
como um jovem sofrendo.  Cuidou  dele  s  escondidas  durante  semanas,
enterrou seu uniforme, levou-lhe um cobertor, roupas civis, dividiu  com
ele os parcos vveres. No deixou nem que os outros  moradores  da  casa
desconfiassem. E na hora de ir embora, o rapaz abriu a mochila, tirou um
volume l de dentro, enrolado num pano velho,  e  deu  a  ela,  sem  uma
palavra. Era aquele exemplar do livro Contos de Grimm, de  que  o  jovem
soldado no se sepatara durante toda a guerra. E  que  Elsa  recebeu  de
herana, trouxe para o Brasil, e acabou me dando de presente.

105

        Bela histria. Mas no consegui com ela fazer um  conto,  narrar
direito, com a economia necessria, a secura e a atmosfera que o assunto
exigia. Ainda tentei acopl-la a outras lembranas. Mas desisti. No fui
capaz de juntar os diversos episdios. Como, por exemplo, o caso da  tia
polonesa que fugiu a p com o marido e a filha  pequena,  se  arrastando
dias seguidos pelos campos. No alto de uma montanha, o  marido  teve  um
enfarte e morreu. Ela e  a  filha  cavaram  uma  cova  com  as  mos,  o
enterraram e seguiram em frente. A menina hoje  uma  grande  empresria
nos Estados Unidos, Elsa e ela se correspondiam.
        Havia outras histrias, muitas, to fortes. Lembro bem de muitas
delas, que me chegavam invariavelmente  de  madrugada,  entre  copos  de
vinho branco, pela voz grave de Elsa, to presente em  minha  lembrana.
Mas no consigo reproduzir a fora desses relatos,  sua  estupidez,  sua
falta de sentido, seu impacto seco. E fico achando que no me cabe fazer
isso, no so recordaes minhas, no  so  do  meu  passado,  de  minha
famlia,  de  meu  pas.  Fica  muito  difcil  recri-las,  ainda  mais
encaminhando a narrativa para conduzir  uma  moa  s  manifestaes  de
protesto de 68 pelas ruas de uma cidade  germnica.  Resolvo  pensar  em
outra coisa, esquecer esse projeto.
        A me lembro de Elsa, de novo, veemente, dizendo que  chegou  ao
Brasil com Peter logo depois da anistia e no podia  entender  como  ns
aceitvamos esse caminho de tentar aplacar o passado pelo  esquecimento.
Ficava to inflamada que parecia que aquilo era com ela, histria de sua
vida ameaada pela amnsia coletiva. A  descoberta  de  que  a  ditadura
brasileira  tivera  seus  pores  sangrentos  a  deixara    inteiramente
transtornada. Mas como 

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que ela no tinha tomado conhecimento disso na Europa? por que se  falou
tanto no Chile, nos desaparecidos da Argentina e do Uruguai e no  houve
nenhum movimento amplo de solidariedade com os que sofreram  no  Brasil?
Lembro que tivemos essa discusso numa roda  ampla,  no  dia  em  que  a
conheci, entre vrias pessoas, na praia. E que eu argumentei que  talvez
fosse uma questo de proporo, de nmero de mortos  e  torturados,  que
provavelmente foram menos aqui do que em outros pases.
        Ela estava sentada numa cadeirinha baixa, com os  dedos  da  mo
direita enfiados na areia. Agarrou um punhado, jogou longe, se levantou,
plantou com firmeza os ps no cho, fuzilou-me com  os  olhos  azuis  e,
antes de se afastar em direo ao  mar,  explodiu  sua  revolta  de  uma
maneira que nunca esqueci:
        - ... pode ser mesmo s uma questo de nmeros. Mas eu gostaria
de saber: a partir de quantos baldes de sangue humano  que a indignao
internacional toma Conta da mdia? Ou melhor, antes disso: a  partir  de
quantos barris de sangue  que o doce corao brasileiro  se  toca  e  o
eterno sorriso de vocs se apaga?
        Acho que foi naquele momento que  percebi,  pela  primeira  vez,
como aquela alemzinha bonita era capaz de ir to fundo  nas  coisas.  E
comecei a me apaixonar por ela.
        Mas no consigo  botar  nada  disso  em  palavras.  Fao  outras
tentativas. Talvez a mais  bem-sucedida  -  mas,  mesmo  assim  trada  e
abandonada - tenha sido a de evocar a jovem adulta transplantada para  a
terra do sol. Provavelmente porque essa era a experincia  mais  prxima
na vivncia dela quando a conheci.

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        Escrevi ento sobre esse momento. Comecei com Elsa estudando  em
Heidelberg,  Elsa  caminhando  pelas  ruas  que  desembocavam  na  praa
principal, Elsa tomando caf com torta junto a  uma  janela  de  cortina
rendada por onde se avistavam as torres do castelo. Uma moa de  cabelos
longos, sardas no rosto e malares salientes sob os culos,  dividindo  o
espao da mesa entre xcaras, pratos, livros de Matemtica e Filosofia.
        Acompanhei seus passos, toda agasalhada, atravessando  a  ponte,
subindo por uma trilha do outro lado do rio e se sentando la no alto  do
morro para contemplar a cidade, e pensar nas decises a tomar.  Terminar
o doutorado, mesmo sabendo que matemtica pura  era  uma  especializao
difcil. Casar com Peter. Mudar de cidade com ele.
        Alinhavei  frases  e  mais  frases  com  a  vibrante  empolgao
intelectual que ela sentia na compreenso da beleza lgica da Matemtica
e na certeza da harmonia confivel do rigor,  vizinha  da  poesia,  como
pouca gente consegue ver. E acrescentei pargrafos contando os sonhos de
desenvolvimento futuro que vinham embutidos em  seu  projeto  pessoal  -
mais estudo, trabalho num instituto cientfico, o  silncio  eterno  dos
infinitos espaos numricos se abrindo diante dela.  As  mais  distantes
abstraes que o esprito humano fosse  capaz  de  desejar  medir.  E  o
cansao que  isso  dava,  a  sensao  de  pequenez  e  incapacidade,  a
conscincia dos limites  diante  da  prpria  certeza  do  ilimitado,  a
angstia da impotncia. Com indizvel carinho, flagrei uma tarde em  que
ela vislumbrou um cartaz anunciando uma oficina de fim de semana com uma
atividade que no podia ser mais opoSta a tudo o que fazia: um ateli de
cermica para princi-

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piantes. Peter estava viajando, ela estava exausta, a  cabea  estalando
de abstraes. Seguiu um impulso que nunca conseguiu explicar e  se  deu
um tempo, um descanso de sbado e domingo. Vestiu uma roupa velha, ps a
mo na massa. Nunca mais tirou.
        Essa foi a parte que eu consegui escrever melhor. Elsa  moldando
as peas, girando o torno, misturando pigmentos, vigiando o forno.  Elsa
exigente, desenhando, rabiscando, quebrando peas defeituosas, comeando
tudo de novo. Elsa dando vida ao barro. Como tantas vezes eu a vi.
        Isso eu consegui descrever  bem,  e  em  detalhes,  evocando  as
formas em que a argila se arredondava, recriando as mudanas de tons dos
pigmentos nas queimas sucessivas, celebrando uma nova criao  do  mundo
pelas mos de uma mulher que ao mesmo tempo  se  criava,  artista  a  se
moldar diariamente pelo prprio trabalho. Minhas palavras at que  foram
capazes de captar, de certa forma, o processo externo dessa feitura. Mas
no consegui marcar como isso se passou dentro dela, como  amadureceu  a
deciso de mudar radicalmente o rumo de  sua  vida,  se  foi  sbito  ou
elaborado o  processo  que  transformou  a  matemtica  num  hobby  para
espairecer as idias  e  descansar  a  cabea  e  fez  da  cermica  uma
atividade vital sem a qual  Elsa  no  conseguia  mais  ser  ela  mesma.
Impossvel transmitir com palavras como essa trajetria do abstrato para
concreto forjou uma nova pessoa. Algum que passou a trabalhar descala,
de cabelos curtos, e um dia descobriu que no precisava mais de culos.
        Tentar passar isso a um hipottico leitor foi muito  frustrante.
Acabei tambm abandonando esse novo cap-

109

tulo. Ainda mais porque  ele  era  necessariamente  misturado  a  outros
elementos onde eu no me sentia to  vontade. A proposta de um trabalho
no Brasil para Peter e, junto, a interrupo da  carreira  acadmica.  O
choque da chegada, misturando deslumbramento e estranheza num  constante
sentimento de inadequao, marginalidade e desconhecimento dos  cdigos.
As experincias ps-hippies pelos  litorais  e  outras  sensuais  curvas
brasileiras. A profunda dor de se ver de repente humilhada e  abandonada
em terra  estranha,  trocada  por  peles  mais  morenas  e  ritmos  mais
sincopados.
        Difcil falar em tudo isso sem cair no pitoresco, na  celebrao
mitificada  das  delcias  tropicais,  nos  contrastes   bvios    entre
racionalismo e intuio, ordem e baguna, mtodo e improviso.
        Risquei da minha lista mais esse enfoque.
        No meio de todo esse processo, sonhei com Elsa uma noite.
        De manh, sentei diante do teclado e registrei a  lembrana  que
me ficava, tnue e fugitiva. Arquivei o sonho  na  memria  da  mquina,
agora  s puxar. Mas no sei o que ter a ver com a histria  dela  que
eu poderia contar. Em todo caso, l vai.

        Caminho no meio da neblina, mas  uma neblina seca,  e  de  dia,
com calor e sol. No, no  nvoa,  poeira. Partculas  mnimas  de  p
danando  minha frente, atmosfera espessa.  Quero  gua,  banho,  tenho
sede, tudo junto. Mas no posso me atrasar, devo estar muito longe, numa
terra rachada e sem chuva, e no  l que tenho um encontro com Marlia.
Penso nela, quase vejo seus cabelos mo-

110

lhados, o corpo luzidio, seios pequenos e empinados, ombros largos acima
do mai de nadadora.  Para  chegar  a  ela  teria  que  passar  por  uma
cachoeira, mas tem tanta poeira em todo canto, de repente noto que estou
debaixo de uma ducha de lama, espessa, cada vez mais  grossa.  Calco  os
ps no barro, caio, tento me segurar, minhas mos afundam na  argila,  
gostoso, vou dando forma a alguma coisa macia, boa de pegar, tem curvas,
 morna, se mexe sinuosa, viva,  uma  mulher.  Mas  no    Marlia,  
outra. Elsa surge de meus gestos e  de carne e osso, limpa e perfumada.
Joga a cabea para trs  como  se  fosse  dar  uma  gargalhada,  mas  s
entreabre a boca, em silncio e me encara bem de perto, olhos nos olhos.
Ento fala, com sua  voz  grave  e  quente,  um  pouco  rascante,  vinho
encorpado. Diz: "Eles  no  entenderam  direito.  No  foi  trauma.  Foi
tumor." Tambm no entendo. Mas antes de pedir explicaes, acordo.

        A est. Mas acho que no vai ter utilidade nenhuma. No   nada
inventado, nada prprio de um personagem fictcio,  vagamente  inspirado
em Elsa. Pelo contrrio.  de verdade, real, sonho meu mesmo,  com  ela,
mensagem do inconsciente de Carlos Augusto Bittencourt da Cunha para ele
prprio, assunto para contar para analista ou para ficar  pensando.  No
tem nada a ver com minhas tentativas literrias. S botei no Mac  porque
acordei de madrugada e vim  escrever,  tinha  medo  de  esquecer,  achei
melhor guardar logo. E fico de vez em quando relendo,  tentando  lembrar
mais, s para ver se me ajuda a ir para a frente com  esta  porra  dessa
histria que eu inventei de contar e empacou dessa maneira.

111

        Mas no adianta pedir cola ao sonho. Pode ser at que ele  saiba
tudo, mas  como aqueles caras bem cu-de-ferro que tinha no colgio, uns
egostas, no ajudavam nada. O sonho est assim. No serviu  para  porra
nenhuma. Pelo menos, por enquanto. Nem ele, nem a carta.
        Ah, porque tem tambm a carta. Meu ltimo contato com  Elsa,  j
h alguns anos. J li e reli, talvez saia alguma coisa por a,  mas  no
sei como. De qualquer jeito, talvez valha a pena copiar tambm  aqui  no
computador. Uma carta antiga, que me impressionou de novo agora, como na
primeira vez em que a li, em 86.
        E que talvez s mesmo  agora  adquira  seu  sentido  pleno.  Que
entendo, intuo. Mas no consigo transformar  em  nada  literrio  quando
tento botar no papel e reescrever de outro modo. Vou  acabar  desistindo
desse assunto tambm, mas sinto que tenho de escrever sobre Elsa.  como
se ela obstrusse o caminho todo, entupisse a circulao.
        Enquanto eu no puser pra fora, no me  livrar  disso,  no  vou
conseguir criar nada que valha a pena. E  um  cogulo,  que  tapa  tudo,
bloqueia, impede o fluxo.
        Talvez copiar a carta me ajude.
        De qualquer modo, pelo menos, a  deixo  guardada  a  tambm  na
memria  desse  Mac,  que  na  minha  nem  precisa,  sei  de  cor  quase
literalmente. Quem sabe, um dia, ela fica sendo um ponto de partida para
alguma coisa...

        Guto, meu amigo querido,
        Seu carto foi uma surpresa boa e  que  me  comoveu  muito,  num
momento difcil. Muito obrigada.
        Fiquei pensando: quanta gente eu conheci na minha vida,  quantos
amigos... Nenhum percebeu o que voc viu

112

e lhe fez me escrever, mesmo de longe e h tanto tempo sen me falar. Nem
mesmo Helmut, em tudo um companheiro to perfeito. Eu estava me  dizendo
que ele no notara o que se passou dentro de mim porque estava viajando,
tinha ido fazer um trabalho em Colnia quando a tragdia  aconteceu,  s
nos falvamos por telefone. Mas, teu carto mostrou que a distncia  no
impede a compreenso. No  uma questo de se ter dados  concretos  para
analisar.
        Recebi seu carto hoje cedo e, logo  que  li,  tive  vontade  de
gritar to alto que  o  grito  passasse  por  cima  destas  Montanhas  e
florestas, do oceano que nos separa e chegasse a ainda bem forte no seu
ouvido. Um grito de SIM!
        Quero socorro,  sim.    verdade,  estou  precisando  de  ajuda.
Estamos todos. E  eu  estava  me  sentindo  muito  sozinha,  porque  no
conseguia dizer a ningum como esse desastre me afetou  de  maneira  to
profunda. Porque ningum ia entender.
        J me acham meio maluca aqui nesta cidadezinha (ou aldeia? nunca
sei como  que vocs chamariam em portugus um lugar to pequenino  como
este, com to poucos habitantes, to rural, mas to cheio de recursos da
civilizao). Imagine se soubessem o que eu fiz. Mas para voc eu conto,
estou precisando muito desabafar com alguma pessoa. E agora sei que essa
pessoa  voc. Eu estava trabalhando  no  ateli  com  o  rdio  ligado,
ouvindo msica enquanto moldava uma pea. De repente, veio uma voz com a
notcia de que tinha acontecido um Vazamento numa usina nuclear na Unio
Sovitica. Primeiro, era um  noticirio  comum,  uma  notcia  entre  as
outras,no sei por que, na mesma hora eu soube que

113

era terrvel. E logo depois, o rdio comeou a dar mais  detalhes,  mais
notcias, ia tudo ficando cada vez mais assustador. Mas, sabe? Era  como
se no fosse mais novidade para mim. Desde o primeiro momento  eu  sabia
que ia ser a Morte. Uma certeza matemtica. Como vocs  dizem  a:  como
dois e dois so quatro. O Homem tinha  conseguido  soltar  a  Destruio
sobre a Terra, por tanto Pensar que era poderoso, mas sendo s ignorante
e irresponsvel.
        No consegui fazer mais  nada.  Desliguei  o  forno,  perdi  uma
vasilha, nada mais tem importncia quando  a  Morte  vem  em  partculas
invisveis trazidas pelo ar e se espalha  por  toda  parte.  Aos  quatro
ventos. Os noticirios passaram  a  acompanhar  a  viagem  dessa  poeira
radioativa, especulando sobre seus efeitos, entrevistando especialistas,
fazendo recomendaes. Helmut telefonou, uma amiga ligou de  Munique,  a
vizinha me chamou aflita, por cima da cerca e me convidou para tomar  um
caf com ela e conversar na cozinha.
        Depois  todo  mundo  se  trancou,  todos  presos  s  vozes  dos
locutores que davam conselhos. Ningum sabia bem  o  que  fazer.  Mas  o
rdio e a televiso foram explicando. Horas e dias seguidos. E ns amos
obedecendo. No sair de casa. Fechar as janelas. Evitar  comer  verduras
da horta e frutas do pomar. Ter cuidado com a gua.  Com  o  ar.  Com  a
terra. Ateno para no tomar leite nem derivados de  produo  recente,
no podia nada fresco. O leite estava
                contaminado,  os  ovos,  a  carne,  os  animais   todos,
respirando o Mal, bebendo a Destruio, se  alimentando  da  Morte.  Nas
folhas, nas pedras, nos caminhos de terra, dormia o  apocalipse.  E  uma
noite, trancada em casa, com jornais abertos para cobrir as persianas  e
fita adesiva tapando as

114

frestas ouvi pela ensima  vez  esses  conselhos  todos,  enquanto  pela
vidraa da cozinha podia ver o luar na horta. No aguentei mais  e  sa,
fui l fora, chorando, me joguei de cara no cho, entre dois  canteiros,
rolei e me esfreguei na terra, fiz  amor  com  ela,  me  entreguei  para
morrer com ela, no quis  sobreviver  a  ela,  ser  poupada  para  ficar
respirando apagada numa  terra  morta,  habitando  a  lembrana.  Depois
solucei at dormir ao ar livre.
        Bem cedinho, acordei, vim  para  casa,  abri  tudo,  peguei  uma
cesta, uma vasilha e voltei para o quintal. Colhi flores para as jarras,
ordenhei a vaca para o caf da manh, recolhi os ovos  que  as  galinhas
vinham pondo. Lavei roupa, pus para secar ao  vento  radioativo,  peguei
terra no cho e misturei com a minha  argila  de  trabalho,  moldando  a
caneca grosseira onde passo a beber meu  caf  de  todo  dia  com  leite
cancergeno.
        Atrelei meu destino ao da terra.
        Mas s voc sabe disso, agora, com este desabafo e este  segredo
que  como se fosse um testamento. Porque s voc, acima  da  distncia,
entendeu que Chernobyl no foi uma coisa l longe na terra  dos  outros.
S voc sabe, meu amigo, que no existe terra dos outros.
        Um abrao, Elsa





115



CAPTULO VIII



- Claro! S pode ser isso! - exclamou Vanda.
        Ao mesmo tempo, levantou os olhos da leitura e cobriu a boca com
a mao esquerda num impulso sbito, como  quem  quer  se  auto-silenciar.
Gesto revelador, de quem se  surpreendeu  e  se  envergonhou  por  estar
falando sozinha.
        Mas a descoberta lhe dava mesmo vontade  de  sair  gritando  aos
quatro ventos. O final de um desafio de dez anos, que a fizera quebrar a
cabea em pesquisas e especulaes totalmente infrutferas. A decifrao
do mistrio. O fim do problema. Tinha mais  que  sair  gritando  mesmo.
Sem  se  envergonhar  disso.  Lembrou  antecedentes  famosos    que    a
desculpavam. Arquimedes saindo nu da banheira  a  gritar  eureka!  Podia
falar sozinha, se quisesse. Estava em boa companhia, mesmo  considerando
que o sbio grego chegara a suas concluses por conta prpria,  pensando
e observando, e ela apenas se valera  de  uma  leitura  das  pginas  de
divulgao cientfica na imprensa. coincidncia  que  respondia  a  suas
perguntas. Mas levara uma dcada para se manifestar.
        Tornou a falar em voz alta,  desta  vez  em  tom  mais  baixo  e
sacudindo a cabea, com ar incrdulo:
        - Ento era isso... S pode ser... Mas quem podia imaginar?

117

        Conformou-se  com  sua  ignorncia  at  o  momento.  O   jornal
anunciava como uma nova descoberta tecnolgica.  Por  mais  que  tivesse
tentado, no dava mesmo para ela ter deduzido por  si  prpria,  sem  os
recursos tcnicos e o conhecimento de equipes  que  se  especializam  no
ramo e dispem de sofisticados  laboratrios.  Mas  a  sensao  de  ter
matado a charada a  deixava  em  estado  de  exaltao.  No  dava  para
continuar falando sozinha. Tinha que dividir com algum.
        Ia ser timo contar a Guto quando ele chegasse do trabalho,  da
a algumas horas. Ningum como ele ia avaliar a alegria  que  ela  estava
sentindo, compartilhar da novidade com a mesma satisfao. Mas isso  no
chegava a justificar que ela o interrompesse no trabalho s para contar.
Ele j andava to dispersivo nas coisas da empresa, era melhor  no  dar
pretexto para novas escapadas.
        Resolveu ligar para a irm.
        Llia no estava. Quem atendeu foi  Alexandre  que,  depois  das
informaes iniciais, se desculpou:
        - Olha, tia, se o que voc est querendo com minha me   cobrar
os livros, a culpa  minha...
        - Livros? Que livros?
        - Ela deixou um pacote de livros separados aqui em casa, desde a
semana passada, para eu levar a. E eu esqueci...
        - No, Alex, no  nada disso. Eu queria era falar com ela, voc
d o recado...
        - Mas eu vou a levar os livros. No levei  antes  porque  tinha
esquecido completamente.
        - Eu tambm devo ter esquecido. Nem sei do que se trata, no tem
pressa.

118

        - Tudo bem. Mas daqui a pouco vou sair de moto e passo a, deixo
com o porteiro.  meu caminho, mesmo. E desculpe o furo...
        - Est certo. Um beijo. Tchau.
        Que livros seriam? Vanda no conseguia lembrar. De vez em quando
Llia trazia da livraria alguma novidade que sabia que ela ia  apreciar.
Ou alguma encomenda pedida h muito tempo, um livro  fora  do  catlogo,
difcil de achar. Mas, em geral, telefonava e avisava. Podia  ser  isso.
Ou ento era para o Guto. Devia ser.  Nos  ltimos  tempos,  ele  estava
devorando mais livros do que ela. E  Llia  ficava  na  maior  animao,
emprestando novos volumes, indicando leituras  escolhidas.  Ainda  outro
dia, comentara:
        - Puxa, Guto, voc continua me surpreendendo. A gente convive h
tanto tempo e eu no sabia que voc era um leitor to entusiasmado. Quer
dizer, eu sabia que voc j leu um bocado, gosta de ler,  essas  coisas.
Mas no tinha reparado que era tanto...
        Ele se explicou:
        - Fui um menino meio sozinho, filho nico, rfo  de  me  desde
muito pequeno, meu pai tinha uma biblioteca enorme...
        Llia riu:
        - No precisa pedir desculpas. Ler no  vergonha nenhuma
        - No estou me desculpando. Mas, s vezes, hoje em dia  a  gente
bem que tem vontade. Pelo menos, eu em geral tenho o cuidado  de  evitar
ficar falando em livro,  citar  autor,  essas  coisas.  Parece  papo  de
intelectual, como se a gente quisesse ser melhor que os outros,  mostrar
que sabe

119

das coisas. Arrotar sabedoria, como dizia minha av. Deus me livre!
        - Essa no, Guto - discordou Llia.  -  Isso  depende  muito  do
crculo onde voc anda. Voc me desculpe, mas se seus amigos discriminam
livro, a vergonha  para eles.  Ter  vergonha  de  ler    s  sinal  de
ignorncia.
        Guto se inflamou e respondeu com veemncia. Quase agressivo:
        - Eu  que peo desculpas, Llia, mas vou dizer o que sinto  que
 verdade. Essa sua opinio  que  sinal de ignorncia sobre o pas  em
que voc vive. Pensa que todo  mundo    freqentador  de  livraria,  ?
Leitor atento, fregus de biblioteca, essas  coisas?  Onde    que  voc
pensa que est? Na Escandinvia? Por onde eu ando (e  predominantemente
no meio de gente que foi a bons colgios e  estudou),  ouo  as  pessoas
comentando o que  anda  pelos  jornais  e  noticirios,  o  futebol,  as
fofocas, a novela, os artistas da tev,  os  filmes  mais  recentes,  os
discos e cantores da  moda,  a  economia,  a  poltica,  a  carestia,  a
violncia, os escndalos, enfim, os assuntos mais  variados.  Mas  estou
aqui fazendo o maior esforo de memria e  no  consigo  me  lembrar  da
ltima vez em que ouvi  uma  roda  de  amigos  discutindo  um  livro  ou
trocando indicao de leitura.
        Fez uma pausa e acrescentou, j em outro tom de voz:
        -  at uma coisa em que  tenho  pensado  bastante  ultimamente.
Escritor deve ser um sujeito muito solitrio. Se vira pelo  avesso  para
escrever e ningum toma conhecimento. Puxa  uma  dor  l  do  fundo  das
entranhas, se expe, berra aos quatro cantos do mundo, e  ningum  ouve.
Gente como voc ou Vanda  exceo absoluta.

120

        - Mas voc anda lendo mais ultimamente... Ou    engano  meu?  -
voltou  carga.
        Vanda confirmou:
        - Anda mesmo. Desde que comeou a se  interessar  por  escrever,
aumentou as leituras...
        - ... pode ser - concordou Guto. - Ou, pelo menos, mudei o tipo
delas. Ando mais ligado em fico, ensaios de bom nvel,  essas  coisas.
Fico querendo ver como e que os outros escrevem, reparando em  qualidade
literria. No sei se ando lendo mais, eu sempre  li  muito,  mas  tinha
cado um pouco nos best-sellers, grandes reportagens do momento,  livros
sobre administrao e negcios, quer dizer, umas leituras s  imediatas,
descartveis. Ou utilitrias, ou assim  feito  chicletes,  que  a  gente
mastiga um tempo e depois no fica nada para alimentar.
        - E ainda por cima, com  risco  de  crie  mental...  -  brincou
Llia.
        Todos riram. Ela continuou:
        - Mas j que voc est nessa,  bom aproveitar. Andam publicando
umas coisas interessantes nessa area...
        - Eu sei. Entrevistas de escritores, estudos crticos,  ensaios,
tenho visto...
        Os dois ficaram  conversando  e  trocando  idias  sobre  alguns
livros, mencionando ttulos que Vanda conhecia e  lera,  outros  de  que
ainda no ouvira falar. Ela se espantou com  a  atualizao  do  marido.
Descobriu que ele no andava apenas manaco por escrever, estava  tambm
ligadssimo na escrita dos outros. E pensando sobre o assunto, cheio  de
idias sobre o mercado de livros, como expunha:
        - Tem tanta coisa boa sendo publicada  no  Brasil  atualmente...
No sei se sou eu que estou mais atento,

121

mas tenho a impresso de que, em toda a minha  vida,  nunca  tivemos  um
momento de tantos ttulos to bons e to variados.
        - Tambm acho - concordou Llia.  -  No    s  impresso  sua.
Talvez s l pelos hericos anos 30  ou  40,  no  tempo  do  Lobato,  do
Marcondes, do Martins, do velho  Jos  Olympio,  da  Globo  gacha,  dos
editores pioneiros, atentos aos novos e s tradues.
        - Mas  difcil acompanhar - comentou Vanda. - Sai  muito  pouco
nos jornais.
        - ... o espao que a imprensa reserva para livros nunca foi to
 reduzido - disse Llia. - Os suplementos literrios esto acabando,  as
colunas sobre livros vo diminuindo, as universidades incentivam mais as
apostilas e cpias de captulo do  que  a  formao  de  uma  biblioteca
pessoal... Enfim, so muitos fatores em jogo.
        - E mesmo nas livrarias    difcil  -  continuou  Vanda.  -  Na
maioria delas a gente s encontra os best-sellers, livros esotricos  ou
lanamentos muito recentes. Livraria como a sua, com  acervo  variado  e
atual,  muito rara. Pode ser que eu me engane, sou leiga, mas  tenho  a
impresso de que o pessoal do ramo anda muito incompetente.
        A livreira explicou:
        - Pode ser, mas no mais do que em outras reas. Incompetncia 
uma doena geral, que se alastrou por toda parte, de braos dados com  a
mediocridade que campeia e ocupa os postos de comando nos mais  variados
setores. Mas no caso dos livros, isso acontece, tambm, em grande parte,
por causa da situao econmica. A barra  est  muito  pesada.    muito
arriscado ficar com o estoque  errado.  E  o  comprador  est  retrado.
Compra-se pouco, as tiragens

122

diminuem com medo do encalhe, os preos sobem porque  preciso pagar  os
custos com menos vendas, a fica ainda mais difcil comprar... Enfim, um
crculo vicioso.
        Guto  disse  ento  uma  coisa  que  Vanda   achou    totalmente
inesperada. Pensou at que ele estivesse brincando e no entendeu o  tom
srio com que o marido suspirou e deixou escapar:
        - s vezes fico achando que o Brasil  tem  mais  escritores  que
leitores.
        Ainda mais surpreendida, ouviu a irm concordar:
        -  bem possvel, de certo  modo.  Num  pas  com  mais  de  150
milhes de habitantes e tiragens mdias  de  trs  mil  exemplares  (que
levam mais de um ano para esgotar), tudo  possvel. Ningum l,  mesmo.
Mas a gente j devia estar no Livro Guiness com outro recorde  maluco  -
temos um nmero de editoras muito maior do que o de livrarias.  E  quase
no temos bibliotecas. D para entender?
        E quando parecia que a pausa que se seguiu seria  a  confirmao
do desnimo derrotista, Llia deu  uma  arrancada  e  mudou  o  rumo  da
conversa:
        - Mas em compensao, que gente maravilhosa so esses  leitores!
Adoro ser livreira por causa disso. Duvido que qualquer  outro  trabalho
me  desse  tanta  alegria,  me  deixasse  em  contato  com  tanta  gente
interessante. Pessoas que esto sempre  dispostas  a  comentar  a  vida,
trocar opinies, discutir o pas e o mundo, dar indicaes generosas  de
outras leituras... Gente  que  sai  da  mesmice,  que  pensa  por  conta
prpria, no fica s repetindo a ltima entrevista de algum ou o artigo
do jornal do dia. Gente capaz de achar graa em aspectos da realidade em
que ningum reparou antes, com um senso de humor apurado, mais

123

irnico do que o escracho geral do humorismo da tev.  essa  gente  que
me interessa.
        - Quer dizer que  fora  dos  intelectuais  no  h  salvao?  -
provocou Guto.
        - No  nada disso, voc sabe  to  bem  quanto  eu.  Afinal  de
contas, me conhece h muito tempo, sabe que no sou de ficar mitificando
intelectual. Conhece o Moacir. Sabe que ele  uma pessoa que  tem  muito
pouco estudo e eu gosto tanto dele, e respeito tanto que at  casei  com
ele... - Mas ele  um sujeito que l bastante...
        Ela continuou:
        - E... L muito e est  sempre  trazendo  um  enriquecimento  ao
esprito da  gente.    isso  a.  Estou  falando  de  leitura,  no  de
intelectualidade, e l  vem  voc  de  novo  com  esse  seu  preconceito
introjetado. Me refiro a pessoas reais. O adolescente que de repente sai
descobrindo Dostoivski, Fernando Pessoa e Camus. A senhora de idade que
finalmente tem tempo para explorar Balzac e no pra de reler A  comdia
humana, mesmo precisando de lentes. O cara  que  por  acaso  folheia  um
Machado de Assis e saca uma profundidade que ele nunca desconfiou l  no
tempo da escola, quando fez uma leitura obrigatria. A se apaixona, vai
fundo, mergulha em outras leituras afins, sai devorando Fielding, Sterne
ou Ea de Queirs. A dona-de-casa que  dispensa  a  novela  porque  est
empolgada com a leitura de Garca Mrquez, Jorge Amado ou talo Calvino,
muito mais emocionantes. Essa gente. Pessoas reais, que  eu  conheo,  e
que so o maior barato. No por causa de alguma  coisa  intelectual  que
sejam capazes de expressar no jargo acadmico ou nos chaves da

124

moda. Mas porque so empolgadas pelo  que  gostam  de  ler,  passionais,
apaixonadas. Pessoas  que  descobriram  um  grande  prazer,  individual,
solitrio, acima das massificaes. A paixo  pela  leitura.  Sabem  que
merecem coisa melhor do que aquilo com que a maioria se contenta. E  vo
atrs. Essas pessoas so fundamentais.
        - Mas so uma minoria, Llia - aparteou Vanda. - E  uma  minoria
em extino...
        - Uma minoria essencial, eu  diria.  Mas  no  acho  que  v  se
extinguir.  muito teimosa.
        - Entendo o que voc est dizendo - concordou  Guto.  -  E  como
naquele filme do Truffaut, como  mesmo?, Fahrenheit  451?,  no  lembro
bem o nmero, cada pessoa decora um livro  medida que  eles  vo  sendo
queimados pela ditadura... Para que os livros sobrevivam...
        - Baseado num conto do Bradbury, alis - lembrou Vanda.
        - Isso mesmo - prosseguiu ele. - Mas tinha esse negcio  de  no
deixar  uma  conquista  humana  se  extinguir,  os  indivduos  vo   se
transformando em seres- livros...
        - Exatamente. E no tem nada  a  ver  com  intelectualidade  nem
elite  social.  Embora,    bvio,  no  Brasil,   tenha    que    passar
necessariamente por alfabetizao e acesso ao livro.
        Guto sorriu e recordou:
        - Em termos. Estou lembrando da minha av  Constncia.  Ela  mal
era alfabetizada, mas sabia uma poro de histrias, era uma  verdadeira
biblioteca ambulante. E sabia muitas  delas  de  cor,  sempre  da  mesma
maneira. Por exemplo, a de Carlos Magno e os Doze Pares de  Frana.  Ela
repetia com rima e mtrica, estribilho e tudo. Do jeito

125

que aprendeu. No sei se com os pais ou avs, ou com algum  cantador  de
feira...
        Fez uma pausa e prosseguiu:
        - A gente adorava ouvir. Eu acho que  ela  era  meio  apaixonada
pela figura de Carlos Magno. "O Imperador da Barba  Florida",  como  ela
dizia. Sabia tudo. A lenda da  me  dele,  Berta  dos  ps  grandes.  As
histrias  de  batalhas  e  cercos,  cavaleiros  e  gigantes,  justas  e
torneios. A descrio do palcio dele e do trono brilhante, todo de ouro
e marfim, onde os reis da cristandade vinham se ajoelhar a seus  ps.  A
fonte de gua morna que Deus lhe deu  de  presente  e  onde  ele  tomava
banho. E, principalmente, a fora descomunal  e  a  "estatura  colossal"
dele, como ela dizia. Literalmente. E o poder dos acessos de  raiva  que
ele tinha. Uma vez fulminou um arcebispo  com  um  olhar,  o  cara  caiu
morto, imaginem...  Era  capaz  de  levantar  do  cho  um  cavalo,  com
cavaleiro, armadura e tudo. No muque! E conseguia amassar entre as  mos
as quatro ferraduras de um cavalo ao mesmo tempo. Minha av  garantia...
Tambm, convivendo com o velho Carlo e os prodgios  quotidianos  dele,
garanto que ela no achava nada demais nessas proezas... - E  exatamente
isso o que estou dizendo, agora voc entendeu. Para  esses  leitores  de
verdade (nem que sejam "leitores" de uma narrativa oral), a leitura  faz
parte da vida, no  uma  coisa  separada,  intelectual.    um  aspecto
concreto da realidade, como qualquer outro. Por exemplo,  o  boy  l  da
livraria adora ler, vive aproveitando os momentos de  folga  para  tirar
casquinha dos livros, leva livro emprestado para ler em  casa.  No  tem
nada de intelectual mas  uma pessoa ligada em tudo, super-interes-

126

sante, aberto s idias dos outros e convicto de sua prpria opinio. Ou
a minha faxineira, por exemplo, que adora romance. Qualquer um. Saiu  da
Agatha Christie direto para Thomas Hardy, devora  Joo  Ubaldo  e  Rubem
Fonseca. Se voc conversar cinco minutos com ela sobre os escndalos  de
corrupo que pipocam todo dia na televisO, vai descobrir que  ela  no
sabe de  que  partido  as  pessoas  so  nem  como  funciona  a  mquina
administrativa, mas tem idias muito claras sobre a ao  do  sistema  e
uma noo muito precisa da psicologia que est por trs do comportamento
dos envolvidos. No se deixa enganar. Num certo sentido,  menos ingnua
do que muitos parlamentares e jornalistas. Mas aposto que  j  leu  mais
romances do que a maioria deles.
        - E o que  que ler romances tem a ver com isso?  -  quis  saber
Vanda.
        -  que a fico (principalmente quando   boa)  d  s  pessoas
essa oportunidade nica que  a de viver outras vidas - respondeu Llia.
- Estar em outras situaes, outros  ambientes,  enfrentar  dilemas  que
jamais se apresentariam iguais na prpria vida do leitor, tomar decises
ticas cruciais, julgar os diversos lados de uma questo. E em  segredo,
sem testemunhas, com toda a liberdade para imaginar  como  quiser.  Tudo
isso, atravs de um mtodo fascinante. Ou seja, entrando na cabea de um
personagem ou tendo que decifrar, a partir de um comportamento coerente,
como  essa cabea por dentro. Quem  se  acostuma  com  isso  aprende  a
desvendar o outro e no se deixa enganar com facilidade.  No  vai  sair
votando a esmo em algum que est  comprando  votos.  Num  pas  como  o
nosso, ler fico  um ato poltico.

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        Vanda sorria agora, lembrando  do  entusiasmo  da  irm  com  os
leitores. Para Llia, tudo tinha um sentido poltico. At suas aulas  de
cincias na escola, aquela enorme pilha de provas  que  ela  acabara  de
corrigir, to tarde, na vspera. E falava com tanta convico que  Vanda
acabava acreditando.
        Convico...
        Engraado lhe ocorrer isso  nesse  momento.  Ainda  recentemente
tinha pensado nessa palavra. A  partir  de  uma  observao  do  marido,
dizendo que tinha convico de querer escrever, to  surpreendente.  Que
seria exatamente convico? Estar convencido de alguma coisa?  Acreditar
tanto, que at poderia convencer os  outros?  Estar  certo  da  vitria?
Convicto, invicto... Existiria alguma relao? Ia perguntar a Guto.  Ele
 que gostava de explorar palavras em  dicionrio,  ela  tinha  a  maior
preguia.  Suas  pesquisas  eram  outras,  mais  concretas.   Mais    de
laboratrio que de dicionrio. Nada de muita explorao de palavras.
        Mas tinha sido numa leitura que fizera a  grande  descoberta  do
dia.
        Voltou  reportagem. Releu a manchete: "Ligas de memria  chegam
ao Brasil".
        Com toda a ateno, foi relendo o que estava no  jornal.  Estava
chegando ao Brasil um novo material que vinha sendo desenvolvido h  dez
anos pelos japoneses. Novos metais. Na verdade, ligas de metais,  feitas
principalmente de nquel e titnio, ou de cobre, zinco e  alumnio.  Com
uma propriedade especial: podem ser deformadas mas depois voltam  a  sua
forma original ao atingirem a temperatura  de  restabelecimento,  que  
predeterminada. O jornalista dava exemplos:

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Parece mgica mas no . culos retorcidos e amassados na palma  da  mo
voltam ao formato original  ao  serem  largados.  Uma  mola  esticada  e
deformada  retorna  ao  normal  quando  mergulhada  num  lquido  morno.
Armaes de suti retorcidas na mquina  de  lavar  readquirem  a  forma
inicial quando so vestidas e entram em contato com o corpo da pessoa.

        As aplicaes prticas dos novos metais poderiam  ser  inmeras.
Em aparelhos de ortodontia, que se ajustariam  sozinhos    arcada,  sem
necessidade de serem retirados. Em condicionadores de ar, para controlar
as aletas que determinam a direo do fluxo.  Em  soldas  de  tubulaes
submarinas, sem aquecimento, mediante anis pr-resfriados  levados  at
as junes dos tubos,  que  se  contrairiam  na  temperatura  do  fundo,
vedando as juntas. Em antenas de  satlite,  construdas  na  terra  com
ligas de memria, deformadas e lanadas, para  adquirirem  no  espao  a
forma desejada, fixada como original.
        Tudo  isso  era  muito  interessante,  sem  dvida.  Vanda   no
conseguia se impedir de imaginar novos usos possveis, eram perspectivas
fascinantes. Mas o que mais a entusiasmava na  reportagem  no  eram  as
possibilidades futuras e sim  as  explicaes  passadas.  O  fim  de  um
mistrio e o incio de vrios outros. Agora sabia de  que  era  feita  a
argolinha oxidada. Argolona, alis, grossa e  pesada.  O  anel  de  dona
Constncia, achado no fundo do lago Constncia. O  anel  inconstante  da
volta constante.
        Mas se os japoneses s tinham descoberto isso agora, como   que
os suos j tinham conseguido obter essa liga h tanto  tempo?  Se  seu
Carlo tinha achado o anel dentro de um peixe l no  comeo  do  sculo,
essa tecnologia devia estar disponvel pelo menos havia algumas dcadas.
Ou

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mais, quem sabe? Afinal, o desenho da jia - se  que  se  podia  chamar
assim - parecia uma coisa to antiga... Como  que esse conhecimento  se
perdeu sem deixar vestgios?
        Pelas  explicaes  na  reportagem,  a  compreenso  terica  do
fenmeno era relativamente simples.    medida  que  so  aquecidos,  os
metais  passam  por  mudanas  de  fase,  vo  alterando  sua  estrutura
cristalina, a  posio  dos  tomos  na  molcula.  A  grande  conquista
tecnolgica  teria  sido  permitir  que  se  preestabelea  a    chamada
temperatura  de  memria,  em  que  a  liga  adquire  certa    estrutura
cristalina, correspondente a um formato predeterminado. Esse  novo  tipo
de  metal  (que  o  jornal  tambm  designava  como  metal-borracha)   
superelstico, consegue voltar ao original mesmo que  sofra  deformaes
dez vezes maiores que as permitidas  pelos  metais  comuns.  Algo  muito
sofisticado.
        Ento como  que j tinha sido descoberto antes e ningum sabia?
Que anel era aquele? Quem fez? Quando? Como foi parar na barriga  de  um
peixe no comeo do sculo?
        Quanto mais pensava, mais Vanda ficava fascinada. Saiu para  dar
as aulas da tarde no colgio,  voltou,  passou  no  supermercado  e  no
conseguia tirar o assunto da cabea.  Ligou  para  Lla  no  incio  da
noite, contou tudo, conversaram um tempo sobre a  descoberta.  E  ficou
esperando o marido voltar.
        Quando Guto chegou, ela lhe mostrou o recorte do jornal. Esperou
que ele lesse e comentou entusiasmada sobre a decifrao de um  mistrio
de dez anos. Mas teve uma surpresa.

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        A reao  dele  foi  meio  distante,  contida.  No  revelava  a
empolgao de algum que finalmente sacia  uma  curiosidade  cientfica,
com uma descoberta longamente esperada. Apenas a calma aceitao de quem
tem conhecimento de um  fato  novo,  ligado  a  uma  velha  histria  de
famlia, mas no fundamental. Uma  atitude  gentil  de  vago  interesse.
Quase condescendente, como quem elogia um desenho de  uma  criana.  No
tinha a vibrao que Vanda imaginara. Vibrao que  s  transpareceu  na
voz dele quando j saa da sala, se preparando  para  sentar  diante  do
indefectvel processador de textos. A parou junto  porta, segurando  o
pacote de livros que Alex trouxera, virou-se para  trs,  olhou  para  a
mulher e perguntou, com os olhos brilhantes:
        - Liga de memria?
        Ela confirmou.
        Guto deu um amplo sorriso e exclamou:
        - Mas este  um ttulo fantstico para um romance!





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CAPITULO IX


- Olha a gara, pai!
        O grito de Carol interrompeu o fio de  meus  pensamentos.  Grito
animado, acompanhado de uma risada gostosa, o  dedo  mostrando  o  andar
esquisito da ave. Perna dura e comprida apontando para trs ao  sair  da
gua, pescoo  longo  esticado,  corpo  se  jogando  para  a  frente  no
movimento de uma linha poligonal interrompida, jeito de boneco  mecnico
desengonado, tudo entremeado de intervalos da mais  perfeita  elegncia
ao aprumar o porte. Divertido de ver, minha filha tinha razo.  Graa  e
leveza de bailarina interrompidas por soluos  de  brinquedo  de  corda.
Animal feito para singrar o cu ou  dardejar  num  mergulho  cortando  a
gua, perde o ar sublime quando enfia os ps no lodo do fundo da  lagoa.
Beleza partida ao se ancorar no cho da realidade.
        Como a prpria lagoa, alis, hoje to linda e to suja, e  ainda
to poluda  pela  misria  humana.  To  diferente  das  lembranas  da
infncia de meu pai, que gostava de contar como  nadava  e  jogava  rede
para pescar baldes repletos de camaro. Eu mesmo me lembro dessas  guas
muito mais limpas,  apesar  das  eventuais  mortandades  de  peixe,  dos
monturos de lixo e da intimidade com as grandes favelas da  Catacumba  e
da Praia do Pinto. Apesar dos urubus.

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        Hoje est tudo arrumado,  urbanizado,  ajardinado.  Os  casares
viraram edifcios, os terrenos baldios se  acabaram,  as  favelas  foram
expulsas e deram lugar a conjuntos de  prdio  e  centros  de  lazer.  O
espelho d'gua diminuiu com sucessivos aterros. Os urubus  no  aparecem
mais, s as garas, e um ou outro pato ou galinha-d'gua. Os  restos  do
lixo hoje so disputados pelos mendigos. O fedor  humano. Amnia, merda
e falta de banho.
        A classe mdia passa, caminhando  ou  pedalando  pela  pista  em
volta da Lagoa,  buscando  sade,  metida  em  agasalhos  esportivos  ou
vestindo um sbort e uma camiseta mais usados, e  o  nariz    atropelado
pelo cheiro dos vizinhos clandestinos.  Famlias  miserveis  ocupam  os
bancos debaixo das rvores,  dormem  sobre  imundas  caixas  de  papelo
abertas, cozinham nas pedras junto   gua,  cagam  e  mijam  na  pista,
trepam onde der. Bbados vomitam na grama. Barbudos imundos se masturbam
olhando as meninas que passam perfumadas,  em  suas  ptalas  de  nilon
colorido revelando bundas e coxas durinhas e bem torneadas. Ao fundo, as
velas das regatas enfeitam as guas em paisagens ensolaradas dos eternos
ricos das pinturas de Dufy. Garas voam altaneiras e impvidas, compondo
carto postal.
        Mas chega uma hora em que barcos e pranchas recolhem as velas  e
vo para a  garagem.  E  as  garas  pousam  e  se  revelam  esquisitas.
Deslocadas e tradas.
        Como a Lagoa. Como a cidade. Como esta sociedade perversa  neste
pas maluco, de fartura e desperdcio. Minha terra, que adoro  e  queria
diferente. Quero andar pela beira da Lagoa ou pela praia, para me mexer,
exercitar o corpo. Num ritmo certo e automa-

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tico, que ajude a liberar a cabea  para  pensar  solta.  Um  dois  trs
quatro, inspira, cinco seis sete oito, expira. Como no tempo em  que  eu
nadava com Marlia. Duas braadas, solta o ar, duas  braadas,  solta  o
ar... Plaft, plaft, bluuu. Plaft, plaft, bluuu. E a viso de  dentro  da
gua se alternava ciclicamente com o vislumbre do cu l fora, a raia da
piscina era entrecortada pela viso da borda,  sempre  uma  e  depois  a
outra, uma e depois a  outra,  at  que  ficava  to  automtico  que  o
movimento no importava mais, era s o ritmo, e  ele  tinha  uma  msica
prpria, embalava, ajudava a pensar, a ter idias,  a  resolver  coisas.
Uma e depois a outra, uma e depois a outra...
        Tenho certeza de que, se eu conseguisse de  novo  instalar  esse
espao de ritmo  e  regularidade,  ia  pensar  melhor  no  que  anda  me
acontecendo. No precisaria ficar depois aqui assim, tentando olhar para
dentro de mim mesmo na frente de um monitor de computador, para analisar
sozinho o que est havendo comigo,  nesta  fissura  de  escrever  e  no
conseguir mais viver sem isto. Imaginando  o  que  vou  fazer  com  esta
compulso, que sentido vou dar a este absurdo inesperado  que  me  tomou
por dentro.
        Mas no d para desligar da realidade social.  E  nem  quero.  O
mnimo a fazer  diante  de  todos  esses  abandonados  brasileiros,  dos
mendigos na Lagoa aos vendedores nos sinais, das crianas pelas ruas aos
velhos largados por a,  no me desligar deles. E me  sinto  paralisado
pela impotncia, no  sei  o  que  posso  fazer  concretamente  alm  de
contribuir para projetos de apoio, pagar impostos direito, tentar  votar
certo. Sempre com a sensao de que no  adianta,  quase  nunca  consigo
eleger um candidato, so sempre os outros que ganham...

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        Penso em escrever sobre isso, mas sei que seria falso.  Discurso
poltico ou demaggico  coisa que a gente j tem de sobra, no  precisa
de mais um. E no resolve. Cafetinar a misria? Fazer fico sobre esses
deserdados, ser um porta- voz que  os  exprima?  Pode  parecer  um  belo
projeto, sem dvida. Para quem nunca se meteu a escrever a partir de uma
real necessidade interior,  e  acha  que  basta  estar  munido  de  boas
intenes. Coisa para assistente social, com  formao  para  isso.  Mas
leigo fica marginal. No d para expressar com verdade uma vida que  no
conheo, ia ficar artificial.
        Um impasse. Por mais que eu queira estar  prximo,  tenho  outra
linguagem.  Como  exprimir  com  pungncia  o   mundo    interior    dos
inarticulados, se no tenho condies de ser  Graciliano  nem  Faulkner?
Com que palavras traduzir a vivncia diria na abjeo? Que  tom  dar  a
uma voz de repertrio limitado e emoo infinita? De que  imagens  tecer
os devaneios para no cair no bvio e previsvel e ao mesmo tempo manter
o respeito fiel  que  os  personagens  merecem?  Impossvel  tentar  ser
realista a esta altura. Se experimentasse, eu era capaz de s  falar  na
dor e sofrimento, ou na revolta, por causa da minha solidariedade, e no
ter talento para mostrar de que so feitas as alegrias  e  paixes,  que
no consigo imaginar de que se  alimentam,  mas  tenho  certeza  de  que
existem. Melhor ter humildade e reconhecer meus limites. Para  fazer  um
texto falso e estereotipado,  melhor no escrever. E mais honesto.
        No fundo,  um labirinto. Sobrevoado por aves de rapina,  minado
por  grutas  subterrneas  cheias  de  monstros  marinhos.  E  comeo  a
desconfiar de que no tenha sada. Nenhuma estrutura ajuda a  encaminhar
para fora, s me

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enredo mais, em qualquer aspecto. Sem qualquer referncia exterior.
        Quando eu  era  menino,  entrei  um  dia  com  meus  primos  num
labirinto de verdade. Na casa de um amigo de meus avs, o velho Jair, um
dos homens mais poderosos da regio.  Dono  de  cartrio,  imperador  de
documentos, selos e  carimbos,  controlador  de  escrituras  e  tabelas,
demandas e partilhas, criador de meandros de  papis  e  manipulador  de
solues mgicas. Senhor de todos  os  labirintos,  mandou  plantar  um,
vivo, vegetal, monumento a seu poder. Ficava entre o mar e o sobrado  em
que morava. Cho de areia ou matinho ralo, paredes altas de pitangueiras
cortadas em cerca-viva.  A  gente  entrava  correndo,  aquele  bando  de
crianas, rindo, brincando, rodando  como  cabra-cega,  at  ficar  todo
mundo meio tonto. E depois levvamos um tempo at  encontrar  a  sada.
Parecia enorme, no sei se era mesmo ou ns   que  ramos  pequenos.  E
cheirava a pitanga, a folha recm-cortada, a maresia e sol. Mas a  gente
sempre acabava dando um jeito de sair. At mesmo porque amos aprendendo
os truques. O melhor era ficar quieto, em silncio, tentar distinguir de
que lado vinha o barulho das ondas, de onde soprava o vento. E,  de  vez
em quando, pular bem alto. No dava para olharmos por cima da cerca-viva
para ver a paisagem toda, mas s vezes era possvel distinguir o telhado
da  casa  ou  as  grimpas  da  amendoeira    distncia.  Facilitava   a
orientao. Sei de labirintos piores, mesmo  beira do mar. Como  o  que
prendia Ddalo em Creta. Mais doloroso que qualquer outro,  sem  dvida,
porque construdo por ele  mesmo  a  mando  de  um  tirano.  Um  criador
prisioneiro da prpria criao, posta a servio do poder, de  encomendas
exter-

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nas. Cativo numa rede de impasses arquitetnicos da qual s foi possvel
sair, indo alm dos limites humanos. Em altos vos. Mas que  no  podiam
ser altos demais, como comprovou o filho dele, Icaro.
        Lembro bem da histria, lida num dos livros do  meu  pai.  E  da
ilustrao. O sol enorme, l no alto, derretendo a cera que  prendia  as
penas s estruturas das asas amarradas  nos  braos.  Icaro  despencando
para a morte dentro do mar, no  meio  de  um  monte  de  plumas  que  se
soltavam para todo lado, levadas pelo vento, diante do  olhar  apavorado
do pai. Um estratagema que  parecia  perfeito  no  comeo,  mas  que  se
revelou mortal para quem se achou todo poderoso. Vtima da prpria obra,
mais uma vez. Lio de humildade para quem acredita  demais  na  prpria
criao. Como vou tendo que aprender a cada momento com a escrita.
        Mas alm dessas reflexes, eu  trouxe  da  caminhada  matinal  a
imagem das garas e o que ela desencadeou de lembranas e  vises  pouco
definidas em meu cineminha interior. O vo to elegante que elas tm,  o
pouso suave no alto das rvores. Os bandos que se misturam aos patos  em
formao em V, e que vejo todos os dias da  minha  janela  do  trabalho,
pelo cu de So Cristvo. De manh, em direo a uma ilhota na baa, em
frente aos guindastes e gruas do cais. No  fim  da  tarde,  de  volta  
Quinta da Boa Vista e ao Jardim Zoolgico. Como os outros patos, que  se
misturam s gaivotas e voam diariamente entre a lagoa de Marapendi e  as
ilhas ocenicas, na Barra. Alados habitantes  urbanos  que  resistem.  E
olham a cidade de cima,  altaneiros,  com  outra  pespectiva,  pondo  as
coisas no lugar. Reduzindo-as a sua verdadeira grandeza.

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        Olhar de ave. Atento e dominador. Pronto para o  mergulho  ou  a
rapina. O embrio do mpeto, guardado na placidez aparente de quem paira
acima do bem e do mal e pode se abater com preciso sobre uma  presa,  a
qualquer momento. Um raio animal vindo do cu. De pontaria certeira.
        Pssaro tem sempre um ar to inocente...  Difcil  imaginar  que
possa ser tambm um tubaro alado,  sombra  ameaadora  que  desliza  em
silncio e engole  voraz.  Lembro  que  quando  conheci  Vanda,  naquele
jantar, ela me fez pensar na doce tranqilidade de um  pssaro  em  vo,
gaivota serena na imensido azul,  guardando  rstias  do  sol  em  seus
imensos olhos amarelos e brilhantes.
        Hoje sei que as aves podem ser  agressivas,  e  Hitchcock  sacou
isso melhor do que ningum naquele filme.
        Uma coisa  surpreendente  que  descobri  nessas  leituras  sobre
beija-flores  que eles so muito briges. Uma pequena jia  esvoaante,
to leve e potica... Mas belicoso e agressivo. Um guerreiro em forma de
flor. E no  preciso pensar em galo de briga, canario-da-terra,  aguia,
falco ou outros exemplos bvios de aves que atacam. Como os gavies que
meu av me mostrava l na fazenda, dominando  os  ares,  sempre  prontos
para se lanar de bico e garras fulminantes sobre algum animal indefeso.
Basta ver como os pombos lutam e se destroem a bicadas,  logo  eles,  os
smbolos da paz. Ou como a prpria gaivota, que enxerga longe, escolhe a
vtima e no d a menor chance.  Do  ponto  de  vista  do  peixe,    de
arrepiar.
        Ainda bem que minha doce Vanda s tem da gaivota a  placidez  do
vo, a alvura de nuvem tangida  pela  brisa.  No  mais,    uma  cndida
rolinha, uma suave gata domstica e

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ronronante,  com  seus  olhos  amarelos  rajados  de  ruivo,  dourado  e
castanho. Uma  companheira  constante  e  amiga,  anjo  estendendo  asas
protetoras. Mesmo quando eu fico assim como estou,  esquisito,  arredio,
sem querer conversar nem sair, ela no cobra. E deve estar  estranhando,
eu mesmo noto como estou to diferente, dando pouca ateno a  ela.  Mas
sou obrigado a reconhecer que Vanda tem sido exemplar.
        Bem que ela tentou conversar um pouco sobre minhas  mudanas,  a
mania de escrever, as desculpas sucessivas que tenho dado para sair cedo
do trabalho ou simplesmente faltar. Falou em compulso, obsesso,  idia
fixa, est preocupada com minha sade,  imaginando  que  eu  esteja  com
problemas emocionais ou nervosos, sei l bem o qu. Mas  eu  no  queria
discutir essas coisas, so transformaes muito  pessoais,  um  processo
ntimo que estou vivendo e no  quero  trazer    conscincia  para  no
estragar o que ele possa a vir me dar em termos de  escrita.  Vanda  foi
notvel. Respeitou minhas evasivas, aceitou meus silncios. Limita-se  a
estar por perto, sempre atenta, brilho amarelo de lua nascente no olhar,
ao alcance de um chamado. Pairando no alto, inocente pipa    espera  de
que eu recolha a linha.
        Sei que  muito difcil que ela  entenda.  De  verdade,  nem  eu
entendo, apenas constato e vivo. Quando tento analisar, vejo que foi uma
mudana muito radical e profunda. E no momento, no d para compreender.
Ainda mais algum de fora. No vai conseguir mesmo.
        Mas Vanda tenta. Quer at participar, chegar mais  perto.  L  o
que estou disposto a mostrar, comenta, d palpites  bons.  Conversa  com
Llia sobre literatura. Ainda

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esta semana, depois que me ouviu discutir com a irm sobre  o  livro  do
Calvino, pegou para ler e est fascinada,  comentando  a  toda  hora.  
bonito ver como uma pessoa de esprito cientfico, como ela,  capaz  de
embarcar fundo no entusiasmo do velho italiano com a  literatura,  ponte
para o prximo milnio. Ontem mesmo, ela no resistiu  e  interrompeu  a
leitura de noite para vir comentar um trecho comigo,  os  olhos  de  mel
faiscantes de alegria. Conversamos sobre livros e  histrias.  Mais  uma
vez me lembrei de minha av com suas interminveis aventuras  de  Carlos
Magno. E falamos em todas as coisas que  aprendi  depois  -  e  mais  as
outras que Vanda sabe sobre o Imperador dos francos,  nunca  pensei  que
ela fosse to versada nesses assuntos medievais,  parece  que  andou  se
informando em uns livros da Llia. Contou que Carlos Magno,  depois  que
foi coroado pelo papa, encasquetou de defender a  Igreja.  Uma  de  suas
garantias no poder, afinal de contas. Patrocinou a fundao de mosteiros
e abadias e obrigou cada um deles a ter uma escola.  A    que    mais
interessante, porque quis que cada escola  tivesse  bibliotecas,  o  que
exigia um trabalho fantstico de uma poro de gente para copiar livros
a mo. E Vanda contou que, por causa disso, ele acabou  encorajando  uma
reforma da escrita, com a utilizao da escrita cursiva que  usada  at
hoje. As chamadas "minsculas carolngias", pelo que ela explicou. Coisa
que  acabou  sendo  muito  importante  para  a  difuso  dos  textos  da
Antiguidade e mesmo do Cristianismo. E o  mais  espantoso,  que  eu  no
sabia, mas ela me disse,  que Carlos Magno tinha rudimentos de latim  e
grego, mas era analfabeto.  Nunca  conseguiu  aprender  a  escrever,  s
conse-

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guia ler um bocadinho, mas se cercou de montes de sbios, a comear  por
Alcuno. Quer dizer, fez uma verdadeira  renascena  cultural  em  plena
Idade Mdia. E no conseguia redigir uma carta.
        Foi maravilhoso conversar com Vanda sobre tudo isso e  mais  uma
poro de teses de Calvino sobre a literatura e este milnio dos  livros
que est se encerrando. E consegui falar um pouco da escrita. Sei que  
timo dividir essas idias com ela - at onde posso.
        S que a aventura da  linguagem  no  d  para  compartilhar.  E
emocionante, mas solitria. Deixar que as palavras acorram  e  socorram,
evitar que traiam e se retraiam, nada disso d para explicar  e  dividir
enquanto processo.  luta ntima e alegria  aconchegada.  No  mximo,  a
gente mostra o resultado. Um nico resultado. O que ficou. Mas  a  dana
das escolhas, as tentaes simultneas, o sonho dos possveis, tudo isso
 definitivamente eliminado de qualquer partilha generosa com  o  outro.
Dor sem alvio, prazer individual. E vergonha  secreta.  Se  quiser,  eu
solto a lira e escrevo sobre o delrio dos lrios. Ou o  srio  mistrio
dos msticos crios. E s no mostrar nem publicar,  que  ningum  sabe.
Vexame oculto. Posso fazer jogos de palavras com todos esses pensamentos
e emoes que a viso matutina das garas me despertou, falar no  perigo
perene dos pssaros que pairam nos pramos, na macia ameaa  macia  que
no ar se amealha e se tece, para amassar quem adormece ou massacrar quem
arrefece. E outras bobagens. Depois,   s  apagar,  basta  um  comando,
ningum fica sabendo. Nem da brincadeira  divertida,  nem  do  resultado
ridculo. E pode ser que esses malabarismos verbais soterrados venham  a
deixar mins-

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culas razes e irrompam um dia, mais  adiante,  brotando  em  flores  ou
folhagens de exatido e surpresa. Podem  vir  a  ser  fundamentais  para
alguma coisa bem diferente que eu queira escrever mais adiante, daqui  a
muito  tempo.  So  um  treino  na  luta  quotidiana  com  as  palavras.
Chicotadas estalando junto aos ouvidos das feras, ou suculentos nacos de
carne oferecidos de prmio - para domestic-las e fazer com que  acorram
dceis a um futuro chamado. Lmina afiada, pronta para o uso. A tal faca
s lmina de que fala o poeta Joo Cabral.
        Exerccio de poder, parece. Mas, no fundo,  ato  de  entrega.  A
alguma fora desconhecida, l no fundo, que exige se manifestar e faz de
mim seu instrumento ou  canal  de  passagem.  S  tenho  que  me  manter
afinado. Ou desobstrudo, dependendo da metfora.
        Estou sabendo como , vivendo essa doideira o  tempo  todo.  Mas
no posso explicar a ningum.
        De qualquer modo,  um  trabalho  free-time.  Tempo  integral  e
dedicao exclusiva, como se exige dos professores  universitrios.  No
d para escrever s nas horas vagas, ou nos fins de semana, por hobby. 
uma deformao na maneira de ver o  mundo,  de  observar  em  volta,  de
analisar tudo, anotar mentalmente, registrar, guardar para depois. Vinte
e quatro horas por dia. Mesmo dormindo e sonhando. No d para  desligar
nunca. Estou sempre em busca de alguma coisa que eu mesmo no sei o  que
, flecha disparada rumo  a  um  alvo  desconhecido.  Desejo  de  alguma
totalidade inexistente, mas claramente delimitada, como  o  oco  de  uma
rvore, o vazio dentro de um anel.  preciso ter  muita  convico.  Ser
obsessivo, obcecado, manaco, ter idia fixa. Ser um doente.

143

        Tudo isso eu j pensei, j disse para mim  mesmo,  me  repito  a
toda hora.  E no consigo ficar livre, como devia. Por que me  deu  essa
mania agora? E por  que    quero,  preciso  tanto  escrever,  com  tanta
urgncia? O que ganho com isso? Por  mais que pense, no atino  com  uma
resposta. Talvez porque, na verdade, seja  obrigado  a constatar  que  
absurdo e sem sentido. No me acrescenta nada.  A  no  ser  uma    dose
diria de novidade.
        Mas continuo.
        Sou um maldito. Um possesso. Um cavalo galopado  por  uma  fora
estranha  que me faz parar ou seguir adiante, a seu  bel-prazer.  Crinas
ao vento, cauda  empinada,    pescoo  erguido,  a  toda  velocidade.  E
apaixonado pelo amplo espao do campo  aberto, sem fim.
        No h pssaro de olhos de fogo que me pegue.





144



CAPTULO X





        - De verdade, Llia, no sei nem por onde comear...
        Dava para perceber.
        No s pelo tom de urgncia na  voz  de  Vanda  quando  ela  lhe
telefonara de  manh, pedindo que passasse l de tarde para  conversarem
com calma. Mas  principalmente  por esse silncio da ltima  meia  hora,
to entrecortado de suspiros e rodeios.  Desde pequena, Vanda  tinha  um
jeito bem caracterstico, de tomar  flego  antes  de    dizer    coisas
importantes. Erguia a cabea, passava os dedos pelo  meio  dos  cabelos,
abria a boca e comeava a falar. Llia conhecia bem. Mas  desta  vez,  o
processo  estava  truncado. Cumpria-se todo o rito gestual e, em vez  de
articular frases, Vanda se  servia de mais um caf da  garrafa  trmica,
ou andava at a janela e olhava l  para  fora.  Ou  apenas  cruzava  os
braos e silenciava.
        Llia estava respeitando toda a hesitao, mas acabou resolvendo
 intervir:
        - Talvez eu possa tentar te ajudar a comear. Que tal  me  dizer
pelo  menos qual  o assunto?
        -  tudo, est tudo misturado, no sei por onde puxo a ponta  do
fio.
        Llia voltou  carga:
        - Tudo  como?  Trabalho?  Vanda  negou  com  a  cabea.  Depois,
acrescentou:

145

        - Pelo menos, trabalho meu, no. Mas envolve o trabalho dele.
        - Problemas na empresa? - insistiu a irm.
        - No sei, mas deve estar tendo. Impossvel que no  tenha.  Ele
no fala  nada, mas evidentemente est insatisfeito, vive  se  atrasando
para o trabalho,  faltando,  saindo cedo...  E  no  fala  mais  no  que
acontece l. Ou melhor, fala, sim. Mas de  outra maneira.  Como  se  no
tivesse nada a ver com aquilo.  Como  se  fosse  um    observador.    Um
psiclogo de laboratrio descrevendo o comportamento dos ratinhos.
        - Talvez esteja cansado, precisando de frias. Pode ser sinal de
 estafa... Quem sabe se ele no melhora se parar uns dias? Fica com mais
tempo  para se distrair,  viajar, fazer um esporte, ler, escrever...
        Novo suspiro de Vanda. Seguido de um comentrio:
        - No  nada disso, Llia.  A  situao  no  trabalho    s  um
reflexo de um  quadro muito mais geral.  uma coisa mais profunda.
        Foi a vez de Llia hesitar, antes de fazer a pergunta:
        - Vocs esto tendo problemas? No casamento, eu  quero  dizer...
Crise,  essas coisas. Pode falar, Vanda,  no  tenha  medo,  todo  mundo
passa por isso.
        - No, acho que no. Pelo menos, no no sentido normal que se d
a essas   palavras.  Eu  acho    que  ele  est  com  um  problema.  E,
logicamente, isso se  reflete  no dia-adia. Mas  um problema  do  Guto,
individual.
        - Que tipo de crise?
        Vanda teve um gesto de irritao:
        - Eu no falei em crise, p... Voc  que est falando. No  tem
crise  nenhuma.

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        Vendo  que  a  irm  estava  de  pavio  curto,  Llia  no  quis
dificultar as  coisas. Recuou, voltou a ter mais cuidado. J conseguira,
pelo menos, saber que  a questo  era com o cunhado. S  no  conseguira
que Vanda se sentisse mais  vontade para   desabafar,  abrir  o  peito,
explicar em que rea se situava a fonte daquela  aflio.    Esperou  um
pouco mais, mas, vendo que a  outra  ficava  em  silncio,  tentou  nova
abordagem:
        - E esse problema, de que tipo ? J sei que no  uma crise, me
 desculpe ter falado assim. Mas fica para que lado?
        Novo silncio de Vanda, apesar de todas  as  indicaes  de  que
queria  falar. Mas era bvio que se  trancava  e  no  conseguia.  Llia
experimentou outro  tipo de  pergunta:
        - Voc acha que isso foi uma coisa que se manifestou de repente?
        Progressos. Vanda assentiu com a cabea. A irm passou  questo
 seguinte:
        - Mas acha que a causa tambm  recente ou  alguma coisa que j
vem de  longe?
        A a resposta explodiu numa surpresa:
        - De longe? De longssimo... Tem mais de mil anos.
        - Essa no, Vanda. Chega de mistrio. Desembucha de uma vez.
        - Mas eu estou falando srio.  Eu  estou  achando,  quer  dizer,
achando,  no, tenho certeza, s no posso  provar,  que  esse  problema
comeou por causa de  coisas  que aconteceram h sculos,  tem  mais  de
mil e duzentos anos.
        - Deixa de pirao. Assim no d para entender.
        - No d mesmo para entender enquanto eu  no  explicar.  Mas  
muito  difcil, parece absurdo. Pirao, como

147

voc disse. Eu mesma custo a acreditar. Mas estou convencida de  que
 a nica  explicao. E fico com vergonha de falar nisso. Me  recuso  a
admitir que seja  verdade.  Eu sou uma cientista, Llia, e essa histria
toda vai contra tudo em  que  eu    acredito.  Mas  foi  exatamente  meu
espirito cientfico que me levou  a  concluir  que    ela      a  nica
explicao...
        Animada pela longa explicao da irm, Llia deu outro passo:
        -  Que  histria,  Vanda?  Agora  voc  me  deixou  morrendo  de
curiosidade...
        Vanda descruzou os braos,  mudou  de  posio,  olhou  para  os
lados, deixou  escapar:
        - Eu vou contar, Llia, j resolvi desde ontem, acordei disposta
a isso,  foi para contar que te chamei. Sei que tenho que discutir  tudo
com algum, e a  nica  pessoa com quem posso falar, sem que  pense  que
eu fiquei maluca,  voc. Tentei  conversar com Guto, ele nem percebe do
que estou falando, torce o assunto, est  completamente  tomado, no tem
como reagir. Quem vai ter que fazer alguma coisa sou eu, e vou  precisar
da sua ajuda. Mas  horrvel, me sinto como se  estivesse  traindo  ele,
fazendo  uma coisa pelas costas... Sei que no , mas que jeito?  Minhas
razes so de  amor, mas meu  comportamento    desleal.  Eu  no  estou
agentando isso...
        Llia veio se sentar junto da irm no sof, segurou a mo  dela,
falou  com carinho:
        - Minha querida, no fique assim. Voc  uma pessoa muito  leal,
isso no  se muda de uma hora para outra, faz parte integrante da gente.
Quer dizer, no  pode  estar agora cometendo nenhuma deslealdade.  Ento
no mis-

148

ture as coisas, no se angustie. Fique fria. E eu vou te  ajudar  em
qualquer   circunstncia,  sou  sua  amiga,  sua  irm,  companheira  de
ninhada, estou com voc  em tudo...  No se preocupe, a gente vai dar um
jeito. Qualquer que  seja  o  problema,  vamos    encontrar  juntas  uma
soluo.
        - No, no  preciso, eu j encontrei, a  gente  tem  s    que
resolver  agir...
        - Ento, pronto. Se j tem soluo, melhor ainda. Mas  no  acha
que era  bom voc me contar essa histria toda desde o comeo?
        - A  que est. Eu no sei por onde comear, j disse.
        - Quer comear pelos tais mil e duzentos anos atrs? Deve ser  o
incio.  Afinal de contas,  difcil ter alguma coisa antes disso...
        - Mas isso  o mais difcil...
        - Ento comece mais perto. Ontem, h uma semana, h um  ms,  h
seis  meses, h dez anos, h cinqenta anos, sei  l...  A  gente  conta
essa histria de  trs  para adiante. Que tal?
        - Est bem. Ontem, eu fiquei com a soluo  nas  mos.  H  umas
semanas,  descobri qual era o verdadeiro problema. H  um  ms,  tive  a
explicao  cientfica...  H muitos meses, quando nos  mudamos  para  o
apartamento novo, comecei a...
        Llia interrompeu:
        - Espera a. Assim est ficando muito confuso. Se voc der aulas
dessa  maneira, seus alunos vo sair completamente  ignorantes.  E  meio
pirados. Me diz  primeiro  de que  que ns estamos falando. Em  uma  ou
duas palavras.
        Vanda teve que rir e se descontraiu para responder.
        - Est bem. Uma palavra. Anel.

149

        - timo. E nem preciso perguntar que anel , porque  sei  que  a
argolinha da av do Guto voltou  cena em sua cabea ultimamente,  desde
que voc  ganhou este seu lindo anel de aniversrio de casamento e parou
de usar aquele aro  velho. Parece que ficou com saudades. Muito bem, at
a, estamos conversadas.  Depois,  voc ficou  me  pedindo  livro  sobre
alquimia, sobre magos, Idade Mdia, e sei l  mais  o  qu.  E  querendo
saber tudo de uma vez sobre os metais antigos, a liga em  que    o  anel
foi feito, essas coisas. A gente tem conversado  muito  sobre  isso,  eu
sei.  Mas, Vanda, minha querida, d para explicar por que isso  est  te
angustiando?  Que  importncia pode ter isso na sua vida, para te deixar
aflita desse jeito? Vamos  ordenar um pouco as coisas... Voc falou numa
explicao cientfica. Vamos  comear   por  isso?  E  um  terreno  mais
slido, onde voc se sente mais  vontade.
        - Mas voc sabe, eu j lhe disse. Aquela histria das  ligas  de
memria, eu te mostrei o artigo, comentei com voce.
        - Sei, estou lembrando. Voc descobriu as  ligas  de  memria  e
chegou  concluso de que o tal anel velho foi feito desse material. Foi
uma  explicao  cientfica bem plausvel. Tambm acho muito provvel. E
da? Era uma coisa que    sempre  te  intrigou,  um  mistrio  que  voc
resolveu. Como voc queria. Com a  cincia.  Ficou provado que havia uma
explicao racional, que no era nada de anel    mgico,  como  a  gente
brincava. No era o anel de Aladim, nem o do Senhor dos  Anis, nem    o
dos Niberlungos, nem o tal anel da fidelidade de sir Lancelote, nem o do
cavaleiro Yvain. Nem era mandala de Jung, nem miniatura  de  Stonehenge,
quer  dizer, nenhuma  daquelas

150

possibilidades mgicas em que eu vivia  falando  (e  nem  sempre  de
brincadeira,   bom no esquecer). J no consigo mais  nem  lembrar  de
todas as hipteses para o  seu  anel mgico da barriga  do  peixe.  Tudo
bem, no era nada disso. Bem que podia ser  uma  coisa  assim.  Mas  no
era, voc matou a charada. Pronto! Resolvido! Foi uma    pea    que  de
repente se encaixou num quebra-cabea. Por que a angstia?
        - Porque ainda  havia  outra  pea  no  quebra-cabea.  Um  lado
inesperado, de que a gente nem desconfiava. Ou no queria ver.
        - Que pea?
        - A pea que explica a ameaa, o perigo. Eu estava  vivendo  com
eles o tempo todo, sentindo a presena deles, e no sabia.
        Alguma coisa no tom de voz  dela  fez  Llia  ficar  preocupada.
Percebeu que  havia um componente real no medo da irm. Era mais do  que
o simples desconforto   de  uma  mente  racional  tendo  que  lidar  com
percepes intuitivas que rejeitava.
        - Voc usou o anel durante anos... Acha que te aconteceu  alguma
coisa de ruim? A liga  venenosa?
        - No, no h nenhum perigo nesse sentido. No    nada  fsico,
mensurvel.
        - Voc tem certeza?
        - Absoluta - confirmou Vanda.
        E ao tom de firmeza total se acompanhou o gesto de abrir a bolsa
e tirar  um envelope de papel pardo, do qual extraiu  um  vidrinho,  que
exibiu:
        - Mandei desmanchar o anel, reduzir tudo a p. Est aqui dentro.
 Desde ontem.

151

        Antes que Llia voltasse a  si  do  espanto  diante  da  atitude
drstica,  Vanda continuou:
        - Eu mesma analisei os componentes em laboratrio. No tem  nada
perigoso. Quer dizer, tem a presena de  cobre  na  liga,  mas  no  tem
nenhum  problema.  Ningum se envenena pelo contato com essa  quantidade
do metal.
        - Ento qual  o perigo?
        Suspiro fundo.
        - Vamos, diga - insistiu Llia. -  Quer  ajuda  de  novo?  Vamos
tentar outra vez. O mesmo truque. Quem sabe  se  funciona,  se  a  gente
repetir...  Outra vez,  Vanda, diga uma palavra. Uma s, vamos...
        - Mas que palavra, Llia? A  que est... No sei como isso  se
chama. Maldio, magia, feitio,  sortilgio,  encantamento...  No  so
palavras  correntes  na minha rea. Alis, no so  conceitos  presentes
na minha vida. Eu no uso  esses termos.
        Foi a vez de Llia ficar em  silncio  algum  tempo,  pensativa,
antes de  perguntar:
        - Mas de onde voc tirou essa idia?
        - Isso  que eu acho um espanto. De um livro  que  voc  e  Guto
leram, releram e discutiram tanto que me deu vontade de  ler.  A  achei
l, com o  maior  destaque. No sei como  que vocs no  repararam.  Eu
descobri, levei um susto e  li para ele o trecho em voz  alta.  Ele  no
percebeu nada. Mas estou convencida de  que  a nica explicao.
        - Que livro?
        - Aquele  do  talo  Calvino,  Seis  propostas  para  o  prximo
milnio.  Maravilhoso, por sinal.
        - Voc tirou essa idia do livro do Calvino? No entendo...  um
 livro sobre literatura, no  sobre magia...

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Como  que vai te dar uma idia dessas?  E  outra  coisa:  voc  no
disse que era uma coisa do milnio anterior? De mais de mil  e  duzentos
anos atrs?
        Vanda confirmou:
        - E ... Um dos personagens da  histria,  o  arcebispo,  morreu
entre a  Frana e a Espanha, no desfiladeiro de Roncevaux, no dia 15  de
agosto do ano de  778, segundo andei  pesquisando.  Mas  voc  no  quer
saber qual  a histria? Vamos ver.   s olhar no livro. Vou pegar  ali
na estante e te mostrar o trecho.
        Em poucos  minutos,  sua  voz  clara  e  pausada  estava  lendo,
enquanto as  linhas eram percorridas pelo vaivm dos olhos amarelos,  de
abelha zumbidora,  como dizia Guto:

        Comearei pelo relato de uma antiga lenda.  O  imperador  Carlos
Magno, j em avanada idade, apaixonou-se por uma    donzela  alem.  Os
bares da corte  andavam  muito  preocupados  vendo  que  o    soberano,
entregue  a uma paixo amorosa que o fazia esquecer sua dignidade  real,
negligenciava os  deveres do Imprio. Quando a jovem morreu subitamente,
os dignitrios respiraram  aliviados,  mas por pouco tempo, pois o  amor
de Carlos Magno no morreu com ela. O imperador    mandou  embalsamar  o
cadver e transport-lo para sua cmara, recusando separar- se  dele.  O
arcebispo Turpino, apavorado com  essa  paixo  macabra,  suspeitou  que
havia ali um sortilgio e quis examinar o cadver. Oculto sob  a  lngua
da morta,  encontrou  um anel  com  uma  pedra  preciosa.  A  partir  do
momento em que  o  anel  passou  s  mos    de  Turpino,  Carlos  Magno
apressou-se em mandar sepultar o cadver e transferiu  seu  amor para  a
pessoa do arcebispo. Turpino, para  fugir  quela  embaraosa  situao,
atirou o anel no lago

153

Jonstana. Carlos Magno apaixonouse ento pelo  lago  e  nunca  mais
quis se afastar  de suas margens. *

        Vanda terminou a leitura e fechou o livro com Cuidado, ajeitando
as  orelhas da sobrecapa Olhou firme  para  a  irm,  como  quem  espera
alguma coisa, mas  no primeiro  momento Llia no disse nada. Ficaram as
duas em Silncio, na tarde que  terminava, derramando uma  inacreditvel
luz rosada sobre a mata prxima e a  linha de montanhas.
        Depois de algum tempo, a dona da casa se levantou e recolheu  as
garrafinhas penduradas junto    janela  para  alimentar  os
beija-flores, providncia  vespertina  indispen svel a quem no
quisesse  tambm  ter morcegos esvoaando por perto  durante a noite.
        - Se a gente no tiver cuidado, acaba atraindo quem no  quer  -
Comentou.
        No resistiu e acrescentou:
        - Igualzinho ao anel de Carlos Magno.
        S ento, Llia deu o primeiro palpite:
        Voc tem toda razo. A histria  inacreditvel, mesmo para  uma
crdula  como eu. Mas faz o maior sentido.
        A, Vanda comeou a falar:
        - Claro, Llia! E se a gente aceitar  essa  premissa  absurda  e
irracional,  tudo a partir da fica  lgico  e  racional.  Faz  o  maior
sentido, como voc disse.  Veja s. O anel foi jogado no lago Constana,
justamente onde ele foi pescado

* Cito a tima  traduo  de  Ivo  Barroso  para  a  edio  brasileira,
Companhia das Letras, 1990. (N. da A.)



154

        - Voc tem certeza?
        - Tenho, por causa  da  coincidncia  do  nome  com  o  de  dona
Constncia, era  um  detalhe  em  que  ela  insistia  quando  contava  a
histria. Alis, essa questo  dos  nomes me parece que tambm  ajuda  a
explicar as coisas. O Sortilgio, ou seja l   que  nome  tenha,  recaa
sobre Carlos Magno, que quer dizer Carlos, o Grande.  Depois,  passou  a
se exercer sobre outro grande Carlos, que todos chamavam de seu  Carlo.
Foi ele quem pescou o peixe na Sua l no comeo do sculo e o entregou
no sul  da Bahia a uma moa para a qual ele no ligava a mnima, mas por
quem ficou, de  repente, absolutamente apaixonado at  o  fim  da  vida.
Igualzinho  lenda, voc  percebe?  Se ela era a dona  do  anel,  era  o
objeto do desejo dele... Dele e do Guto, alis,  tambm, vidrado na av.
        - Guto? Como  que ele entra nisso?
        - O nome dele  Carlos Augusto, no  se  esquea.  Augusto,  que
quer dizer  magnfico, elevado, sublime, to grande que fica  acima  dos
Outros... Outro  grande  Carlos, pronto para ser enfeitiado, encantado,
sei l... E sempre foi mesmo.  Louco  pela  av  a  vida  toda,  at  eu
aparecer e ela me passar o anel, a fiquei  sendo   eu  o  alvo  daquela
paixo toda.
        - Mas bem que voc gostava, nunca  te  VI  reclamando  -  tentou
brincar Llia.
        - Pode ser, no vem ao caso. Eu gostava mesmo,  no  achava  que
era doena   nem  maldio,  no  tinha  reparado  direito,  no  estava
consciente de nada...
        - Voc disse que s reparou depois da mudana, no  foi?  Quando
voc  ganhou o anel novo...
        -  - confirmou Vanda. - Porque com a mudana,

155

passamos a ter um escritrio e eu usei o anel para prender os  lpis
que dei a   ele  para  inaugurar  a  escrivaninha  nova.  Da,  Guto  se
apaixonou pelos lpis, ou  pelo  que  eles  faziam:  escrever.  E  ficou
ainda pior quando  usou  a  argola  para  prender    os  fios  atrs  do
processador de texto. Agora, tudo o que quer na vida   escrever.  E uma
obsesso, ele no consegue pensar em outra coisa. Isso  vai  acabar  com
ele...
        Fez uma pausa e acrescentou:
        - Eu no posso deixar.
        Llia sentiu um calafrio de repente. Talvez o ar  do  comeo  da
noite,  entrando pela janela aberta. Tentou desanuviar a conversa:
        - Ainda bem que vocs no tm nenhum filho chamado Carlos Csar.
Pelo  menos, no tem perigo de um Carlo Jnior ou Neto  para  continuar
essa histria.
        Mas a resposta de Vanda foi quase um grito:
        - E Ana Carolina? Voc se esqueceu de Carol, Llia? Pode ser  no
feminino, no diminutivo, mas o nome  Carlos,  a  mesma  coisa.  E  ela
est indo  pelo mesmo  caminho, vive  vidrada  naquele  computador.  Por
isso  que eu tenho que dar um  basta  nesta  histria,  defender  minha
filha. Entendeu agora?
        Llia olhou o vulto algo indefinido da  irm,  levantando-se  na
penumbra e  se espreguiando antes  de  acender  a  luz.  Os  ombros  se
alargavam, os braos se  abriam.   Era  uma  guia  defendendo  a  cria,
abrindo toda a envergadura das asas antes de se  abater sobre a presa.
        Abajur aceso, sala iluminada, conversa mais fluente.
        Vanda deixou de  lado  as  hesitaes  e  contou  como  resolveu
submeter os  indcios a testes cientficos. Primeiro,

156

refletiu sobre a histria do anel na famlia, observando que  mesma
causa (o  anel) correspondia sempre o mesmo efeito (a  paixo).  E  que,
como exigia a  cincia,  cessada a  causa,  cessava  o  efeito.  Depois,
resolveu fazer  uma  anlise  tcnica  do    material,  em  laboratrio.
Comprovou que se tratava mesmo de uma liga de memria.
        - Tive que tirar o chapu para os  seus  alquimistas,  Llia,  e
reconhecer  que eles  eram  capazes  de  dominar  processos  muito  mais
complexos do que eu  poderia  explicar com a imagem que tinha deles.
        A irm retificou:
        - Para ser exata, Vanda, no sei se a gente pode  atribuir  isso
aos  alquimistas.  verdade que eles viviam lidando com metais, em busca
da pedra  filosofal,    e  tinham  conhecimentos  extraordinrios.  Mas,
apesar da alquimia ter se originado  na Antiguidade, com razes tanto em
Alexandria e na Mesopotmia como entre os  chineses,  a queda do Imprio
Romano rompeu temporariamente os laos entre o Ocidente e  a    alquimia
grega, herdeira dos  antigos  orientais.  S  com  os  rabes    que  a
alquimia  ir dominar a Europa,  e  nessa  poca  de  Carlos  Magno,  os
sarracenos ainda estavam   chegando...  Basta  ver  que  esse  arcebispo
Turpino morreu em Roncevaux, como voc  mesma lembrou, num combate  para
impedir os mouros de entrar na Frana. A    alquimia  s  vai  mesmo  se
expandir pelo Ocidente a partir dos rabes, e dos  viajantes  irlandeses
que andaram pelo Oriente fazendo coisas incrveis como medir  pirmides,
por  exemplo.  Quer  dizer,  o  que  voc  chama  de  meus  maravilhosos
alquimistas podem  muito bem  ter sido algum diferente: meus  fabulosos
druidas celtas, ou magos e  encantadores de origens varia-

157

das, descobrindo ligas de  memria  e  fazendo  anis  mgicos  para
bares, duques ou  donzelas que queriam seduzir o imperador...
        Antes que Llia se  empolgasse  demais  com  seus  ocultismos  e
desandasse a  falar em  runas,  tar  ou  astrologia,  Vanda  tratou  de
retomar o fio da meada:
        - Isso no vem muito ao caso, de qualquer modo. O que importa  
que, de  uma maneira ou de outra, algum dessa poca, seja alquimista ou
mago, foi capaz  de  fazer uma liga como essa. Mais  que  isso:  no  se
limitou a essa proeza  metalrgica, mas foi muito mais alm. Os  objetos
contemporneos que esto sendo  produzidos  hoje com as ligas de memria
so apenas conquistas tecnolgicas muito prticas.  Mas  esse  anel  era
diferente. Estava tambm impregnado de uma outra coisa, que   no    sei
como denominar. Algo que no posso chamar de elemento nem substncia nem
energia, porque no consegui detectar em nenhuma prova qumica ou fsica
de  laboratrio.
        - Mas algo que voc sabe que existe...
        - Sou obrigada a concordar que sim. Algo que estou convencida de
que  existia naquele anel, porque comprovei seus efeitos. Uma coisa  que
vou chamar de  sortilgio  (embora o termo no me  satisfaa,  mas    a
mesma palavra do texto do Calvino), e  que cria uma espcie de campo  de
foras que  atrai  irremediavelmente  uma  linhagem    de  vtimas.  Por
enquanto,  observei  a  atrao  quase  magntica  exercida  por    esse
sortilgio ou encantamento sobre os grandes Carlos. Mas nada me  garante
que se  limite  a eles e que minha pequena Carolina consiga ficar imune.
        - E  nesse ponto que a professora de cincias se mistura com  a
me e  voc resolve sair de suas pesquisas e

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observaes para interferir diretamente no  processo...  -  comentou
Llia.
        - Exatamente. E  eu,  se  fosse  voc,  tambm  trataria  de  me
preocupar.  Afinal, voc tem um filho chamado Alexandre, xar  de  outro
grande imperador  antigo, Alexandre  Magno... Quem garante que  a  coisa
no pode sobrar tambm pra cima dele?
        Llia olhou com ar intrigado para a irm. No conseguia perceber
se  Vanda estava brincando ou falando srio. Mas agora  que  a  barreira
inicial se  rompera  e as coisas estavam sendo ditas com mais  fluncia,
ficava mais fcil descobrir.  Era s dar corda.
        - E como  que voc est pensando em interferir?
        - Rpido.
        Isso no era resposta. Llia quis mais detalhes:
        - Em que  que eu posso te ajudar? Porque voc j resolveu o que
vai  fazer, como estava me dizendo h pouco. J sabe qual   a  soluo,
no ?
        Apesar de estar dando a impresso de j ter decidido tudo, Vanda
revelou  alguma hesitao:
        - A  que est... Eu sei,  em  linhas  gerais.  Mas  no  tenho
certeza. E  nem sei se  a soluo, s espero que possa ser uma soluo.
Mas me parece  lgica,  veja bem. Em primeiro lugar, acho que temos  que
agir com urgncia, para no dar  tempo de se constituir um novo plo  de
atrao e para evitar que, de repente, o   Guto    (e  a  Carol)  fiquem
fixados neste vidrinho com o p do anel, o que  sempre um  risco.
        - Faz sentido - concordou Llia.
        - E em seguida, a gente tem que dar um fim nesse material.

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        - Como? - quis saber Llia.  -  Lembre-se  que  o  arcebispo  j
resolveu  jogar o anel no  lago  e  s  conseguiu  que  o  imperador  se
apaixonasse pelas  guas...
        - A  que est. No  possvel deixar o  material  todo  junto,
concentrado, com a fora intacta do sortilgio. Vamos ter que  dispersar
tudo,  espalhar esse  p aos quatro ventos. Foi por isso que  eu  pensei
em voc para me ajudar.   Primeiro  eu  pensei  em  ir  at  o  alto  do
Corcovado e jogar l de cima, mas achei  que caa    tudo  na  mata  ali
embaixo, era meio concentrado, fiquei com medo. Ento tive a   idia  de
pedir a ajuda do Alex, por seu intermdio.
        -Do Alex?
        - ... A gente pode pedir a ele que  aproveite  um  vo  de  asa
delta e v  espalhando bem  as  partculas,  dispersando  o  mximo  que
puder. Ele pode jogar em  cima  do mar e da terra, pode soltar a  poeira
do anel no vento, nas nuvens, soprar o  p no meio  das  tais  correntes
trmicas de que ele fala, que sugam bem para o  alto   do  ar...  A,  o
maximo que pode acontecer com o Guto  ele se  apaixonar  pelo    mundo,
pelo planeta, no faz mal nenhum.
        Llia deixou uma pausa, quando Vanda  acabou  de  falar.  Depois
perguntou,  quase timidamente:
        - Voc tem certeza absoluta do que est propondo? Alis, do  que
j est  fazendo, desmanchando esse anel?
        - Tenho. Vou livrar meu marido de um feitio. Por  mais  que  eu
morra de  vergonha de colocar as coisas nesses termos.
        - E se sinta um tanto desleal... - lembrou a irm. -  Eu  fui  a
primeira a reconhecer isso. Mas quis ser leal e no deu.   Tentei  falar
com ele, explicar o que estava achando, comunicar minhas  descobertas...
Ele  est intei-

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ramente possudo, no registra o que eu digo.  Ento,
tenho que fazer por minha  conta tudo o que deve ser feito.
        - E ele, Vanda? Voc no acha que ele pode no querer?  Que  ele
pode  estar gostando disso? Que o que voc est chamando de feitio pode
ser uma    atividade    absolutamente  apaixonante  na  vida  dele?  Uma
obsesso, concordo... Mas uma coisa  que est dando o maior teso a ele.
Um canal de criao com que ele est se  ligando  ao  mundo  de  maneira
profunda. No pode ser isso?
        - Ligando ao mundo, Llia?  at  engraado.  Nunca  esteve  to
desligado  de tudo. Do trabalho, dos amigos, do dia-a-dia da casa... At
de mim. Pode ser  at  que ele ache que est gostando desse  negcio  de
escrever, como se fosse um  brinquedo. Mas tenho certeza absoluta de que
est fazendo mal a ele,  quase uma  forma  de loucura,  uma  coisa  que
est afastando o Guto das responsabilidades dele no  trabalho, de tudo o
que  importante. Parece  aquelas  coisas  de  desbunde,    lembra?,  h
alguns anos, quando as pessoas se drogavam e saam de rbita?  Ele  est
ficando  assim. Eu no vou deixar. Tenho certeza absoluta do  que  estou
fazendo.
        Llia cedeu:
        - Bom, se  assim e voc no tem dvida nenhuma, se  baixou  uma
certeza  cientfica total, ento vamos l. Imagino que no haja problema
algum com a asa- delta.    Alex  e  seu  expresso  voador  esto    sua
disposio para pular da rampa na  primeira oportunidade.
        Deu um sorriso e sugeriu:
        - Voc no quer aproveitar e ir com ele? Fazer um vo duplo para
 garantir um servio bem-feito?
        - No brinque com coisa seria...

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        - E onde  que eu entro nisso?
        - Voc  me dele,  mais fcil pedir. E  toda  chegada  a  uns
esoterismos, vai ter que dar muito menos  explicao  do  que  eu,  todo
mundo aceita  muito mais  uma esquisitice dessas se vier de voce...
        Llia concordou:
        - No vale me chamar  de  esquisita,  mas  est  bem.  Me  d  o
vidrinho que eu  falo com ele, invento uma histria qualquer.
        - No, Llia. Voc inventa a histria, mas eu fico com o vidro e
vou at  l em cima com o Alex (ou com vocs, se voc quiser vir junto).
At a rampa. S  entrego o p na hora, no posso me arriscar...
        A irm ainda tentou fazer humor, meio nervosa:
        - Quem ouve voc falar at pensa que  traficante. E p pra  c,
p pra  l... Cuidado, hein!? Mas,  pensando  bem,  acho  que  voc  tem
razo,  melhor ficar  mesmo  na sua mo at o ltimo minuto. Afinal  de
contas, voc j est acostumada, foi  na sua mo  mesmo  que  esse  anel
morou durante os ltimos dez anos... De qualquer  jeito,  vou falar  com
o Alex. Amanh  sbado. Se o vento estiver bom, na certa ele vai  voar.
A gente pode aproveitar e  resolver  isso  logo.  Como  voc  quer,  bem
rpido.

        E bem rpido, tudo foi feito.
        Como Vanda queria.
        Bastou um vo e as diminutas partculas de  poeira  medieval  se
espalharam   por  toda  parte,  imperceptveis  e  quase  microscpicas,
dispersas por uma  distncia    desconhecida,  suspensas  por  um  tempo
ignorado, sopradas e carregadas por ventos  de todos os quadrantes.

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        Vanda relaxou e respirou  aliviada.  Ufa!  Vencera  a  ameaa  e
libertara o  marido de uma obsesso,  de  um  encantamento  ancestral...
Mais que isso. De  uma    maldio    milenar,  surgida  l  longe,  nos
primrdios do mundo dos livros, no engatinhar da  escrita e de  palavras
hesitantes.

        Mas foi sem nenhuma hesitao que, muitos meses depois, Guto  se
levantou  da frente do teclado do computador  uma  manh  e  foi  at  a
janela. Queria olhar um  bem-te-vi  que  cantava,  barulhento,  abafando
todos os outros pssaros matutinos  com seu grito escandaloso, que desde
pequeno ele se acostumara a reconhecer como  um   testemunho  anunciado.
Lembrou da av cantarolando com ele:
        - Bem-te-vi! Bem-te-vi!
        Nunca conseguira saber o que foi que o pssaro  viu.  Mas  sabia
que no  havia quem o calasse. Nem mesmo o gavio, terror  de  pastos  e
matas, relmpago  vindo  dos ares,  mas  repetidamente  derrotado  pelas
bicadas insistentes com que o  adversrio mais gil sempre lhe atingia a
cabea.
        Nessa viso e nessa lembrana, Guto encontrou de repente  aquilo
que  estava procurando havia tanto tempo. A estrutura com que ia amarrar
sua escrita.  O contraponto  entre a amplido generosa do vo  majestoso
e soberano do senhor dos ares, pronto  para a rapina, e  a  leveza  gil
das intervenes cortantes  de  seu  alado    adversrio,    to  menor,
irrompendo inesperado, incontrolvel. Ia  ser  um  dia  quente.  Ventara
muito durante a noite, uma ventania  abafada,    daquelas  que  anunciam
tempestade antes do fim da tarde. Ao voltar para junto  da    escriva-

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ninha, Guto percebeu uma camada de poeira fina cobrindo tudo,  resultado
de sua  insistncia para que ningum mexesse em suas coisas  quando  no
estava presente.  Passou  a mo na mesa e a recolheu cheia de  p.  Hoje
ia ter que dar uma limpeza. No  podia adiar mais. Mas antes, ia comear
a escrever. Era mais inadivel,  prioritrio,    urgente,  que  qualquer
outra coisa. Mesmo com todo o calor que j o  fazia  suar,    desde  to
cedo.
        Ligou o computador, esperou a tela do monitor se acender, enfiou
o  disquete l dentro. Antes de segurar o mouse, enxugou o suor da testa
e do rosto  com as  maos. Sabia que devia ter ficado com a cara  imunda,
com marcas de dedos sujos,  como menino na volta do futebol. Quase podia
ouvir a av mandando se lavar. Mas  isso  ia ficar  para  depois,  mesmo
com toda aquela poeirada se impregnando na pele.  Agora tinha que deixar
sair as palavras que iam contar o pesadelo do qual  s  ia    se  livrar
pela escrita. A imagem fascinante e terrvel que o rondava havia  tantos
meses e  s agora estava  conseguindo  vomitar.  Para  se  livrar  dela,
dividir  com  os  outros,    transform-la  em  qualquer  outra    coisa
desconhecida e externa. S nesse momento,  de repente, sentia que estava
pronto, tivera um dique.  Alguma  coisa  amadurecera    l    dentro  e,
finalmente, estava pronta. Escreveu febrilmente, sem  parar  para  tomar
caf, sem se interromper nem mesmo  para lanar um  olhar  at  a  porta
onde Vanda chegara vrias vezes, olhando para   ele,    meio  assustada.
Quando finalmente parou, exausto, tinha terminado o que queria.  Releu o
conto com ateno, seu primeiro texto  que,  finalmente,  o  satisfazia.
Depois  de tanto tempo de luta to rdua, vencera. Afinal, botara  pa-

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ra fora. Reconheceu nas linhas que se formavam na tela a  presena  do
monstro que  h tantos meses o assombrava, atenta guia de viso  aguda,
olhos de escorpio  dourado.  Estava domado. Conseguira. Era isso o  que
desejava. Sentiu que estava vivendo um  momento raro, um lampejo curto e
fugidio.
        Agora, sim. Podia parar, se lavar, tomar caf. Respirar aliviado
at a  prxima possesso inescapvel, que viria, tinha certeza.
        E que s se resolveria da mesma forma, com  outro  texto.  Outro
grito das  entranhas, sussurrado aos quatro ventos.








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Este livro foi impresso na cidade de Petrpolis,
em julho de 1993, pela Editora Vozes
para a Editora Nova Fronteira do Rio de Janeiro.
O tipo usado no texto foi Sabon, no corpo 11/15.
Os fotolitos do miolo foram feitos pela Mergulhar,
e os da capa, pela Grafcolor.
O papel do miolo  off-set 75g,
e o da capa, carto supremo 250g.

No encontrando este livro nas livrarias,
pedir pelo Reembolso Postal 
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Bambina, 25 - Botafogo - CEP 22251-050 - Rio de Janeiro


 
